Mundo de ficçãoIniciar sessãoAdrian
A porta do escritório se fecha atrás de Luna com um som baixo, definitivo demais para algo tão simples. Fico olhando para a madeira escura por alguns segundos, como se ela pudesse se abrir novamente sem que eu precise ordenar. Não acontece. Claro que não. As coisas não funcionam assim. Pessoas entram, saem, cumprem funções. Nada permanece além do necessário. Ainda assim, algo permanece. Sento-me devagar na cadeira, apoiando os antebraços na mesa. O relógio de pulso marca o tempo com precisão irritante. Tudo aqui funciona. Tudo responde. Exceto o que está acontecendo dentro de mim. Luna Azevedo não pediu nada além do que já estava no anúncio. Não negociou. Não implorou. Não se mostrou grata demais — o que sempre denuncia intenções ocultas. Ela apenas entrou, respondeu, observou… e saiu. Isso não deveria ser memorável. Mas é. Abro uma das gavetas da mesa e retiro o dossiê que mandei montar. Não precisava reler. Já conheço cada detalhe. Mesmo assim, folheio as páginas com uma atenção que não se justifica. Endereço antigo. Trabalhos temporários. Nenhuma relação duradoura registrada. Um histórico limpo demais para alguém que viveu o suficiente para aprender a ser cautelosa. Cautela reconhece cautela. Fecho o dossiê com mais força do que pretendia. Levanto e caminho pelo escritório, sentindo a necessidade física de movimento. A casa está silenciosa. Clara dorme. Funcionários circulam apenas onde é necessário. Tudo está sob controle. Então por que sinto essa fissura? A imagem de Luna atravessa minha mente sem permissão. A postura ereta, mas não rígida. O olhar atento, nunca submisso. Ela não evita contato visual, mas também não o prolonga para intimidar. É um equilíbrio preciso. Treinado pela vida, não por livros. Ela não é ingênua. Isso deveria afastar qualquer interesse que não seja profissional. Mas não afasta. Caminho até a janela e observo o jardim escuro. As luzes baixas desenham caminhos que levam a lugar nenhum. Percebo que estou tentando lembrar exatamente como ela caminhou até a porta. Quantos passos deu. Se hesitou antes de sair. Não hesitou. Isso me incomoda. Pessoas costumam hesitar ao sair do meu escritório. Medem consequências. Tentam prever reações. Luna simplesmente decidiu o que faria e executou. Decisão sem necessidade de aprovação. Apoio a mão no vidro frio. Desde a morte da minha irmã, aprendi a reduzir tudo ao essencial. Clara. Segurança. Rotina. Nenhuma variável desnecessária. Emoções são ruído. Apego é falha de sistema. Pessoas demais complicam. E, ainda assim, Luna entra nesse espaço com uma facilidade silenciosa, como se reconhecesse as frestas que deixei sem perceber. Ela viu Clara. Não apenas como uma criança sob minha tutela, mas como alguém que sente demais para o corpo pequeno que tem. E Clara respondeu. Com calma. Com presença. Com algo que eu não consegui oferecer, apesar de todos os recursos. Isso é inaceitável. Não porque Luna fez algo errado — mas porque funcionou. Fecho os olhos por um instante, e a memória da minha irmã surge sem aviso. Selene sentada no chão da sala, brincando com Clara, ignorando completamente o mundo ao redor. Ela sempre fez isso. Escolhia alguém e o resto desaparecia. Eu a criticava por isso. Chamava de imprudência. Hoje, entendo que era entrega. Abro os olhos com um suspiro contido. Luna não é Selene. Não sorri alto. Não ocupa espaço demais. Mas há algo semelhante na forma como ela se faz presente sem esforço. Como se estivesse onde deveria estar, mesmo quando claramente não pertence àquele mundo. Pertencer é um conceito superestimado. O que importa é influência. E Luna já influencia. Caminho até o tablet e, quase sem pensar, acesso as câmeras internas. Um hábito antigo, racionalizado como segurança. Vejo corredores vazios. A escada. A sala de estar. Então a imagem do corredor do segundo andar. A porta do quarto dela está fechada. Amplio. Nada acontece. Ainda assim, meu olhar permanece ali por tempo demais. Tento justificar. Avaliação. Ajuste de rotina. Prevenção. Mentira. Quero saber se ela está confortável. Se está inquieta. Se já se arrependeu. Se pensa em ir embora. A possibilidade de ela ir embora cria uma pressão estranha no peito. Não é perda. Não ainda. É… antecipação. Antecipação é o primeiro estágio do erro. Desligo o tablet com brusquidão e passo a mão pelo rosto. Não posso permitir que isso avance. Luna é uma funcionária. Temporária. Substituível, se necessário. Tudo aqui é estruturado para funcionar sem indivíduos específicos. Mas Clara não funcionou sem ela hoje. E isso muda a equação. Sento-me novamente à mesa e tento trabalhar. Números se embaralham. Palavras não fazem sentido. Minha mente retorna, insistente, à presença dela no escritório. Ao modo como não tentou me decifrar em voz alta — apenas observou. Ela me estuda. Essa percepção é nova. Desconfortável. Estimulante de uma forma que eu não reconheço há muito tempo. Não é desejo. É foco. E foco, quando direcionado a uma pessoa, se transforma rapidamente em vigilância. Planejamento. Antecipação de movimentos. Controle. Percebo, com uma clareza fria, que já estou ajustando rotas. Horários. Regras mentais. Espaços. Não para evitar Luna — mas para incluí-la sem admitir. Isso é o início. Não da paixão. Ainda não. Da obsessão silenciosa que se disfarça de necessidade. De proteção. De lógica. Levanto-me uma última vez antes de sair do escritório. Apago as luzes, mas antes de fechar a porta, meu olhar se volta automaticamente para o corredor que leva aos quartos. Para onde ela foi. Luna Azevedo entrou nesta casa como uma solução prática. E eu, que sempre previ todas as consequências, não previ isto: Que a simples ideia de observá-la partir já me parece uma perda que não estou disposto a aceitar.






