Mundo ficciónIniciar sesiónO HOMEM QUE SE TORNOU DE GELO
O escritório de Gael Valença ocupava o último andar de um dos prédios mais luxuosos da cidade. Vidros enormes cercavam toda a sala, revelando a paisagem cinzenta da metrópole sob um céu carregado de nuvens. Lá embaixo, carros se moviam como pequenos vultos apressados. Pessoas caminhavam. A cidade respirava. Mas dentro daquele escritório… tudo parecia morto. O ambiente era impecavelmente organizado. Frio. Silencioso. Tons escuros dominavam o espaço: preto, cinza, madeira escura, vidro fumê. Não existiam fotografias pessoais. Nem lembranças. Nem qualquer detalhe humano. Apenas trabalho. Gael estava parado diante da janela, ajustando lentamente os botões do terno preto enquanto escutava um dos diretores terminar uma apresentação. — Os investidores japoneses querem uma resposta até sexta-feira. Silêncio. — Senhor Valença? Gael finalmente virou o rosto. Os olhos cinzentos estavam frios. Distantes. Cansados. — Então dê uma resposta. A voz baixa fez os homens ao redor da mesa ficarem tensos imediatamente. — Mas ainda existem cláusulas que… — Eu não pedi problemas. Ele caminhou lentamente até a cabeceira da mesa. Cada passo parecia calculado. Pesado. — Pedi soluções. O diretor engoliu seco antes de baixar os olhos para os documentos. Gael nem precisava levantar a voz. O silêncio dele intimidava mais. Todos naquela empresa sabiam: Gael Valença não tinha paciência. Não repetia ordens. E raramente demonstrava qualquer emoção. A reunião continuou por mais quarenta minutos. Números. Projetos. Investimentos. Nada realmente importava. Gael apenas existia dentro daquela rotina. Trabalhava até a exaustão porque ficar sozinho consigo mesmo era pior. Muito pior. Quando a reunião finalmente terminou, os executivos deixaram a sala rapidamente. O silêncio voltou imediatamente. Gael afrouxou discretamente a gravata enquanto caminhava até a bancada de bebidas no canto do escritório. Serviu uísque mesmo ainda sendo manhã. O líquido queimou sua garganta. Mas não o suficiente. Nada era suficiente há anos. A porta se abriu novamente sem aviso. Lavínia entrou usando um vestido branco impecável e saltos finos que ecoaram pelo escritório silencioso. Ela estava perfeita. Como sempre. Cabelos loiros alinhados. Maquiagem impecável. Elegância calculada. Mas Gael sequer a olhou diretamente. — Você ignorou minhas ligações. Ele tomou outro gole de uísque antes de responder: — Eu estava trabalhando. — Você sempre está trabalhando. A voz dela carregava irritação contida. Gael finalmente ergueu os olhos. — E você sempre reclama disso. Lavínia respirou fundo lentamente. Ela odiava quando ele fazia aquilo. Quando parecia completamente indiferente. Porque Gael já não discutia mais. Não gritava. Não demonstrava ciúmes. Não demonstrava quase nada. Aquilo a aterrorizava. — Hoje é o jantar beneficente da fundação Albuquerque. Ela lembrou. — Então vá. — Nós precisamos aparecer juntos. Gael soltou uma risada baixa. Fria. — Precisamos? Lavínia travou o maxilar. O relacionamento dos dois havia se tornado exatamente aquilo: Uma aparência cuidadosamente construída para o mundo. Em público: O casal perfeito. Dentro de casa: Silêncio, frieza, ressentimento. Ela caminhou lentamente até ele. — Você sabe o quanto sua família se importa com essas aparições. Gael virou o restante do uísque de uma vez. — Minha família se importa com dinheiro e reputação. Não comigo. Aquilo fez Lavínia permanecer em silêncio por alguns segundos. Porque aquela era a verdade. Augusto Valença queria um herdeiro forte. Helena Valença queria um filho obediente. E Gael havia passado anos tentando ser os dois. Até se transformar naquele homem vazio diante dela. Lavínia observou o rosto sério dele. Os olhos frios. A expressão constantemente cansada. Mesmo depois de cinco anos… Havia alguém que continuava entre eles. Ayla. Ela nunca conseguiu apagar aquela mulher completamente. E isso a consumia. — Sua mãe organizou um evento para o fim de semana. Comentou cuidadosamente. Gael pegou alguns documentos sobre a mesa. — Cancele minha presença. — Você é o anfitrião principal. — Então invente alguma desculpa. Lavínia respirou fundo novamente. Controlando a irritação. — A empresa responsável pelas sobremesas é famosa. Helena fez questão da contratação. Gael sequer reagiu. Até ela continuar: — Douce Lune. O movimento da mão dele parou imediatamente. Silêncio. Pesado. Estranho. Lavínia percebeu. E seu coração acelerou. Gael ergueu lentamente os olhos. — O quê? Ela tentou parecer casual. — A confeitaria. Você conhece? Mas já sabia a resposta. Porque alguma coisa havia mudado nele naquele exato instante. Gael pegou a pasta sobre a mesa com movimentos lentos. Abriu a programação do evento. E então viu. Douce Lune. Abaixo do nome… a assinatura da proprietária. Ayla Duarte. O mundo pareceu desacelerar brutalmente. O ar ficou pesado dentro do escritório. Gael sentiu algo antigo atravessar seu peito como uma lâmina. Não. Aquilo era impossível. Durante cinco anos ele acreditou: Que ela tivesse fugido; Desaparecido Recomeçado longe dali. Talvez até esquecido dele. Mas agora… ela estava ali. Na mesma cidade. Respirando o mesmo ar. Viva. Os dedos dele apertaram a folha com força demais. Lavínia observava cada mínima reação. E pela primeira vez em muito tempo… sentiu medo de verdade. Porque conhecia Gael. Conhecia o vazio dele. Conhecia a frieza. Conhecia o homem cruel que ele havia se tornado. Mas também conhecia algo pior. A forma como ele olhava para Ayla. Uma forma que nunca olhou para ela. — Gael… Ele fechou a pasta abruptamente. O maxilar travado. Os olhos perigosamente escuros. — Quem aprovou essa contratação? A voz saiu baixa. Mas havia algo nela que fez Lavínia gelar. — Foi sua mãe. Gael soltou uma respiração lenta. Pesada. Então pegou o celular sobre a mesa. — O que você vai fazer? Ele vestiu novamente a máscara fria antes de responder: — Descobrir por que diabos ela voltou. Lavínia sentiu o estômago afundar. Porque aquela não era a reação de um homem indiferente. Era a reação de alguém que nunca esqueceu. Gael caminhou até a janela mais uma vez. Mas agora a cidade diante dele parecia distante. Porque pela primeira vez em cinco anos… o nome dela tinha quebrado o gelo que ele passou tanto tempo construindo. E isso era perigoso. Muito perigoso. Naquela noite, enquanto observava as luzes da cidade acenderem lá embaixo… Gael percebeu algo que odiou admitir: Ayla Duarte ainda tinha o poder de destruir tudo dentro dele.






