Mundo ficciónIniciar sesión
Os primeiros dias na cidade grande foram muito mais difíceis do que Mariana havia imaginado.
Durante a viagem, ela tentou se convencer de que estava fazendo a coisa certa. Repetiu para si mesma inúmeras vezes que precisava seguir em frente, que permanecer em Santa Aurora teria destruído o pouco que ainda restava dela e que um coração partido não podia ser motivo para abandonar os próprios sonhos. Mas a verdade era que, quando o ônibus finalmente entrou no terminal rodoviário da capital, ela se sentiu completamente perdida. O movimento era intenso. Pessoas caminhavam apressadas em todas as direções. Carros buzinavam sem parar. O cheiro de fumaça substituía o perfume do campo. Não existiam montanhas verdes no horizonte. Não existiam cavalos. Não existiam os rostos conhecidos que a acompanhavam desde a infância. Pela primeira vez na vida, Mariana estava completamente sozinha. Com a pequena mala aos pés e os olhos ardendo de cansaço, sentou-se em um banco da rodoviária e segurou as lágrimas que insistiam em surgir. — Você consegue. Sussurrou para si mesma. — Já passou pela pior parte. Agora é só continuar. Mas nem ela acreditava naquilo. Os dias seguintes foram uma sequência de dificuldades. O dinheiro que havia juntado era pouco. Conseguiu alugar um pequeno quarto nos fundos de uma pensão antiga administrada por uma senhora chamada Dona Conceição. O lugar era simples. Havia apenas uma cama estreita, uma mesa pequena, uma cadeira de madeira e uma janela que dava para um corredor estreito. Mesmo assim, era um começo. Mariana conseguiu trabalho em uma lanchonete próxima ao centro da cidade. O salário era baixo, mas suficiente para pagar a pensão e garantir alimentação enquanto tentava retomar os estudos. Foi durante aquela rotina cansativa que algo começou a mudar. Primeiro vieram os enjoos. Depois o cansaço constante. As tonturas. A falta de apetite. No início ela acreditou que fosse apenas estresse. Seu corpo estava exausto. Seu coração também. Mas quando o atraso se transformou em semanas, um medo silencioso começou a crescer dentro dela. Naquela manhã chuvosa, saiu do trabalho mais cedo e caminhou até uma pequena clínica popular indicada por uma colega. Durante todo o trajeto seu coração parecia bater dentro da garganta. Ela tentava encontrar explicações. Tentava convencer a si mesma de que estava exagerando. Tentava ignorar a possibilidade que crescia dentro de sua mente. Mas não conseguiu. Quando a médica entrou na sala alguns minutos depois segurando os resultados dos exames, Mariana soube. Antes mesmo que qualquer palavra fosse dita. — Mariana. Disse a médica com gentileza. — Você está grávida. O mundo ficou em silêncio. Ela piscou uma vez. Depois outra. Como se não tivesse compreendido. — Grávida? — Sim. A médica sorriu. — Aproximadamente doze semanas. Mariana sentiu o ar desaparecer dos pulmões. As mãos começaram a tremer. O coração disparou. E, de repente, tudo voltou. As despedidas. As promessas. O último abraço. O rosto de Raul. Os olhos dele. A voz dele. Tudo. — Tem certeza? Perguntou quase sem voz. — Absoluta. A médica empurrou os exames sobre a mesa. — Parabéns. Mas Mariana não conseguiu sorrir. Quando saiu da clínica, caminhou sem direção durante quase uma hora. As lágrimas escorriam silenciosamente. Não porque estivesse infeliz. Mas porque estava assustada. Terrivelmente assustada. Sentou-se em uma praça quase vazia e colocou as mãos sobre o próprio ventre. Ainda não existia nenhuma mudança visível. Nenhuma barriga. Nenhum movimento. Nada. Mas havia uma vida. Uma vida que dependia dela. — Meu Deus... Sussurrou. E chorou. Chorou por tudo o que havia perdido. Chorou por tudo o que ainda viria. Chorou porque estava sozinha. Chorou porque Raul nunca saberia. Naquela noite, pela primeira vez, pensou em voltar. Pensou em pegar um ônibus. Voltar para Santa Aurora. Contar a verdade. Mas a imagem do casamento surgiu imediatamente em sua mente. Raul ao lado de Amélia. As fotografias. Os comentários da cidade. As pessoas julgando. As acusações. Não. Ela não faria aquilo. Não apareceria para destruir a vida dele. Criaria aquela criança sozinha. Mesmo que fosse difícil. Mesmo que doesse. Mesmo que parecesse impossível. E foi exatamente isso que decidiu. Nos meses seguintes, Mariana transformou o medo em determinação. Trabalhava durante o dia. Estudava durante a noite. Economizava cada centavo. Vendia doces nos finais de semana. Fazia pequenos serviços extras. Dormia pouco. Comia quando podia. E seguia em frente. Quando a barriga começou a aparecer, precisou abandonar a lanchonete. Mas conseguiu uma bolsa parcial em uma faculdade de fisioterapia após se destacar em um processo seletivo. Foi a primeira vez, desde que deixara Santa Aurora, que sentiu esperança. As aulas eram difíceis. A gravidez também. Mas Mariana se recusava a desistir. Durante as madrugadas silenciosas, estudava sentada na pequena mesa do quarto enquanto acariciava a barriga crescente. Falava com o bebê. Contava sobre seus sonhos. Sobre a vida. Sobre a fazenda. Sobre os cavalos. Sobre os avós que ele não conhecia. E sobre o pai. Sempre o pai. — Ele era bom. Dizia baixinho. — Muito bom. Às vezes chorava depois. Porque ainda o amava. E odiava admitir isso. O tempo passou. As estações mudaram. A barriga cresceu. E, pela primeira vez, quando ouviu o coração do bebê durante uma consulta, Mariana sentiu algo mudar dentro dela. O medo continuava existindo. Mas o amor havia se tornado maior. Muito maior. Quando entrou no oitavo mês de gestação, já não conseguia imaginar a vida sem aquela criança. Era sua família. Sua força. Seu motivo. Sua razão. E então chegou o dia. Numa madrugada fria, uma dor intensa a despertou. Outra veio poucos minutos depois. E mais outra. Quando percebeu o que estava acontecendo, o pânico tomou conta dela. Estava sozinha. Completamente sozinha. Foi Dona Conceição quem a encontrou chorando de dor e conseguiu levá-la ao hospital. As horas seguintes pareceram intermináveis. A dor vinha em ondas. A respiração falhava. O corpo tremia. Mas Mariana resistiu. Por ele. Sempre por ele. Quando finalmente ouviu o primeiro choro, algo dentro dela se partiu e se reconstruiu ao mesmo tempo. As lágrimas escorreram livremente. A enfermeira colocou o bebê em seus braços. Pequeno. Quente. Perfeito. Mariana observou aquele rostinho durante vários segundos. O nariz. Os olhos ainda fechados. Os cabelos escuros. A respiração suave. E naquele instante soube. Soube que jamais se arrependeria. Jamais. Porque, apesar de toda a dor que havia enfrentado, aquele menino era a coisa mais bonita que já existira em sua vida. — O nome dele? Perguntou a enfermeira. Mariana sorriu entre lágrimas. Um sorriso verdadeiro. O primeiro em muito tempo. Acariciando delicadamente o rosto do recém-nascido, respondeu: — Miguel. A enfermeira anotou. — Miguel Valença. Mariana olhou novamente para o filho. E pela primeira vez desde que deixará Santa Aurora, sentiu que talvez o futuro ainda pudesse ser bonito. Ela não sabia quantas dificuldades enfrentaria. Não sabia quantas noites que passaria acordada. Não sabia quantas batalhas ainda teria de vencer. Mas uma coisa era certa. Não estava mais sozinha. Porque agora existia Miguel. E, naquele pequeno coração que batia tranquilo contra o seu peito, Mariana encontrou a força que acreditava ter perdido para sempre.






