Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlistair estava sério, com uma expressão profundamente triste e exausta. O brilho de médico determinado havia sumido, dando lugar a uma preocupação fraternal que beirava o desespero.
— Meu irmão — Alistair começou, levantando-se devagar. — Eu sei que você está passando por um momento horrível. Eu não consigo nem mensurar a extensão da sua dor. Nós já passamos por muita coisa juntos, Hunter, e vamos passar por isso de novo. Eu estou aqui. Sempre estarei, mas você não pode se trancar para o mundo assim. — Eu não consigo, Alistair — Hunter falou, a voz saindo em um tom de derrota total. — Não há nada para mim lá fora. — Hunter, vamos descobrir uma maneira de ultrapassar essa tempestade juntos, mas você precisa reagir e me ajudar — Alistair disse, limpando algumas lágrimas que insistiam em cair de seus próprios olhos. — Eu não posso te ver assim, é demais para mim. Hunter, você não viu sua filha nem uma vez e já se passaram vinte dias. Lily está em uma cama de hospital, chamando por você. Ela precisa do pai, irmão. Quando você vai vê-la? Hunter olhou para o irmão sem forças, sentindo um peso esmagador no peito. O nome de Lily causou uma reação visceral nele, mas não era apenas amor. Era algo mais sombrio. — Alistair, eu não sei como recomeçar — Hunter confessou, a culpa e o ódio crescendo dentro dele. — Sinceramente, eu não tenho vontade de reagir. Eu não quero sair desta casa. — Hunter, você não pode ficar o tempo todo se martirizando — Alistair disse, aproximando-se e colocando as mãos nos ombros do irmão. — Imprevistos acontecem, você não tinha como prever aquele acidente. Estava fora do seu controle. Mas sua filha ainda está aqui. Ela sobreviveu! E ela precisa de você mais do que nunca. Hunter desviou o olhar, a mandíbula travada. O segredo terrível que ele guardava no fundo da alma finalmente escapou em um sussurro amargo: — O problema é esse, irmão... No meu íntimo, eu tenho raiva. Tenho raiva de a Lily estar viva e a mãe dela morta. Eu sei que é um pensamento absurdo, um pensamento de um monstro, mas eu olho para a sobrevivência dela e só consigo pensar no que perdi. Alistair recuou um passo, chocado com a honestidade brutal de Hunter. — Para de falar besteira, Hunter! Tira esses pensamentos da sua cabeça agora mesmo! Foi uma fatalidade o que aconteceu com a Clara. Eu também sinto a falta dela todos os segundos, eu perdi minha cunhada e uma amiga, mas precisamos agradecer a Deus por a Lily ter sobrevivido. Ela é um milagre! — Deus? — Hunter soltou uma risada seca e sem humor. — Acho que Deus já me abandonou no momento em que permitiu que aquele carro atingisse a minha família. — Você não sabe o que diz — rebateu Alistair, aumentando o tom de voz para tentar alcançar a razão do irmão. — Você está esquecendo de olhar a situação toda. Clara deixou a coisa mais preciosa da vida dela para você: uma filha linda, que é o fruto do amor de vocês dois. E você está fazendo isso? Está abandonando o que ela mais amava? — Irmão, eu estou sem chão — Hunter desabafou, a voz falhando enquanto ele se sentava pesadamente em uma poltrona, cobrindo o rosto com as mãos. — Eu quero desistir de tudo. Prefiro permanecer o resto da vida aqui dentro, sem ver ninguém. Tudo perdeu o sentido sem a Clara. Ela era minha vida, meu porto seguro, o meu equilíbrio. — Ele parou para respirar, sentindo o peito doer fisicamente. — Eu gostaria de ter forças para continuar, Alistair. Juro que gostaria. Mas, infelizmente, eu não tenho. Alistair olhou para o irmão com uma mistura de pena e firmeza. Ele sabia que precisava ser duro agora. — Hunter, olhe para mim. Você acha sinceramente que é isso que a Clara ia querer? Você acha que ela estaria orgulhosa de ver o homem que ela amava desistindo de tudo e, pior ainda, abandonando a própria filha no momento em que ela mais precisa de proteção? A Clara deu a vida para proteger aquela menina no acidente, Hunter. Não jogue o sacrifício dela fora. O silêncio que se seguiu foi denso e carregado de eletricidade. Hunter permanecia com o rosto escondido, mas os ombros sacudiam levemente. A batalha entre sua dor egoísta e seu dever como pai estava apenas começando, e a sombra de Clara parecia observar tudo, esperando que o homem que ela amava encontrasse o caminho de volta da escuridão.






