Mundo de ficçãoIniciar sessãoO amanhecer chegou à Fazenda Santa Aurora escondido atrás de um céu completamente cinzento.
Nuvens pesadas cobriam toda a extensão das montanhas, impedindo que um único raio de sol atravessasse a espessa camada de chuva que ainda insistia em cair sobre a região. A garoa fina parecia não ter força suficiente para provocar uma tempestade, mas também não dava sinais de que terminaria tão cedo. O vento atravessava lentamente os eucaliptos que cercavam a propriedade, fazendo as folhas produzirem um sussurro contínuo, quase como uma oração silenciosa. O perfume doce das flores espalhadas pelos jardins misturava-se ao cheiro intenso da terra molhada, enquanto pequenas poças d'água refletiam um céu triste que parecia acompanhar o luto daquela família. Desde as primeiras horas da manhã, veículos começaram a atravessar lentamente os grandes portões de ferro da fazenda. Caminhonetes luxuosas, carros oficiais da prefeitura, automóveis de empresários, políticos e fazendeiros da região formavam uma fila discreta ao longo da estrada principal. Em cidades pequenas, tragédias nunca pertencem apenas às famílias envolvidas. Elas rapidamente se transformam em assunto coletivo. Alguns dos visitantes estavam ali porque realmente admiravam Amélia. Outros compareciam por respeito à influência dos Alvarenga e dos Siqueira. Havia também aqueles que apenas alimentavam a curiosidade humana diante da desgraça alheia. Conversavam em voz baixa, trocavam olhares discretos e interrompiam qualquer comentário sempre que percebiam a aproximação de algum empregado da fazenda. Dentro da casa grande, entretanto, ninguém parecia notar a presença dos visitantes. O silêncio dominava cada corredor. As paredes, normalmente aquecidas pelo cheiro do café preparado por Rosa e pelas risadas de Clara correndo entre os cômodos, agora pareciam frias e distantes. Até o relógio antigo da sala principal parecia marcar as horas mais lentamente. Os empregados caminhavam com passos cuidadosos, evitando produzir qualquer ruído desnecessário. As bandejas eram apoiadas sobre as mesas com delicadeza. As portas eram fechadas sem estalos. Era como se todos compartilhassem o mesmo receio de que qualquer som mais alto pudesse romper o frágil equilíbrio emocional que ainda restava naquela casa. No quarto de hóspedes, Celina Fontes de Alvarenga permanecia parada diante do espelho havia vários minutos. Vestia um elegante vestido preto de mangas longas, mas nem mesmo a sofisticação das roupas conseguia esconder o desgaste estampado em seu rosto. As olheiras profundas denunciavam noites inteiras sem dormir. Seus olhos permaneciam inchados, e o corretivo aplicado com tanto cuidado não conseguia esconder completamente as marcas deixadas pelo choro. Ela segurava um pequeno broche de pérolas entre os dedos, tentando prendê-lo ao vestido, mas suas mãos tremiam tanto que precisou recomeçar três vezes o mesmo movimento. Respirou profundamente. Fechou os olhos. Tentou controlar o tremor da respiração. Durante toda a vida aprendera que uma mulher da família Alvarenga jamais demonstrava fraqueza diante dos outros. Crescera ouvindo que postura era sinônimo de respeito. Elegância era sinônimo de força. Mas, naquela manhã, nenhuma dessas lições parecia fazer sentido. O reflexo diante do espelho não mostrava a mulher firme que administrava propriedades, resolvia conflitos e sustentava a família nos momentos difíceis. Mostrava apenas uma mãe. Uma mãe que acabara de ver o único filho perder a esposa, os movimentos das pernas e a própria vontade de viver. A imagem de Raul surgiu imediatamente em sua memória. O olhar perdido. Os lábios comprimidos durante horas sem pronunciar uma única palavra. As mãos apertando os lençóis do hospital até os dedos perderem a cor. O silêncio assustador que ocupava o lugar onde antes existia um homem cheio de vida. Celina levou uma das mãos até a boca. Precisou apoiar a outra na cômoda para impedir que as pernas cedessem. Sentiu o peito apertar com tanta força que precisou inspirar lentamente várias vezes antes de recuperar o controle. Uma lágrima escorreu silenciosamente por seu rosto. Ela limpou o rosto rapidamente, quase irritada consigo mesma, mas outra lágrima surgiu logo depois. — Meu Deus... Murmurou com a voz embargada. — Não deixa meu filho se perder dentro dessa dor... Uma batida discreta na porta interrompeu sua oração. Era uma das empregadas. — Dona Celina o pessoal já começou a chegar. Ela demorou alguns segundos para responder. Endireitou a postura. Enxugou cuidadosamente o rosto. Respirou fundo. Somente então respondeu: — Já estou descendo. Mas, antes de sair, voltou a olhar para o espelho mais uma vez. Dessa vez, não para conferir a aparência. Mas para encontrar forças. Na varanda da casa grande, Clara permanecia sentada no degrau de madeira abraçada ao velho coelho de pelúcia que a acompanhava desde bebê. O vestido preto escolhido por Rosa parecia grande demais para seu pequeno corpo, e a menina puxava constantemente a barra da saia, claramente incomodada com aquela roupa que nunca escolheria usar. Seus pezinhos balançavam sem tocar o chão, enquanto seus olhos acompanhavam, curiosos, cada carro que estacionava diante da casa. Ela observava os adultos entrarem. Homens de terno escuro. Mulheres vestidas de preto. Rostos sérios. Olhos vermelhos. Ninguém sorria. Ninguém conversava alto. Ninguém parecia feliz em vê-la. Aquilo era estranho. Muito estranho. Desde o acidente, tudo parecia diferente. Os empregados falavam baixinho quando ela se aproximava. Rosa chorava escondida na cozinha, acreditando que Clara não percebia. Bento permanecia longos minutos sentado sozinho na varanda, olhando para os campos sem dizer palavra alguma. Até dona Celina, sempre tão elegante e segura, agora andava pela casa como alguém que carregava um peso invisível sobre os ombros. E o pai... O pai simplesmente desaparecerá. Clara apertou o coelho contra o peito. Os dedinhos acariciavam distraidamente uma das orelhas já desgastadas do brinquedo. Ela sentia saudade. Uma saudade que não sabia explicar. Foi então que Rosa apareceu trazendo uma bandeja com uma caneca de leite morno e um pedaço de bolo de milho. A mulher tentou sorrir. Mas o sorriso morreu antes mesmo de nascer. Sentou-se devagar ao lado da menina. Permaneceu alguns segundos em silêncio, observando o movimento da fazenda. Até que Clara falou primeiro. — Vó Rosa... A voz saiu baixinha. Quase um sussurro. — Oi, minha flor. — Todo mundo tá triste por causa da mamãe? Rosa sentiu o corpo inteiro enrijecer. Os dedos apertaram a bandeja com tanta força que a porcelana produziu um leve estalo. Ela desviou o olhar para os jardins. Respirou fundo. Mas o ar parecia não chegar aos pulmões. — Tá, sim... Clara abaixou os olhos. — Ela ainda tá no hospital? Rosa fechou os olhos por um instante. A pergunta finalmente chegara. Ela sabia que aquele momento aconteceria. Mas nenhuma preparação parecia suficiente. Nenhuma mãe. Nenhuma avó. Nenhum ser humano estava preparado para destruir a esperança de uma criança. Ela colocou lentamente a bandeja sobre o banco de madeira. Depois virou completamente o corpo na direção da menina. Segurou suas pequenas mãos entre as suas. As mãos de Clara eram quentes. Pequenas. Delicadas. As dela estavam geladas e tremiam visivelmente. — Minha princesa presta atenção no que a vó vai lhe dizer... Clara inclinou levemente a cabeça. Os olhos enormes fixos em Rosa. Cheios de expectativa. Cheios de confiança. E isso tornou tudo ainda mais difícil. Rosa sentiu as lágrimas voltarem. Dessa vez não conseguiu escondê-las. Uma escorreu. Depois outra. Ela respirou profundamente, tentando impedir que a voz falhasse. Mas falhou mesmo assim. — Sua mamãe sofreu um machucado muito, muito sério naquele acidente... Clara assentiu devagar. — Eu sei... — Os médicos fizeram de tudo. Rosa precisou interromper a frase. Levantou uma das mãos. Cobriu a boca. Os ombros estremeceram discretamente. Era como se cada palavra precisasse ser arrancada à força de dentro do peito. Quando finalmente voltou a falar, sua voz saiu tão baixa que quase se confundiu com o barulho da chuva. — Mas... Deus chamou ela pra morar com Ele... Clara permaneceu completamente imóvel. Piscou uma vez. Depois outra. Os olhos percorreram lentamente o rosto molhado de Rosa. Como se tentasse compreender o significado daquelas palavras. Então sua respiração mudou. Os lábios começaram a tremer. Os dedos soltaram o coelho de pelúcia, que caiu silenciosamente sobre o assoalho da varanda. — Quer dizer... Sua voz falhou. Ela engoliu em seco. Tentou novamente. — Quer dizer que... Rosa apertou suas mãos com delicadeza. Sem conseguir falar. Apenas assentiu. E, naquele instante, o pequeno mundo de Clara começou a desmoronar.






