A chuva de março fustigava o vidro do táxi antigo, embaçando a visão de Sophia enquanto ela encarava os portões de ferro fundido da mansão dos Ravenclaff. Ela apertou a pasta de plástico contra o peito, sentindo o coração martelar um ritmo frenético contra as costelas. Aquela era sua última chance. O aviso de despejo em sua bolsa pesava como chumbo; o resto de sua dignidade havia sido roubado pelo ex-noivo e pela mulher que ela um dia chamou de melhor amiga. Sophia tinha dado tudo de si — seus estudos, suas economias, seu tempo — para ajudar a erguer a empresa dele, apenas para ser descartada sem nada quando o sucesso chegou.
Ela não estava ali por romance ou aventura. Estava ali por sobrevivência.
O interior da mansão era opressor. Sophia caminhava pelo hall de entrada, os pés afundando no tapete persa, sentindo-se minúscula sob o teto abobadado. O cheiro de madeira de lei e perfume caro preenchia o ar, um aroma de riqueza absoluta que parecia destacar ainda mais a simplicidade de suas roupas.
— Aguarde aqui. Ele virá até você — disse a governanta de rosto gélido, deixando-a na imensa biblioteca.
Sophia se aproximou da lareira apagada, tentando acalmar os dedos trêmulos e ensaiando o que diria. Foi então que ela sentiu um peso no ar, uma mudança na pressão do ambiente. Ela se virou e o viu.
Alexander Ravenclaff desceu as escadas com a precisão de um relógio suíço. Não houve um olhar galanteador ou qualquer sinal de flerte. Seus olhos, de um azul metálico e profundo, percorreram Sophia com uma frieza analítica. Ele estava impecável em seu terno sob medida, cada fibra de sua roupa exalando uma autoridade que a fez endireitar a postura imediatamente.
— Sente-se, senhorita Cruz — a voz dele ecoou, grave e desprovida de qualquer calor.
Ele sentou-se atrás de sua mesa de mogno e abriu o currículo de Sophia. O silêncio que se seguiu foi torturante para ela.
— Seu histórico é incompleto — ele disse, sem olhá-la. — Abandonou a faculdade no último ano e não tem referências recentes. Minha casa exige o melhor, senhorita Cruz. O que a faz pensar que pode ocupar este cargo?
Sophia sentiu um nó na garganta, mas o engoliu. Ela precisava ser política. Precisava que ele gostasse do seu trabalho, mesmo que ela não estivesse gostando da forma ríspida dele.
— Eu entendo suas ressalvas, Sr. Ravenclaff — respondeu ela, mantendo a voz mais suave e profissional que conseguiu. — Tive contratempos pessoais que me forçaram a priorizar o trabalho em vez dos estudos, mas garanto que minha dedicação e minha capacidade de aprender são inquestionáveis. Sou alguém que cumpre ordens com precisão e zelo.
Alexander finalmente ergueu o rosto. Ele a encarou, um olhar tão impessoal que chegava a ser desconfortável.
— Não busco desculpas, busco resultados — ele rebateu. — Minhas regras são absolutas. O horário do meu filho é gerido como um cronômetro. Se você atrasar um minuto, está fora. Se ele chorar além do necessário por falta de cuidado, está fora. Se você circular por áreas não autorizadas, está fora. Minha vida é baseada em ordem e discrição. Entendido?
Sophia assentiu, mantendo um sorriso discreto e submisso, apesar de achar as regras robóticas.
— Perfeitamente claro, senhor. Farei o meu melhor para me adequar a cada uma delas.
Alexander fechou a pasta com um estalo definitivo.
— Infelizmente, seu perfil ainda me parece... — Ele fez uma pausa, buscando a palavra. — Instável. A entrevista está encer...
Um pequeno barulho na porta o interrompeu. Um garotinho de cabelos escuros, Gael, entrou timidamente. Ele segurava um carrinho quebrado, os olhos grandes e tritos fixos no chão. Alexander suspirou, impaciente.
— Gael, eu disse para ficar com a babá antiga até que ela vá embora.
O menino não obedeceu. Ele caminhou até Sophia, como se sentisse uma calma que emanava dela. Sophia, movida pelo instinto e pelo desejo de mostrar serviço, ajoelhou-se no tapete e sorriu para a criança de forma acolhedora.
— Ei, pequeno... deixe-me ver isso — ela disse docemente. Com um movimento ágil, ela encaixou a roda do carrinho. — Pronto. Agora ele pode correr de novo. Quer testar?
Gael olhou para ela e, pela primeira vez em muito tempo, um brilho de confiança surgiu no rosto do menino. Ele tocou o braço de Sophia e entregou o carrinho para ela, em um convite silencioso para brincar.
Alexander levantou-se, caminhando até eles. A presença dele era intimidadora, e o perfume de sândalo a envolveu enquanto ele parava bem ao lado dela. Sophia sentiu um calafrio, mas permaneceu focada na criança.
— Parece que meu filho tomou a decisão por mim — disse Alexander, a voz ainda dura. Ele olhou para Sophia, e por um breve segundo, a distância entre eles pareceu diminuir. — Darei a você um período de teste de trinta dias, senhorita Cruz. Mas saiba que serei rigoroso. Minha confiança não é dada, é conquistada.
Sophia levantou-se e fez um leve aceno com a cabeça, com um olhar determinado.
— Eu compreendo, Sr. Ravenclaff. Agradeço a oportunidade e prometo que não haverá motivos para queixas.
Ele apenas assentiu, voltando para seus papéis como se ela já não estivesse mais ali. Sophia saiu da biblioteca sentindo as pernas trêmulas, mas com uma chama de esperança. Ela faria tudo certo. Ela seria a melhor babá que aquele homem de gelo já vira