Quando Alice retornou à mansão da família Ricie, percebeu que o ambiente não era mais o mesmo. Ao se aproximar da porta, viu a empregada, Tia Marta, chegando da rua carregada de sacolas com carnes nobres, peixes e legumes frescos.
Haha, vocês estão vivendo uma vida muito confortável às custas dos meus pais, pensou ela. Ao relembrar os últimos cinco anos de sua existência fantasmagórica em coma, o contraste era de embrulhar o estômago.
Alice sorriu levemente e chamou: "Tia Marta, quanto tempo."
Instintivamente, a empregada virou-se. Ao ver o rosto pálido de Alice, sua expressão mudou drasticamente. Ela caiu sentada no chão, gritando: "Um fantasma! Um fantasma!"
Alice riu e a ajudou a se levantar. "Tia Marta, o que é isso? Gritando assim em plena luz do dia?"
A empregada demorou a se acalmar, como se tivesse escapado da própria morte. "Senhorita... você não estava...?"
"Não estava o quê? Morta?" Alice sorriu suavemente, um brilho radiante que não alcançava seus olhos frios.
A Tia Marta se recompôs às pressas. "Senhorita... eu... eu preciso avisar a patroa e o patrão imediatamente."
Alice sabia que ela se referia ao tio, à tia e aos outros usurpadores. "Não seja boba. Estou apenas voltando para casa, por que precisaria de um anúncio formal? Faz tanto tempo, meu tio e minha tia devem estar morrendo de saudades."
Com uma agilidade impressionante, ela pegou as sacolas das mãos da empregada e entrou primeiro. Sabia muito bem que, se esperasse ser anunciada, jamais passaria da porta.
"Tia Marta, por que está parada aí fora?", gritou uma voz arrogante vinda do interior da casa.
Alice deu uma risadinha, erguendo a cabeça para encarar Jéssica, que estava vestida como um pavão, cheia de joias e arrogância. Foi ela quem roubou seu namorado. Foi ela quem envenenou sua comida. Foi ela quem tentou destruir sua vida.
Ao ver Alice ainda vestindo roupas que lembravam o hospital, os olhos de Jéssica se arregalaram tanto que parecia que iam saltar das órbitas.
Alice observou a expressão de choque da prima e riu baixinho. "Tia Marta, viu só? Eu sabia! Minha irmãzinha está sem palavras de tanta saudade." Ela fingiu ingenuidade, agindo como a garota mimada de anos atrás.
"Alice?!", balbuciou Jéssica, atônita.
"Sim, querida. Você deve estar radiante", debochou Alice, caminhando em direção à sala de estar.
Um grito ensurdecedor ecoou pelo cômodo, fazendo Jéssica finalmente sair do transe e correr para dentro. Alice ignorou os berros da tia, Helena. "Tia, a senhora está ficando velha? Como é que não consegue nem segurar uma xícara de café sem derrubar?"
Alice jogou-se no sofá com uma expressão de total despreocupação. Logo em seguida, o tio Carlos, atraído pela confusão, desceu as escadas.
Ótimo, estão todos aqui, pensou ela, com um traço de escárnio nos lábios pálidos.
Levou um minuto inteiro para a família aceitar que Alice estava realmente viva e acordada. Helena levantou-se de repente, com o rosto transbordando ressentimento. Alice olhou para ela e lembrou-se da expressão de Helena quando tentou puxar seu tubo de oxigênio meses atrás.
Ela reprimiu a fúria que queimava em seu peito e apenas soltou um "Hmm?" provocador.
"Esta é a casa da família Ricie agora", disparou Helena. "Você não é bem-vinda aqui. É melhor ir embora agora mesmo."
Ah, já estão tentando me expulsar, pensou a jovem. Alice cruzou as pernas e relaxou no sofá. "Tia, o que é isso? Embora esta seja a casa que meus pais deixaram para mim, eu não pretendo expulsar vocês agora. Não se preocupem."
Os olhos de Helena brilharam de ódio. Ela notou algo diferente em Alice — a voz era a mesma, mas a aura era perigosa.
"Você está delirando!", gritou Jéssica. "Esta é a nossa casa! Saia daqui! Você é um mau agouro, não traga sua desgraça para debaixo do nosso teto!"