CAPÍTULO 5 – O BILHETE

VALENTINA

Acordei antes do sol nascer. Leon ainda dormia profundamente ao meu lado, um braço pesado sobre minha cintura, o rosto sereno e absurdamente bonito. Fiquei alguns minutos observando-o: traços perfeitos, barba bem aparada, respiração calma. Nunca imaginei que dormiria com um homem tão atraente. Por um segundo, quase senti vontade de ficar.

Mas a realidade voltou como um soco no estômago.

Eu não podia ficar. Não estava pronta para explicar minha vida destruída para um estranho, por mais incrível que a noite tivesse sido. Levantei com cuidado, sentindo uma dor gostosa e latejante entre as pernas — a lembrança viva de tudo que fizemos. Vesti minhas roupas em silêncio, tentando não fazer barulho.

No banheiro, lavei o rosto e notei os leves hematomas no pescoço e na cintura. Sorri tristemente para o reflexo. Peguei uma caneta e um papel que encontrei na sala e escrevi:

"Leon,

Obrigada por tudo. Você foi incrível quando eu mais precisava esquecer.

Foi a noite mais intensa da minha vida.

Desculpa por ir embora assim, sem acordar você.

Valentina."

Deixei o bilhete sobre o travesseiro, ao lado do rosto dele. Olhei uma última vez, guardei a imagem do homem mais lindo que conheci na memória e saí, fechando a porta devagar.

No saguão do prédio, um senhor de terno — provavelmente o zelador ou segurança — me chamou antes que eu chegasse à porta da rua.

— A senhorita esqueceu suas coisas.

Ele apontou para um canto onde estavam minha mala e minha mochila. Meu coração disparou. Lá dentro estavam minhas roupas, meu notebook e meu celular. Coisas que, na noite anterior, eu havia largado no bar sem nem pensar.

— Como… como elas chegaram aqui? — gaguejei.

— Um rapaz trouxe ainda de madrugada. Pediu para entregar a uma moça de cabelos escuros que tinha saído do bar Lumina Lounge com o senhor Leon. — Ele coçou a nuca, sem jeito. — Disseram que a senhorita saiu às pressas e deixou tudo para trás.

Meu rosto queimou de vergonha. Provavelmente aquele homem já sabia o que eu tinha feito ali. E, pelo jeito tranquilo com que ele falava, eu certamente não era a primeira mulher que subira ao apartamento de Leon.

— Obri… obrigada — consegui dizer, abaixando a cabeça.

Peguei minhas coisas e sai sem olhar para trás.

O ar fresco da manhã me acertou em cheio. Pedi um Uber e precisei encontrar outro lugar para morar. Tinha que ser um apartamento bem mais barato. Pois sabia que tinha pouco dinheiro. E não podia pedir ajuda aos meus pais — eles já me ajudavam tanto. Então fiz o que pude: procurei o lugar mais em conta possível.

Nem o Uber queria entrar naquela rua. O motorista olhou para o beco escuro, depois para mim, e buzinou duas vezes antes de finalmente parar.

— É aqui mesmo, moça? — perguntou, desconfiado.

— É aqui.

Peguei minha mala e desci. O "apartamento" era um cubículo num cortiço mal-iluminado, com cheiro de mofo e paredes descascando. A cama era estreita, o banheiro minúsculo, a janela dava para um muro pichado. Mas era meu. Pelo menos ali ninguém me trairia.

Enquanto arrumava minhas poucas coisas, o celular vibrou. Minha mãe.

— Alô, meu amor? Como você está meu bem?

Apertei os olhos para não chorar. Agradeci, por não ser uma chamada de vídeo. Minha voz saiu firme, mesmo com o nó na garganta.

— Mãe, tô bem. Mas…

— Mas o que filha?

Decidi que precisa contar a verdade pra ela ou pelo menos parte dela e continuei:

— Mas a convivência com a Isabela não deu mais certo. Depois de cinco meses de amizade, tive que mudar de apartamento. Foi melhor assim.

Não entrei em detalhes. Não agora. Minha mãe não precisava saber de toda a podridão que eu estava vivendo. Eu só queria que meus pais soubessem das coisas boas. O resto… o resto eu carregaria sozinha.

— Precisa de dinheiro para o novo lugar, filha? — ela perguntou, a voz já preocupada.

— Por enquanto não, mãe. Espera um pouco. Guardem o dinheiro de vocês.

E eu pensei, mas não disse: vocês podem precisar mais do que eu.

Meu pai, que estava ouvindo o áudio no viva-voz, se meteu na conversa. Começou a insistir, do jeito dele. Eu amava ouvir a voz do meu velho com aquele sotaque maravilhoso e o tom paternal que me lembrava de quantas vezes, ainda criança, dormir no colo dele só para ser embalada com carinho ouvindo ele cantar pra mim.

Como eu queria o abraço dos dois naquele momento.

Mas não. Agora eu era uma adulta. Não mais uma criança. Eu tinha que quebrar a cara e me reconstruir sozinha.

— Se precisar, a gente manda, viu, Valentina? — meu pai completou, firme.

— Tá bom, pai. Eu falo. Prometo.

Desliguei. Sentei na cama estreita do cubículo, abracei os joelhos e deixei as lágrimas escorrerem em silêncio. Não era a vida que eu tinha planejado. Mas era a que me restava.

E, por algum motivo, eu sabia que ainda não tinha chegado ao fundo do poço.

Faltava muito, e minha determinação era sair de lá e não descer ainda mais.

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