Mundo de ficçãoIniciar sessãoA MENINA DOS OLHOS TRISTES
A chuva caiu durante toda a madrugada. Fina. Silenciosa. Persistente. Na manhã seguinte, o Orfanato Santa Luz parecia ainda mais melancólico sob o céu cinzento. As paredes antigas carregavam marcas do tempo, e o pequeno jardim na entrada estava coberto de folhas molhadas que balançavam com o vento frio. Mesmo assim… Aquele lugar ainda possuía mais calor humano do que qualquer mansão milionária que Ayla já conheceu. Ela estacionou em frente ao portão pouco depois das nove da manhã. Dentro do carro, permaneceu alguns segundos imóvel segurando o volante. O nome Valença ainda queimava dentro da sua cabeça desde a noite anterior. Ela quase não dormiu. Sempre que fechava os olhos: Lembrava. A mansão. Os corredores frios. O cheiro do perfume dele. A voz dele. E isso a aterrorizava. Porque depois de cinco anos… Gael ainda tinha o poder de bagunçar tudo dentro dela. Ayla respirou fundo antes de sair do carro. Precisava se concentrar. Precisava esquecer. Precisava continuar funcionando. Como sempre fazia. Assim que entrou no orfanato, algumas crianças correram imediatamente até ela. — Tia Ayla! Um menino pequeno abraçou sua cintura enquanto outra menina segurava sua mão sorrindo. Ayla sorriu automaticamente. Era impossível não sorrir ali. Talvez porque aquelas crianças entendessem a dor umas das outras sem precisar dizer nada. — Eu trouxe os doces prometidos. Ela anunciou suavemente. As crianças comemoraram animadas. A irmã Cecília surgiu logo em seguida no corredor principal usando o hábito azul-claro já desgastado pelo tempo. O rosto gentil da freira se iluminou. — Você salva minhas manhãs toda vez que aparece carregando açúcar. Ayla riu baixo. — Acho que elas só gostam de mim pelos brigadeiros. — Não. —Elas gostam porque você olha para elas de verdade. Aquilo atingiu Ayla de maneira silenciosa. Porque ela sabia exatamente como era ser invisível. Enquanto organizava os doces na cozinha pequena do orfanato, seus olhos procuraram automaticamente pela mesma menina do dia anterior. Lívia. Ela não estava entre as outras crianças. Ayla sentiu algo estranho no peito imediatamente. Uma inquietação sem sentido. — Onde está a Lívia? Perguntou distraidamente. A irmã Cecília suspirou. — Teve febre durante a madrugada. —Está descansando no quarto. O coração de Ayla apertou de forma inesperada. — Ela está bem? — Sim. Mas ficou assustada com a tempestade. Claro. Aquela menina parecia assustada com tudo. Ayla hesitou por alguns segundos antes de falar: — Posso vê-la? A irmã Cecília sorriu discretamente. Como se esperasse aquilo. — Último quarto do corredor. O corredor que levava aos dormitórios era silencioso. As paredes claras possuíam desenhos infantis presos com fita adesiva. Pequenas flores feitas à mão. Cartas coloridas. Rabiscos tortos. Tentativas delicadas de transformar abandono em lar. Ayla caminhou devagar até a última porta. E encontrou Lívia encolhida na cama pequena perto da janela. O coelho de pano velho estava apertado contra o peito dela. A menina parecia ainda menor dormindo. Frágil. O cabelo escuro espalhado pelo travesseiro contrastava com a pele clara levemente avermelhada pela febre. Ayla sentiu algo doloroso atravessar seu peito. Uma vontade absurda de protegê-la. Ela se aproximou lentamente. Tentando não fazer barulho. Mas o piso antigo rangeu discretamente. Lívia abriu os olhos imediatamente. Assustada. Os olhos cinzentos demoraram alguns segundos para reconhecê-la. Então a tensão da menina diminuiu. Aquilo mexeu profundamente com Ayla. Porque confiança nunca deveria ser algo tão raro em uma criança. — Desculpa eu acordei você? Lívia balançou a cabeça devagar. A voz saiu pequena: — Você voltou. Ayla sentiu a garganta apertar imediatamente. Como alguém podia dizer duas palavras com tanta esperança? Ela se sentou cuidadosamente na cadeira ao lado da cama. — A irmã Cecília disse que você ficou doente. Lívia apertou o coelho de pano. — Eu não gosto de chuva forte. — Por quê? A menina abaixou os olhos. — Porque acho que as pessoas vão embora. O ar desapareceu lentamente dos pulmões de Ayla. Aquela frase foi como uma facada silenciosa. Porque durante cinco anos… Ela também viveu aterrorizada pela sensação de abandono. Sem perceber, Ayla estendeu a mão até afastar delicadamente alguns fios de cabelo do rosto da menina. E então aconteceu novamente. Aquela sensação. Quase dor. Quase saudade. Quase amor. Forte demais. Inexplicável demais. Lívia observou cada movimento dela atentamente. Como se tivesse medo daquele carinho desaparecer. — Você tem uma filha? A pergunta pegou Ayla desprevenida. Seu corpo inteiro endureceu. Por alguns segundos ela simplesmente não conseguiu responder. Porque a palavra filha ainda destruía algo dentro dela. — Eu tive. A voz saiu baixa. Quebrada. Lívia ficou em silêncio. Depois perguntou quase num sussurro: — Ela morreu? Ayla sentiu os olhos queimarem imediatamente. Não. Ela nunca soube. E talvez aquela fosse a pior parte. Não ter corpo. Não ter resposta. Não ter fim. Apenas vazio. — Eu não consegui encontrá-la. Respondeu com dificuldade. Lívia apertou o coelho de pano contra o peito antes de perguntar: — Você ainda procura? Ayla sorriu sem humor. Um sorriso triste. Cansado. — Todos os dias. Os olhos da menina ficaram brilhantes. E então, lentamente… ela segurou a mão de Ayla. Os dedos pequenos eram gelados. Mas aquele toque aqueceu algo morto dentro dela. Algo que Ayla achou que jamais sentiria novamente. As duas permaneceram em silêncio por alguns minutos. E pela primeira vez em muito tempo… Ayla sentiu paz. Uma paz estranha. Dolorosa. Quase perigosa. Do lado de fora do quarto, a irmã Cecília observava discretamente pela porta entreaberta. E seu coração apertou. Porque nunca viu Lívia permitir proximidade daquela forma com ninguém. Nunca. Horas depois, já pronta para ir embora, Ayla caminhou até a porta principal do orfanato. Mas antes de sair… olhou para trás. Lívia estava parada no corredor abraçada ao coelho de pano. Os olhos cinzentos presos nela. Como se esperasse algo. Ayla sorriu suavemente. — Eu volto amanhã. A menina hesitou antes de perguntar baixinho: — Promete? O peito de Ayla apertou tão forte que chegou a doer fisicamente. Porque promessas eram perigosas. Ela sabia disso melhor do que ninguém. Mesmo assim… assentiu devagar. — Prometo. Lívia relaxou imediatamente. Como se aquelas palavras significassem o mundo inteiro. Mas naquela mesma noite… Enquanto Ayla observava novamente o convite da família Valença sobre a bancada da cozinha… Uma sensação sufocante tomou conta dela. Porque pela primeira vez em cinco anos… Ela tinha a estranha sensação de que sua vida estava prestes a mudar completamente.






