Depois da leitura, Lily fechou o livro com cuidado e manteve as mãos sobre a capa por alguns segundos, como se esperasse a próxima ordem. Não olhou para mim, não perguntou nada, não demonstrou cansaço nem curiosidade. Apenas ficou ali, pequena demais naquela cadeira branca, silenciosa demais para uma criança que deveria estar inquieta depois de vinte minutos lendo em voz baixa e correta, como se cada palavra precisasse sair sem tropeço para não incomodar ninguém.
— Podemos fazer uma atividade simples — falei, mantendo o tom calmo. — Uma folha e alguns lápis. Nada fora do combinado.
Ela olhou para a caixa organizada no canto da mesa.
— Desenho?
— Se você quiser.
A resposta pareceu assustá-la mais do que deveria.
Naquela casa, querer parecia uma palavra sem uso.
Lily abriu a caixa de lápis com cuidado e tirou primeiro o verde. Não sorriu. Não comentou. Apenas colocou o lápis sobre a mesa, alinhado com a folha em branco. Depois escolheu o azul. Depois o amarelo. Parou no vermelho por um instante, mas não pegou.
Eu fingi não perceber.
— Pode desenhar qualquer coisa.
Ela ficou imóvel.
— Qualquer coisa?
— Sim.
— Sem modelo?
— Sem modelo.
Lily olhou para a folha como se o branco fosse uma armadilha. Por um momento, achei que ela fosse desistir. Então segurou o lápis verde e fez uma linha fina, quase tímida, no canto da página. Não era um desenho ainda. Era só um risco. Mas aquele risco parecia ter custado mais coragem do que muita gente usava para atravessar uma guerra.
Eu não elogiei. Não quis transformar aquilo em pressão.
Apenas peguei outro lápis e desenhei uma linha torta no meu próprio papel.
— A minha ficou péssima — murmurei.
Lily olhou.
Só olhou.
Mas seus dedos afrouxaram um pouco em volta do lápis.
Foi nesse momento que meu celular vibrou sobre a mesa.
O som foi baixo, mas Lily se assustou. Os ombros dela subiram, e o lápis quase caiu da mão. Peguei o aparelho depressa, desligando a vibração antes de olhar a tela.
Brasil.
Meu peito apertou.
— Desculpa — falei para Lily, levantando devagar. — Preciso atender.
Ela assentiu, sem perguntar nada.
Atendi perto da janela, ainda dentro da sala, porque deixá-la sozinha parecia errado e sair sem avisar Sebastian provavelmente viraria uma infração grave naquele tribunal silencioso que ele chamava de casa.
— Elena? — a voz da minha irmã veio baixa do outro lado, e o som dela atravessou o oceano direto para dentro do meu peito.
— Aconteceu alguma coisa com o pai?
— Não. Ele continua igual. Em coma, mas estável. A mãe pediu para avisar que a assistente social passou de novo. Querem os documentos do acidente.
Fechei os olhos.
Documentos.
Como se documento consertasse o fato de meu pai ter saído para mais um bico sem carteira assinada e voltado para casa dentro de uma ambulância. Como se papel pagasse hospital. Como se promessa de empresa valesse alguma coisa depois que eles paravam de atender.
— Eu vou resolver — falei.
A frase já tinha virado mentira de tanto que eu repetia.
— Eles disseram alguma coisa?
— A empresa? Nada. A mãe ligou de novo. Falaram que o responsável não estava, que iam retornar.
Soltei um riso curto, sem humor.
— Eles sempre vão retornar.
— Elena…
— Eu sei. Desculpa. Eu vou mandar mensagem para o advogado que a Carla indicou. E vou tentar adiantar parte do meu pagamento assim que puder.
Falei baixo, mas senti Lily me olhando.
Minha irmã ficou em silêncio por um segundo.
— Você tá bem aí?
Olhei para a porta fechada. Para a folha de Lily sobre a mesa. Para a casa de Sebastian Gray tentando me engolir em silêncio.
— Estou trabalhando.
Era o máximo de verdade que eu conseguia oferecer.
Desliguei pouco depois e fiquei com o celular na mão por um instante, tentando colocar o Brasil de volta dentro de uma tela pequena. Quando me virei, Lily continuava me observando, com o lápis verde apoiado entre os dedos.
— Seu pai está dormindo? — ela perguntou, tão baixo que quase não ouvi.
Fiquei parada.
Era a primeira pergunta que ela fazia sobre mim sem repetir nada que alguém tivesse ensinado.
— Às vezes parece — respondi com cuidado. — Ele acorda um pouco, fala algumas coisas, depois volta a dormir. O corpo dele ainda está tentando voltar.
Lily franziu a testa, olhando para a linha verde no papel.
— Ele sabe que você veio para cá?
Meu peito apertou.
— Sabe. Ele perguntou por mim hoje cedo.
— E você pode falar dele?
A pergunta me atingiu de um jeito diferente.
— Posso.
— Sempre?
Entendi, então, que talvez ela não estivesse perguntando só sobre o meu pai.
— Sempre que eu quiser.
Lily passou a ponta do dedo pela beirada da folha, sem levantar os olhos.
— Aqui não é sempre que pode.
O ar mudou antes mesmo que a porta se abrisse.
Sebastian Gray estava parado ali.
Não sei há quanto tempo.
Pela expressão dele, tinha ouvido o suficiente.
— Lily — chamou.
A menina ficou rígida na hora.
— Sim, papai.
O olhar dele passou por ela, pela folha riscada, pelo meu celular ainda na mão.
— Vá buscar seu livro de caligrafia.
Ela levantou sem questionar. Recolheu os lápis com cuidado, mas deixou a folha sobre a mesa. Antes de sair, olhou para mim por menos de um segundo.
Foi quase nada.
Mas não foi nada.
Quando a porta fechou, Sebastian se voltou para mim.
— Ligações pessoais durante o horário de adaptação não são permitidas.
Guardei o celular no bolso.
— Era sobre meu pai.
— Eu sei.
— Claro que sabe.
Ele se aproximou, frio, impecável, perigoso naquela calma absurda.
— Você deveria ter informado antes de atender.
— Meu pai está em coma do outro lado do mundo.
— E minha filha estava sob sua responsabilidade.
— Eu estava a três passos dela.
— Com a atenção dividida.
Mordi a parte interna da bochecha para não responder no impulso. O pior era que ele tinha razão em parte. E eu odiava isso.
— Foi uma ligação rápida.
— Bastam segundos para algo acontecer.
A frase veio dura demais para ser apenas sobre mim.
Por um instante, vi a sombra por trás do homem. Não a dor exposta. Sebastian não fazia esse tipo de concessão. Mas uma coisa enterrada, antiga, viva o bastante para transformar qualquer risco pequeno em ameaça.
— Eu não coloquei Lily em perigo.
— Não cabe a você decidir o que é perigo dentro da minha casa.
— Então me dê uma lista. Parece que o senhor gosta delas.
O olhar dele escureceu.
— Cuidado.
— Com falar?
— Com achar que entende algo porque viu uma fresta.
A resposta me calou por um segundo.
Sebastian parou perto da mesa. Pegou a folha de Lily e olhou para a linha verde no canto. O gesto dele foi mínimo, mas o rosto mudou. Quase nada. Só o suficiente para eu perceber que aquele risco incomodava mais do que deveria.
— Ela fez isso?
— Fez.
— Por quê?
— Porque quis.
Ele ficou em silêncio.
Aquelas duas palavras pareceram atingi-lo mais do que qualquer confronto nosso.
Porque quis.
Sebastian colocou a folha de volta exatamente onde estava.
— Existem assuntos que não pertencem a você.
— Ela só fez uma pergunta.
— E você quase respondeu uma que ela não fez.
Eu sustentei o olhar dele.
— Talvez porque ninguém aqui responda nada.
O maxilar dele travou.
— Você atravessou um oceano para trabalhar nesta casa, Elena. Não confunda isso com permissão para abrir portas que eu mantive fechadas.
Meu nome na boca dele continuava sendo um problema.
— Eu atravessei um oceano porque meu pai sofreu um acidente trabalhando sem carteira, a empresa prometeu ajudar e depois sumiu como se ele fosse descartável. Eu sei muito bem o que é depender da permissão de gente poderosa, Sebastian. Por isso não confundo porta fechada com proteção tão fácil.
O silêncio que veio depois foi afiado.
Ele deu um passo.
— Você fala comigo como se esquecesse quem eu sou.
— Não. Eu falo assim porque lembro exatamente quem o senhor é.
Os olhos dele desceram pelo meu rosto, lentos, controlados, perigosos.
— E quem eu sou?
Meu coração bateu errado.
— Um homem que acha que controlar tudo impede que as coisas desapareçam.
Algo passou pela expressão dele.
Rápido.
Escuro.
Então o celular dele vibrou.
Sebastian olhou a tela.
— Fale, Verônica.
O nome entrou na sala como um perfume forte demais.
A voz feminina do outro lado era abafada, mas firme. Irritada, talvez.
— Não — ele disse. — Eu já mandei cancelar.
Pausa.
O olhar dele continuava em mim.
— A nova babá não é assunto da empresa.
Meu corpo ficou imóvel.
Então ela tinha perguntado de mim.
Sebastian ouviu mais alguns segundos, e a expressão ficou ainda mais fria.
— Verônica, não me obrigue a repetir.
Desligou.
— Ela sabe de mim? — perguntei.
— Algumas pessoas sabem o suficiente.
— Essa resposta não significa nada.
— Significa que não deve se preocupar.
— Geralmente, quando alguém diz isso, é porque existe motivo.
Ele guardou o celular.
— Verônica trabalha para mim há anos.
— E gosta do senhor há anos também?
A pergunta escapou antes que eu pudesse segurar.
Sebastian inclinou levemente a cabeça, e alguma coisa perigosa acendeu no olhar dele.
— Isso foi ciúme?
Meu rosto esquentou.
— Foi curiosidade.
— Não minta para mim, Elena.
— Eu não devo explicações sobre o que sinto.
— Ainda não.
A palavra ficou entre nós.
Ainda.
Meu coração bateu forte demais.
— O senhor tem um problema sério com posse.
— Tenho vários. Esse é só o mais honesto.
A porta abriu antes que eu respondesse. Lily voltou segurando o livro de caligrafia contra o peito e parou ao ver nós dois próximos. Como sempre, olhou primeiro para o pai.
Sebastian se afastou pouco.
— Depois do almoço, vinte minutos no jardim — ele disse.
Lily piscou, sem entender.
Eu também.
— No jardim? — perguntei.
— Vinte minutos. Sem correr. Sem sair da área de pedra. Sem telefone. Sem improvisos.
Era controle disfarçado de concessão.
Mas ainda era uma concessão.
— Ela gosta do jardim — falei.
— Eu sei do que minha filha gosta.
Olhei para Lily, tão quieta, tão cuidadosa, segurando um livro como se fosse uma ordem.
— Sabe mesmo?
Sebastian parou na porta.
— Não teste todos os meus limites no mesmo dia, Elena.
— Então pare de me dar tantos.
Por um instante, o canto da boca dele quase se moveu. Mas não chegou a ser sorriso. Era ameaça com outra roupa.
— Às vezes acho que você quer descobrir o que acontece quando eu perco a paciência.
— E o que acontece?
Sebastian me encarou.
Frio.
Lindo.
Impossível.
— Eu começo a tirar opções.
Depois saiu.
Fiquei na sala com Lily, a folha marcada por uma única linha verde e o coração batendo forte demais.
Ela não perguntou nada.
Não sorriu.
Não comemorou o jardim.
Apenas olhou para a porta por onde o pai tinha desaparecido e depois para o próprio desenho.
A linha verde continuava no canto da folha.
Pequena.
Quase invisível.
Mas estava ali.
E, naquela casa onde tudo pertencia ao controle de Sebastian Gray, talvez uma única linha fora do lugar já fosse o começo de uma guerra.