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CAPÍTULO 4 — A MULHER DO ALMOÇO

O almoço foi servido em silêncio.

Lily estava sentada ao meu lado, pequena demais naquela mesa enorme, com o livro de caligrafia fechado sobre as pernas e os dedos presos ao lápis verde que ela tinha levado da sala de atividades. Eu não sabia em que momento ela tinha decidido carregá-lo, e preferi não comentar. Naquela casa, qualquer escolha mínima parecia grande demais quando alguém apontava para ela.

Sebastian ocupava a cabeceira.

Não parecia um homem em intervalo de trabalho. Parecia alguém que tinha permitido ao mundo esperar enquanto observava a própria casa. O terno continuava impecável, os olhos frios, o celular ao lado do prato. De vez em quando, ele olhava para Lily. Depois para mim. Como se ainda avaliasse se a concessão do jardim tinha sido um erro antes mesmo de acontecer.

— Depois do almoço, vinte minutos — ele disse, sem levantar a voz.

Lily ficou imóvel.

— No jardim? — perguntei, porque ela não perguntou.

O olhar dele veio para mim.

— Foi o que eu disse.

— Ainda está valendo?

— Eu não costumo voltar atrás quando dou uma ordem.

— Achei que fosse uma concessão.

— Não se acostume.

Eu mordi a resposta antes que saísse. Escolher batalhas. Se eu quisesse durar naquela casa, precisava lembrar disso. Sebastian percebeu meu silêncio e, pelo leve estreitar dos olhos, pareceu saber exatamente que eu tinha engolido alguma coisa.

Antes que qualquer um de nós dissesse mais, passos firmes vieram do corredor.

Não eram passos de funcionária.

Eram mais seguros.

Mais intencionais.

Uma mulher apareceu na entrada da sala de jantar sem pedir licença.

Alta, elegante, vestido claro ajustado ao corpo, cabelo escuro preso em um coque baixo e uma pasta de couro nas mãos. Bonita de um jeito afiado. Daqueles que não pedem atenção, exigem.

— Sebastian — disse ela, com um sorriso pequeno. — Desculpe aparecer sem avisar, mas como você cancelou a manhã inteira por causa da nova funcionária, imaginei que preferisse resolver isso pessoalmente.

Nova funcionária.

O veneno veio polido.

Lily ficou mais reta na cadeira.

Sebastian não se levantou. Não sorriu. Apenas olhou para ela como se a presença tivesse sido registrada antes de ser aceita.

— Eu não me lembro de ter autorizado sua entrada na área íntima da casa, Verônica.

Então era ela.

A secretária.

A mulher da ligação.

Verônica sustentou o sorriso, mas algo em seus olhos endureceu.

— Marta me deixou passar. Achei que, depois de tantos anos, eu ainda pudesse entregar documentos urgentes sem precisar de escolta.

— Depois de tantos anos, deveria saber exatamente até onde pode ir.

A frase foi baixa.

Fria.

O sorriso dela diminuiu um pouco.

Eu continuei quieta, mas senti o olhar dela me alcançar. Primeiro rápido. Depois mais demorado. Avaliando minha blusa simples, meu cabelo preso, minha presença ao lado de Lily. Não era curiosidade. Era medição.

— Você deve ser Elena — disse ela. — A babá brasileira.

Brasileira.

A palavra saiu correta, mas carregada de uma delicadeza falsa que me fez erguer o queixo.

— E você deve ser Verônica — respondi. — A secretária que não gosta de ser contrariada por telefone.

O silêncio veio inteiro.

Uma funcionária parou com a travessa nas mãos.

Lily abaixou os olhos para o prato.

Sebastian olhou para mim.

Não com reprovação.

Com aquele interesse perigoso que eu já começava a odiar reconhecer.

Verônica riu baixo.

— Vejo que alguém se adaptou rápido demais.

— Ainda estou tentando entender as regras.

— Elas são simples quando se sabe o próprio lugar.

Sorri de leve.

— Então deve ser por isso que algumas pessoas confundem tanto.

O olhar dela afilou.

Sebastian pegou o copo de água e bebeu um gole, calmo demais para alguém sentado no meio de duas mulheres que claramente já tinham se odiado sem precisar de apresentação formal.

— Verônica — ele disse, pousando o copo. — Os documentos.

Ela pareceu lembrar da pasta em suas mãos. Caminhou até ele com uma familiaridade que me incomodou antes que eu pudesse impedir. Sabia onde se posicionar. Sabia a distância. Sabia que podia inclinar-se um pouco para mostrar as páginas sem que ele recuasse.

Sabia demais.

E eu odiei perceber.

— Contrato de Singapura, aditivo da compra em Boston e a ata da reunião que você cancelou — ela disse. — Também deixei sua agenda reorganizada. Mantive sua ligação das quinze horas com Lawrence. Imaginei que ainda fosse importante.

Sebastian não agradeceu.

Pegou a pasta.

— Tudo que é importante eu decido.

Verônica congelou por meio segundo.

— Claro.

O olhar dela voltou para Lily.

— Como você está, querida?

Lily apertou os dedos no colo.

— Bem.

A palavra saiu automática.

Sem calor.

Sem vínculo.

Verônica sorriu como se não percebesse.

— Crescendo cada dia mais linda.

Lily não respondeu.

Sebastian fechou a pasta.

— Lily está almoçando.

O aviso foi seco.

Verônica entendeu, mas fingiu que não.

— Eu não queria atrapalhar. Só fiquei surpresa com a mudança repentina na rotina da casa. Você nunca cancela reuniões por funcionárias.

— Eu não cancelei por uma funcionária.

A frase caiu antes que eu estivesse preparada para ela.

Verônica também não estava.

— Não?

Sebastian olhou para mim por um segundo.

Depois para Lily.

— Cancelei pela minha filha.

Era uma resposta perfeita. Correta. Inquestionável.

Mesmo assim, Verônica ouviu outra coisa.

Eu também.

Porque Sebastian Gray podia usar Lily como justificativa, mas o olhar dele tinha passado por mim primeiro.

— Claro — Verônica disse. — Lily sempre vem em primeiro lugar.

O modo como ela falou fez parecer elogio e acusação ao mesmo tempo.

Sebastian levantou os olhos para ela.

— Sempre.

A palavra não permitia dúvida.

O almoço continuou em um silêncio desconfortável. Verônica recusou sentar, mas permaneceu ali tempo demais para alguém que só entregaria documentos. Eu ajudei Lily com o guardanapo quando ele escorregou, sem tocar nela diretamente. Verônica observou o gesto.

— Tem experiência com crianças, Elena?

— Tenho.

— No Brasil?

— Sim.

Ela sorriu.

— Deve ser bem diferente daqui.

— Criança costuma precisar das mesmas coisas em qualquer lugar.

— Mesmo? — Verônica inclinou a cabeça. — Eu diria que algumas crianças precisam de preparo mais refinado.

Antes que eu respondesse, Sebastian falou:

— Cuidado.

Foi uma única palavra.

Mas não foi para mim.

Verônica ficou imóvel.

A mesa inteira pareceu entender.

Ele não tinha gostado do tom.

— Eu só quis dizer que Lily tem uma criação específica — ela corrigiu.

— E essa criação não está aberta para comentários.

Verônica apertou a pasta contra o corpo.

— Naturalmente.

Pela primeira vez desde que ela entrou, senti alguma coisa parecida com satisfação. Pequena, perigosa e absolutamente errada.

Sebastian não olhou para mim, mas falou como se soubesse.

— Elena.

Endireitei a postura.

— Sim?

— Não comemore.

Meu rosto esquentou.

Verônica olhou entre nós dois.

E ali, naquele segundo, ela percebeu.

Não havia nada entre mim e Sebastian. Nada real. Nada declarado. Nada que ela pudesse acusar sem parecer ridícula.

Mas havia atenção.

E, para uma mulher como Verônica, talvez atenção já fosse uma traição.

— Precisa de mais alguma coisa? — Sebastian perguntou a ela.

A pergunta era uma expulsão elegante.

Verônica respirou fundo, recompôs o sorriso e deu um passo para trás.

— Não. Por enquanto.

— Então Marta acompanha você até a saída.

Ela parou.

— Eu conheço o caminho.

Sebastian apoiou os dedos sobre a mesa.

— Eu sei. É por isso que Marta vai acompanhar.

O rosto dela endureceu.

Depois sorriu.

— Como quiser.

Antes de sair, Verônica olhou para mim.

— Foi um prazer conhecer você, Elena.

— Imagino.

O sorriso dela ficou mais fino.

— Espero que dure mais do que as outras.

Lily ficou imóvel.

Sebastian levantou-se.

A cadeira dele mal fez barulho, mas a sala inteira pareceu recuar.

— Verônica.

A voz dele saiu baixa.

Perigosa.

Ela parou na entrada.

— Da próxima vez que mencionar qualquer pessoa que tenha passado por esta casa na frente da minha filha, será a última vez que entrará aqui.

Verônica empalideceu pouco.

Muito pouco.

— Sebastian, eu não quis…

— Eu sei exatamente o que quis.

O silêncio depois disso foi absoluto.

Verônica saiu sem responder.

Marta apareceu no corredor e a acompanhou.

Quando os passos desapareceram, Sebastian continuou de pé. Lily mantinha os olhos no prato, pequena demais no meio daquela guerra silenciosa de adultos.

Eu queria dizer alguma coisa.

Não disse.

Sebastian olhou para mim.

— Você também.

Franzi a testa.

— Eu também o quê?

— Cuidado com o que responde na frente dela.

— Ela atacou primeiro.

— E você respondeu.

— Eu não costumo abaixar a cabeça quando alguém tenta me diminuir.

— Vai aprender a escolher quando levantar.

A frase me irritou.

— Isso é conselho ou ordem?

Ele se aproximou da minha cadeira, parando a uma distância que não deveria mexer com nada, mas mexia com o ar.

— Os dois.

Sustentei o olhar dele.

— Verônica gosta de mandar na sua casa.

— Verônica gosta de esquecer onde termina a empresa.

— E onde começa o quê?

O olhar dele ficou fixo no meu.

— O que é meu.

Meu coração falhou uma batida.

Ele não sorriu.

Não suavizou.

Apenas voltou a sentar, como se não tivesse acabado de marcar o chão ao redor de nós.

Lily pegou o garfo devagar.

Eu olhei para ela e baixei a voz.

— Está tudo bem.

A menina não respondeu.

Mas sua mão, por baixo da mesa, segurava o lápis verde..

Eu não sabia quando ela tinha pegado.

Sebastian também viu.

E, pelo jeito como o olhar dele endureceu, entendi que naquela casa até uma criança escolher segurar uma cor podia parecer ameaça.

O almoço continuou por mais alguns minutos, pesado, medido, cheio de coisas que ninguém dizia. Quando Lily terminou de comer, Sebastian olhou para o relógio.

— Marta vai acompanhá-la até o quarto para trocar os sapatos.

Lily ergueu os olhos por um instante.

Não sorriu.

Não agradeceu.

Apenas apertou o lápis verde entre os dedos, como se qualquer reação maior pudesse fazer a permissão desaparecer.

— O jardim continua valendo — ele disse.

Ela assentiu.

— Vinte minutos — Sebastian completou, olhando agora para mim. — Sem telefone. Sem correr. Sem sair da área de pedra. Sem improvisos.

— Eu ouvi da primeira vez.

— Então não me dê motivo para repetir uma terceira.

Marta apareceu na entrada e Lily levantou, obediente. Antes de sair, olhou para mim por menos de um segundo. Não era pedido. Não era confiança. Ainda não. Era só confirmação silenciosa de que eu iria também.

Quando ela desapareceu pelo corredor, Sebastian permaneceu sentado, os dedos próximos à pasta que Verônica tinha deixado.

— Ela não gosta da Verônica — falei.

— Lily não gosta de muitas pessoas.

— Talvez porque muitas pessoas tratem ela como extensão do senhor.

O olhar dele veio lento para mim.

— E você acha que trata diferente?

— Estou tentando.

— Tentar não basta.

— Controlar também não.

Ele ficou em silêncio.

Por um momento, achei que fosse me cortar como sempre fazia. Mas Sebastian apenas se levantou, pegou a pasta e passou por mim.

Parou ao meu lado.

Perto demais.

— No jardim, Elena, qualquer coisa fora do que eu autorizei termina na hora.

Olhei para ele.

— O senhor vai observar?

— Sempre.

A palavra veio simples.

Fria.

Absoluta.

Depois ele saiu, deixando o ar pesado atrás de si.

Fiquei sozinha na sala por alguns segundos, ouvindo o eco daquela resposta.

Verônica tinha ido embora, mas deixara uma coisa clara: eu não era a única mulher tentando sobreviver ao território de Sebastian Gray.

A diferença era que ela queria entrar.

E eu começava a desconfiar que talvez sair fosse ser muito mais difícil.

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