Mundo de ficçãoIniciar sessão
A chuva caía fina e insistente sobre Santa Aurora, como se o próprio céu não conseguisse decidir entre chorar ou apenas suspirar. Aurora Almeida estava parada diante da lápide simples, o guarda-chuva esquecido em algum lugar do carro, os cabelos grudados no rosto pela umidade. As flores brancas que ela mesma deixara ali na semana anterior já murchavam, as pétalas curvando-se para dentro como se tentassem se proteger de algo.
Ela não sentia frio. Sentia apenas o peso frio da chave de bronze que apertava entre os dedos, tão forte que as unhas deixavam marcas na palma da mão.
— A senhora devia ter me contado tudo antes mãe — sussurrou, a voz embargada. — Por que guardou segredo até o fim?
O vento respondeu apenas com o farfalhar das árvores. Fechou os olhos e deixou que a memória a arrastasse de volta para aquele quarto de hospital que cheirava a álcool e a despedida.
— Não confie em nenhum Montenegro...
A frase ainda ecoava, nítida, cortante, como se sua mãe a tivesse dito minutos atrás e não semanas. Dona Clara Almeida passara os últimos anos de vida carregando rótulos que não escolhera: ladra, desonesta, oportunista. Depois de ser demitida da poderosa Montenegro Holding sob acusações que jamais foram provadas, mas devido ao fato de ser mal vista na maior empresa da cidade, então nenhuma porta se abriu para ela outra vez pelo menos não das grandes corporações. A cidade inteira parecia ter decidido, em silêncio e ao mesmo tempo, que Clara Almeida era culpada — e a vergonha fez o que a doença completou depois: destruiu, aos poucos, sua vontade de viver.
Aurora crescera ouvindo apenas fragmentos, sua mãe antes uma grande contadora, números era a afinidade dela, hoje uma diárista, empregada.
— Eu tinha tudo, mas confiei nas pessoas erradas, não cometa esse erro minha fiha — a mãe dizia, sempre que Aurora perguntava sobre— Mas eu acredito que a justiça vem e que um dia a verdade virá.
Sua mãe nunca lhe contou tudo, o nome, a explicação dessa dor, dessa desconfiança cada trabalho que Aurora arrumava, sua mãe perguntava "e são pessoas confiaveis?" Até que uma semana antes da morte de Clara, tudo foi revelado a Aurora, o medo profundo de sua mãe.
Na última noite, Clara segurou a mão da filha com o resto de força que ainda lhe restava. Os aparelhos ao redor apitavam baixinho, quase indiferentes.
— Mãe, não se canse, por favor...
— Preciso... — Clara respirou fundo, um som áspero, raspado. — Seu pai... escondeu a verdade...Mas eu espero querida que não busque vingança, isso não levará a nada, nada...
Aurora sentiu o chão sumir sob os pés, tudo que ela mais queria era se vingar, ela passou a semana toda pesquisando sobre a grande empresa, sobre o dono, sobre os socios, sobre uma forma de adentrar a armadura desse mundo. Mas era algo que sua mãe passou, porém quando sua mãe falou de seu pai, Aurora a encarou por um momento perplexa, o que mais teria a ser revelado, além da forte e dolorosa verdade de sua mãe uma das fundadoras da Montenegro Holding ser usada e deixada depois acusada de ladra.
— Meu pai? Mãe, o que ele tem a ver com isso? Ele foi embora quando eu tinha quatro anos, ele nunca...
— Escute... — Clara apertou a mão da filha com mais força do que Aurora imaginava ser possível naquele estado. — Dentro daquela casa, a mansão... existe um lugar...um segredo, isso você deve ir atrás , converse com eles...diga quem você é...
— Não quero ser amiga dessa gente mãe.
Aurora queria se vingar deles , não ser amiga. Clara tentou falar mais uma vez. Os lábios se moveram, mas nenhum som saiu. Com as mãos trêmulas, puxou de baixo do travesseiro uma pequena chave de bronze, antiga, escurecida pelo tempo, e a colocou na palma da filha, fechando os dedos de Aurora ao redor dela como se selasse um pacto.
— Você ... é filha de ....
Mas os olhos de Clara já se fechavam, devagar, como uma vela que se apaga sem pressa. O monitor cardíaco emitiu um som contínuo e agudo que Aurora sabia, mesmo sem entender de medicina, que significava o fim de tudo. Mas o segredo permanecia, então Aurora em meio a dor e ao choro percebe que pela primeira vez sua mãe falaria de fato sobre seu pai.







