CAPÍTULO 5 – O BILHETE

VALENTINA

Acordei antes do sol nascer completamente. Leon ainda dormia profundamente ao meu lado, um braço pesado sobre minha cintura, o rosto sereno e absurdamente bonito. Fiquei alguns minutos observando-o: traços perfeitos, barba bem aparada, respiração calma. Nunca imaginei que dormiria com um homem tão atraente. Por um segundo, quase senti vontade de ficar.

Mas a realidade voltou como um soco no estômago.

Eu não podia ficar. Não estava pronta para explicar minha vida destruída para um estranho, por mais incrível que a noite tivesse sido. Levantei com cuidado, sentindo uma dor gostosa e latejante entre as pernas — lembrança viva de tudo que fizemos. Vesti minhas roupas em silêncio, tentando não fazer barulho.

No banheiro, lavei o rosto e notei os leves hematomas no pescoço e na cintura. Sorri tristemente para o reflexo. Peguei uma caneta e um papel que encontrei na sala e escrevi:

“Leon,

Obrigada por tudo. Você foi incrível quando eu mais precisava esquecer.

Foi a noite mais intensa da minha vida.

Desculpa por ir embora assim, sem acordar você.

Valentina.”

Deixei o bilhete sobre o travesseiro, ao lado do rosto dele. Olhei uma última vez, guardei a imagem do homem mais lindo que conheci na memória e saí, fechando a porta devagar.

O ar fresco da manhã me acertou forte. Pedi um Uber e segui para o apartamento. Precisava pegar minhas coisas — principalmente os projetos da faculdade e o notebook com todas as minhas ideias, principalmente isso e se não fosse por isso eu jamais voltaria. Mas não estava preparada para o que viria.

Quando abri a porta, o cheiro familiar me deu náusea. Theo e Isabela estavam na sala, sentados no sofá como se nada tivesse acontecido. Assim que me viram, os dois se levantaram.

— Valentina… — Theo começou.

— Não fala meu nome — cortei a voz tremendo de raiva.

Isabela deu um passo à frente, olhos marejados, fingindo arrependimento.

— Amiga, eu juro que não queria que fosse assim… Eu me sinto tão mal. Me perdoa, por favor. Foi um erro, a gente…

— Cala a boca, eu não quero mais ouvir suas desculpas falsas — rosnei.

Mas Isabela não aguentou o papel de vítima por muito tempo. O arrependimento falso derreteu rápido. Um sorriso frio surgiu em seu rosto.

— Sabe de uma coisa? Chega mesmo, chega de teatro, afinal o que o Theo queria de você ele já conseguiu.

As palavras dela caíram como veneno. Senti o chão sumir.

— O quê?

— Qual é Valentina não me diga que nunca notou?

— O quê sua idiota?

— Que Theo nunca gostou de você, de verdade. Ele fingiu que te amava, fingiu que estava apaixonado só pra tirar aquela sua maldita ideia. Ele sempre gostou mesmo de mim. Desde o começo. Você era só… útil enquanto terminava o bendito projeto.

Olhei para ele incrédula, mas não precisei perguntar nada Theo simplesmente cruzou os braços, e sorriu com sarcasmo dizendo.

— Você realmente achou mesmo que um cara como eu ia querer algo sério com uma garota do interior, virgem, sem graça como você, Valentina? Eu precisei aguentar três meses de mãozinha e beijinho porque você tinha uma ideia boa pra caralho. E adivinha? Eu já patenteei. Lancei ontem como meu. Tá bombando nas redes. “Meu” novo aplicativo.

Ele riu. Um riso baixo, cruel.

— Olha pra você. Feia, simples, cheirando a pobreza. Achou mesmo que eu ia querer transar com você? Eu tinha a Isabela o tempo todo. Você serviu só pra isso.

A humilhação queimou meu peito como ácido. Tudo que eu havia construído, todas as noites acordada trabalhando na ideia, os sonhos que contei pra ele… roubados. Por ele. Pela minha “melhor amiga”.

Perdi o controle.

Avancei contra Theo comecei a bater no peito dele com os punhos cerrados, com toda a força que me restava.

— SEU LIXO! LADRÃO! DESGRAÇADO!

Ele segurou meus pulsos, rindo ainda mais.

— Para, sua louca! Você não tem mais nada. Nem ideia, nem namorado, nem amiga aceita que vai doer muito menos. Olha pra você garota. Você é simplesmente patética!

Isabela assistia tudo com um sorrisinho satisfeito no canto da boca. A cobra finalmente mostrava as presas.

— Você sempre foi ingênua demais, Valentina. Achou mesmo que alguém como você merecia ele? Acorda.

As lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas eu não sentia mais vergonha. Só ódio puro, cru. Peguei o vaso que estava na mesa e joguei na direção dos dois. Eles se afastaram. Corri para o quarto, enfiei minhas roupas, o notebook e os projetos em uma mala às pressas.

— Vocês dois se merecem — cuspi, parando na porta. — Dois vermes. Um dia vocês vão cair. E eu vou estar bem perto pra rir de vocês, eu juro!

Saí batendo a porta com tanta força que o barulho ecoou pelo corredor inteiro.

Desci as escadas correndo, a mala pesada batendo nas pernas. O peito doía, a cabeça latejava, mas eu continuava andando. Não olhei para trás.

Eu tinha perdido quase tudo.

Mas ainda tinha três coisas que eles não conseguiram roubar: minha dignidade, minha raiva e minha vontade de vencer um dia. E elas iam me fazer forte.

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