Mundo de ficçãoIniciar sessãoAdrian
Eu não gosto de estranhos dentro da minha casa. Nunca gostei. Não depois do que aconteceu. Observo Luna sentada no chão do jardim com Clara, as duas inclinadas sobre o desenho como se o mundo ao redor tivesse deixado de existir. Clara não costuma permitir isso. Não costuma se aproximar de ninguém tão rápido. A maioria das pessoas a intimida ou a força a falar. Luna não faz nenhuma das duas coisas. Ela apenas fica. Algo simples. Algo raro. Cruzo os braços, mantendo a distância. Não interfiro. Aprendi, da pior maneira possível, que interferir demais também destrói. Há oito meses, minha vida era outra. Organizada. Controlada. Previsível. Então o telefone tocou às três da manhã. Ainda lembro do som. Ainda ouço às vezes, quando a casa está silenciosa demais. Minha irmã, Selene, sempre foi o caos da família. Emocional, impulsiva, viva demais. Eu era o oposto. Onde eu construía muros, ela abria janelas. Onde eu planejava, ela sentia. E talvez por isso tenhamos funcionado tão bem juntos por tanto tempo. Ela morreu em um acidente estúpido, banal, injustificável. O carro derrapou numa estrada molhada. Ela e os namorados morreram na hora. Clara sobreviveu porque dormia no banco de trás, presa à cadeirinha. Os médicos disseram que foi sorte. Eu discordo. Foi crueldade. Desde então, tudo em mim gira em torno de Clara. Cada decisão. Cada horário. Cada pessoa que entra nesta casa passa primeiro pelo meu crivo. Eu não posso perder mais ninguém. Não posso permitir falhas. Não posso confiar facilmente. E, ainda assim, ali está Luna. Uma mulher comum demais para o mundo em que vive agora. Sem roupas caras, sem postura ensaiada, sem ambição estampada nos olhos. Ela não tenta me impressionar. Não tenta me seduzir. Não tenta controlar Clara. Isso deveria me tranquilizar. Mas não tranquiliza. Me incomoda. Porque é exatamente assim que as coisas escapam do controle. Luna ri baixo quando Clara mostra um desenho novo. Não é uma gargalhada exagerada, nem condescendente. É real. Espontânea. Clara responde com algo raro: um sorriso pequeno, quase tímido. Meu peito aperta. — Senhor Valmont? — Helena, a governanta, surge ao meu lado. — Deseja que eu as chame? — Não — respondo imediatamente. Ela me lança um olhar curioso, mas obedece. Todos aqui aprenderam a não questionar minhas decisões. É mais fácil assim. Volto minha atenção para Luna. Durante a entrevista, ela não hesitou. Não se vendeu. Não pediu nada além do que estava no anúncio. Não tentou barganhar. Não demonstrou medo, embora eu tenha visto a tensão em seus ombros, o cuidado nas palavras. Ela é cautelosa. Gosto disso menos do que deveria. Cautela significa limites. E limites sempre me frustraram. A imagem da minha irmã me invade sem aviso. Selene sentada no sofá, rindo alto, dizendo que eu precisava viver mais, amar mais, arriscar mais. Ela dizia que eu controlava tudo porque tinha medo de perder. Ela estava certa. Perder dói mais do que qualquer coisa que já experimentei. É uma dor silenciosa, persistente, que se infiltra nas rotinas, nos corredores da casa, nos quartos vazios. Clara dorme no quarto ao lado do meu. Às vezes acordo no meio da noite só para ouvir sua respiração, como se o som fosse a única prova de que ela ainda está aqui. Segura. Viva. Luna se levanta, limpando as mãos sujas de giz na calça. Clara segura a barra da blusa dela por um instante antes de soltar. Um gesto pequeno. Significativo demais. Ela olha em minha direção. Nossos olhos se encontram. Não sorrio. Ela também não. Mas há algo ali. Um reconhecimento silencioso. Como se ambos soubéssemos que aquele momento importa mais do que parece. — Senhor Valmont — ela diz, aproximando-se com cuidado. — Clara desenha muito bem. — Ela puxou a mãe — respondo automaticamente. A palavra mãe ainda pesa na boca. Luna percebe. Vejo isso em seu olhar. Mas, ao contrário de todos os outros, ela não pede desculpas, não muda de assunto, não me lança aquele olhar de pena que aprendi a odiar. — Ela parece segura aqui — Luna diz apenas. Segura. A palavra ecoa. — Segurança é relativa — respondo. — Para crianças, não deveria ser — ela retruca, sem desafio, sem submissão. Ergo uma sobrancelha. — Você se sente segura aqui, Luna? A pergunta escapa antes que eu a controle. Ela hesita. Só por um segundo. — Eu me sinto… atenta — responde. — E isso é bom. Interessante. Assinto. — Helena lhe mostrará o quarto — digo. — Se aceitar a vaga, começará amanhã. Ela me encara, surpresa. — Isso foi… rápido. — Eu não gosto de perder tempo — respondo. — Nem de errar. — E eu? — ela pergunta. — Tenho escolha? A ousadia me surpreende. Não a pergunta em si, mas o tom. Calmo. Firme. — Sempre — respondo. — Mas recomendo que pense bem antes de dizer não. Seus olhos se estreitam levemente. — Por quê? Porque eu já decidi. Mas não digo isso. — Porque Clara precisa de constância — digo em vez disso. Ela assente lentamente. — Eu preciso pensar — diz. Permito. Outra surpresa. — Claro — respondo. — Mas não por muito tempo . Quando Luna se afasta, sinto algo desconfortável se instalar no peito. Não é desejo. Não ainda. É outra coisa. Uma consciência incômoda. Uma atenção que não pedi. Eu a observo subir as escadas, cada passo ecoando como um aviso silencioso. Pessoas entram na minha vida o tempo todo. Funcionários, parceiros, investidores. Nenhum deles importa além da função que cumprem. Luna não entrou para cumprir uma função. Ela entrou para ocupar um espaço que eu não sabia que estava vazio. E isso… isso é perigoso. Aperto os dedos contra a palma da mão. Não posso me dar ao luxo de sentir. Não posso repetir erros. Mas enquanto escuto a risada baixa de Clara ecoando pelo corredor — uma risada que não ouvia há meses — percebo que já estou perdendo algo essencial: a distância. E distância sempre foi minha maior proteção.






