A chuva começou a cair sobre a Fazenda Santa Aurora pouco depois das dez da noite, primeiro fina, quase tímida, depois pesada, violenta, batendo contra as telhas antigas da casa grande como se quisesse arrancar o passado de dentro das paredes. O vento sacudia as árvores altas que cercavam o casarão, fazia ranger as janelas fechadas e espalhava pelo ar o cheiro frio de terra encharcada, capim molhado e madeira antiga. Dentro do escritório, Raul Fontes de Alvarenga permanecia sentado diante de uma mesa coberta por papéis que ele fingia ler havia mais de meia hora, mas seus olhos não conseguiam acompanhar uma única linha. A casa estava silenciosa demais, e aquele silêncio sempre o incomodava quando Amélia ainda não havia voltado. Ele já conhecia aquele tipo de noite. Conhecia o atraso, as desculpas, os sorrisos tortos dos empregados ao tentarem fingir que não sabiam, o olhar preocupado de Rosa quando servia café, e principalmente conhecia a sensação amarga de esperar por uma esposa
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