O sol da tarde filtrava-se pelas janelas altas da mansão, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Gael estava em seu sono profundo da tarde, e Sophia, com todos os seus deveres impecavelmente cumpridos, sentiu o chamado silencioso da imensa biblioteca dos Ravenclaff.
Ela sabia que Alexander havia saído para uma reunião externa e não voltaria tão cedo. Com passos leves, ela entrou no santuário de madeira escura e couro. Seus dedos percorreram as lombadas dos livros até pararem em uma edição antiga e rara. Sophia sentou-se em uma das poltronas de veludo, mergulhando na leitura. O mundo ao seu redor desapareceu; ela estava imersa nas palavras, sentindo-se, pela primeira vez em muito tempo, em paz.
Ela estava tão absorta que não ouviu o som da porta se abrindo, nem o passo firme, porém silencioso, de Alexander.
Ele parou a poucos metros dela. Alexander pretendia apenas pegar um documento, mas a visão de Sophia ali, encolhida na poltrona com um livro nas mãos e uma expressão de puro encantamento, o desarmou. Ele a observou por um longo minuto, notando como a luz da tarde destacava os fios dourados de seu cabelo.
— Vejo que tem bom gosto para literatura clássica, senhorita Cruz.
Sophia deu um sobressalto, o livro quase escorregando de suas mãos. Ela se levantou num salto, o rosto corando instantaneamente.
— Sr. Ravenclaff! Eu... eu sinto muito. Eu achei que o senhor não estaria em casa e... não queria bisbilhotar suas coisas. Eu só queria ler um pouco enquanto o Gael dorme. Isso não vai se repetir, eu juro.
Ela falava rápido, o medo da demissão voltando a assombrá-la. Alexander a observou, notando o tremor em suas mãos.
— Não é proibido ler nesta casa, Sophia — ele disse, e o uso de seu nome, sem o sobrenome, fez o coração dela falhar uma batida. A voz dele não era fria; era grave e quase... suave.
Sophia assentiu, ainda nervosa, e caminhou apressadamente em direção à estante para devolver o volume. O livro pertencia a uma prateleira alta, acima de sua linha de visão. Ela ficou na ponta dos pés, esticando o braço o máximo que podia, mas a ponta dos seus dedos mal tocava o espaço vazio.
De repente, uma sombra a cobriu. Alexander estava logo atrás dela. Ele estendeu o braço longo e forte, sua mão cobrindo a dela sobre a lombada do livro para ajudá-la a empurrá-lo para o lugar.
O toque foi como uma descarga elétrica. Sophia sentiu o calor do corpo dele tão próximo que sua respiração falhou. No susto do contato e no esforço de se equilibrar, seu pé escorregou no tapete polido.
— Cuidado! — Alexander exclamou.
Seus braços a envolveram pela cintura com agilidade, puxando-a contra o seu peito para evitar a queda. Sophia se viu presa no abraço dele, os rostos a centímetros de distância. O silêncio da biblioteca tornou-se ensurdecedor, preenchido apenas pelo som de suas respirações aceleradas.
Alexander olhou para os lábios entreabertos de Sophia e depois para seus olhos castanhos, que brilhavam com uma mistura de susto e algo mais profundo.
— Nós precisamos parar de nos encontrar desta forma, Sophia — ele sussurrou. A voz dele não tinha a arrogância habitual; era uma observação sutil, quase delicada. — Você é muito desastrada. Precisa tomar mais cuidado... consigo mesma.
O polegar dele acariciou levemente a cintura dela, e o autocontrole de Alexander, que ele tanto se orgulhava de possuir, simplesmente evaporou. Sem pensar nas consequências, ele inclinou o rosto e pressionou os lábios nos dela em um selinho demorado e intenso.
Sophia, em vez de recuar, fechou os olhos e retribuiu o toque, sentindo um calafrio percorrer todo o seu corpo. Foi um momento suspenso no tempo, onde a babá e o bilionário deixaram de existir, restando apenas dois corações famintos.
Tão rápido quanto aconteceu, o choque da realidade os atingiu. Eles se afastaram bruscamente, como se tivessem levado um choque.
— Eu... eu sinto muito! — Sophia exclamou, levando a mão à boca, o rosto em brasa. — Isso foi um erro, Sr. Ravenclaff. Me perdoe, eu não deveria...
— Não, a culpa foi minha — Alexander cortou, recuperando sua máscara de gelo, embora sua respiração ainda estivesse descompassada. — Eu perdi o controle. Isso não vai se repetir. Por favor... retire-se.
Sophia pegou seu próprio livro que havia deixado na poltrona e subiu as escadas quase correndo, sem olhar para trás. Alexander ficou parado no meio da biblioteca, os dedos tocando os próprios lábios, sentindo o gosto dela.
A partir daquele momento, um muro invisível foi erguido. Nos dias seguintes, eles passaram a se evitar sistematicamente. Alexander saía mais cedo e voltava mais tarde; Sophia permanecia nos aposentos de Gael ou no jardim, fugindo de qualquer cômodo onde ele pudesse estar. Mas ambos sabiam que, embora estivessem se evitando fisicamente, seus pensamentos estavam mais próximos do que nunca.