Dez anos antesO corredor da faculdade de Direito estava lotado, o mural de resultados do quinto semestre cercado por uma multidão nervosa de calouros verificando as próprias notas. Ana Gusmão, vinte anos, cabelos presos num rabo de cavalo apertado, abria caminho entre os corpos com a determinação silenciosa de quem já tinha aprendido, cedo demais na vida, a não esperar ajuda de ninguém.— Com licença — ela murmurou pela quinta vez, tentando se espremer até o mural, quando uma voz irritada cortou o barulho geral.— Ei, fila é fila! Todo mundo aqui também quer ver a própria nota, sabia?Ana se virou e encontrou uma garota de cabelos cacheados e óculos de armação grossa, os braços cruzados, encarando-a com uma indignação que parecia mais performática do que genuína.— Desculpa — Ana respondeu, recuando um passo, o rosto corando de vergonha.A garota a estudou por um instante, e algo na postura cansada de Ana pareceu amolecer a própria irritação.— Relaxa, eu tava brincando. Mas assumo q
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