Mundo de ficçãoIniciar sessãoA primeira sensação foi o frio.
Não um frio comum, daqueles que fazem alguém procurar um cobertor ou aproximar as mãos do fogo. Era um frio brutal, agressivo, que parecia atravessar a pele e penetrar diretamente nos ossos. Um frio que queimava. Um frio que sufocava. Quando Raul Fontes de Alvarenga voltou a ter alguma consciência do que estava acontecendo, não soube dizer quanto tempo havia passado desde o acidente. Alguns segundos. Alguns minutos. Talvez mais. Tudo parecia distante, fragmentado, envolto em uma névoa de dor e desorientação. A única certeza era a água. Água por toda parte. Água invadindo o carro destruído. Água entrando por sua boca, seu nariz e seus pulmões. Água escura, pesada e gelada, transformando o interior do veículo em uma armadilha mortal. A cabeça dele latejava violentamente. Cada batida do coração parecia provocar uma nova explosão de dor dentro do crânio. O gosto metálico do sangue misturava-se ao gosto barrento da água do açude. Sua visão estava turva, limitada pelos reflexos distorcidos que atravessavam o vidro quebrado. O carro permanecia inclinado, parcialmente submerso, enquanto a água continuava entrando sem piedade. Raul tentou respirar, mas só encontrou mais desespero. Seu peito queimava. O instinto gritava para que lutasse. Para que saísse dali. Para que sobrevivesse. Com esforço, tentou mover os braços. Os músculos responderam de forma lenta e dolorosa. Os dedos encontraram o fecho do cinto de segurança. Tremiam tanto que mal conseguiam obedecer aos comandos do cérebro. Ele tentou focar. Tentou ignorar o pânico crescente. Tentou ignorar a sensação de que o tempo estava acabando. Finalmente conseguiu liberar o cinto. O corpo caiu para frente alguns centímetros. A dor que atravessou sua coluna foi tão intensa que arrancou um gemido abafado de sua garganta. Então ele se virou. E viu Amélia. Ela estava caída contra a porta do passageiro. Os cabelos claros flutuavam lentamente ao redor do rosto. Os olhos permaneciam fechados. O corpo estava imóvel. Estranhamente imóvel. Assustadoramente imóvel. Por alguns segundos, Raul recusou-se a compreender o que estava vendo. Sua mente procurou qualquer explicação alternativa. Ela estava desacordada. Apenas desacordada. Precisava acordá-la. Precisava tirá-la dali. — Amélia... Tentou chamá-la. Mas sua voz se perdeu em bolhas de ar. Ele estendeu o braço. Tentou alcançá-la. Tentou puxá-la. Tentou salvá-la. Mas foi nesse momento que o verdadeiro terror começou. Suas pernas não responderam. Raul parou. Tentou novamente. Nada. Tentou mover os pés. Nada. Tentou dobrar os joelhos. Nada. O pânico explodiu dentro dele com uma violência que nem mesmo a proximidade da morte havia provocado. — Não... não... A palavra morreu dentro da água. Ele tentou mais uma vez. E outra. E outra. Mas continuava sem sentir absolutamente nada. Era como se a parte inferior do seu corpo tivesse desaparecido. Como se não existisse mais. Como se tivesse sido arrancada dele. A água continuava subindo. Primeiro no peito. Depois nos ombros. Depois no pescoço. E, pela primeira vez desde o acidente, Raul sentiu medo de verdade. Não da morte. Mas da impotência. Porque Amélia estava ali. A poucos centímetros. E ele não conseguia alcançá-la. Não conseguia salvá-la. Não conseguia sequer chegar até ela. Quando a água finalmente cobriu seu rosto, a última imagem que viu foi o corpo imóvel da esposa desaparecendo na escuridão. Então tudo ficou preto. A tempestade continuava castigando a região. A chuva caía sobre os campos da Fazenda Santa Aurora como uma cortina espessa de água e vento. Os relâmpagos iluminavam brevemente as cercas, os pastos e as estradas de terra, transformando a paisagem rural em uma sequência de imagens fantasmagóricas. Na curva próxima ao açude, o caminhoneiro que passava pela rodovia diminuiu a velocidade ao perceber algo estranho. A cerca estava destruída. Parte dela havia sido arrancada completamente. Ele freou. Desceu do caminhão. A chuva imediatamente encharcou suas roupas. Foi então que viu. Parte do teto de um veículo desaparecendo sob a superfície escura do açude. O sangue gelou. Sem perder tempo, correu de volta para o caminhão e pegou o telefone. Minutos depois, sirenes começaram a romper a madrugada. Na Fazenda Santa Aurora, Rosa não conseguia dormir. Havia algo inquietando seu coração desde que Raul saíra para buscar Amélia. Talvez fosse a tempestade. Talvez fosse o costume de uma vida inteira observando pessoas e aprendendo a reconhecer quando algo não estava bem. Ou talvez fosse apenas intuição. Sentada sozinha na cozinha, observava a chama enfraquecida do fogão à lenha enquanto segurava uma xícara de café já frio. O relógio antigo marcava quase duas horas da manhã. O silêncio era pesado. Estranho. Então o telefone tocou. O som atravessou a casa inteira. Rosa sentiu o coração afundar antes mesmo de atender. Quando levou o aparelho ao ouvido, ouviu uma voz apressada do outro lado. E tudo mudou. A xícara escorregou de sua mão. O café espalhou-se pelo chão. As lágrimas surgiram instantaneamente. — Meu Deus… Sussurrou. Quando Bento entrou na cozinha, encontrou a esposa completamente pálida. — Rosa? Que foi, mulher? Ela tentou responder. A voz falhou. Tentou novamente. — O carro do seu Raul caiu no açude. Bento ficou imóvel. — O quê? — Teve acidente. As lágrimas escorriam sem controle. — Disseram que foi feio. Muito feio. O rosto de Bento envelheceu vários anos em poucos segundos. Ele passou a mão pela barba grisalha. Respirou fundo. Depois falou com a voz rouca. — E eles? Rosa balançou a cabeça. — Não sabem ainda. O silêncio que se instalou foi devastador. Por fim, Bento pegou o chapéu. — Eu vou pro hospital. — Bento... — Rosa, se Deus quiser vai dar tudo certo. Mas nem ele acreditou totalmente nas próprias palavras. Enquanto isso, Clara dormia. Completamente alheia à tragédia. Abraçada ao coelho de pelúcia que carregava desde os três anos. O quarto infantil permanecia aquecido e tranquilo. Pequenas luzes em formato de estrelas brilhavam no teto. Os desenhos espalhados pela parede contavam histórias de uma infância que ainda acreditava que os pais eram invencíveis. Ela não sabia. Não sabia que sua mãe estava morta. Não sabia que seu pai lutava pela vida. Não sabia que a madrugada havia dividido sua existência em antes e depois. Dormia serenamente enquanto o mundo ao seu redor desmoronava. No açude, a operação de resgate transformou-se em uma corrida desesperada contra o tempo. Os bombeiros mergulhavam repetidamente sob a água escura enquanto refletores iluminavam a superfície agitada. A chuva dificultava tudo. A visibilidade era mínima. O frio castigava os socorristas. Quando finalmente conseguiram acessar o interior do veículo, encontraram primeiro Amélia. E o silêncio que tomou conta da equipe disse tudo. Nenhum deles precisou falar. Nenhum deles precisou confirmar. A expressão nos rostos bastava. Ela já havia partido. Raul, porém, ainda respirava. Fraco. Irregular. Mas vivo. Quando o retiraram da água, seu corpo estava coberto por sangue, cortes e hematomas. Os paramédicos começaram a trabalhar imediatamente. — Saturação caindo! — Pressão despencando! — Prepara a intubação! — Vamos perder ele! As ordens ecoavam sob a chuva. A ambulância tornou-se um campo de batalha. E Raul permanecia inconsciente. Preso em algum lugar entre a vida e a morte. Horas depois, no hospital regional, Celina Alvarenga caminhava de um lado para o outro diante do centro cirúrgico. A elegância que sempre a acompanhará desaparecerá completamente. O cabelo estava desalinhado. A maquiagem havia sido destruída pelas lágrimas. O medo transformará aquela mulher forte em apenas uma mãe desesperada. Quando o médico finalmente saiu da cirurgia, ela correu até ele. — Meu filho? O médico retirou os óculos. Parecia exausto. — Conseguimos estabilizá-lo. Celina quase desabou de alívio. Mas a expressão do médico permaneceu séria. E isso fez o coração dela apertar novamente. — O que foi? O médico respirou fundo. — Senhora Alvarenga... —O trauma na coluna foi extremamente severo. Ela sentiu as pernas enfraquecerem. — Eu não estou entendendo. — Ainda precisamos realizar novos exames. — Doutor... A voz dela tremia. — Fala logo. O médico hesitou. Como se estivesse procurando uma forma menos cruel de dizer aquilo. Mas não existia. — Existe uma possibilidade muito alta de que seu filho nunca mais volte a andar. O mundo pareceu parar. O corredor ficou silencioso. Os sons desapareceram. As pessoas desapareceram. Tudo desapareceu. Exceto aquela frase. Nunca mais volte a andar. Enquanto isso, inconsciente em um leito cercado por aparelhos, Raul continuava mergulhado na escuridão. Sem saber que Amélia estava morta. Sem saber que Clara havia ficado sem mãe. Sem saber que sua própria vida acabara de mudar para sempre. E sem imaginar que, em algum lugar distante, o destino já preparava movia seus fios.






