Mundo de ficçãoIniciar sessãoToda vez que Mariana parava para observar o amanhecer ao término de um plantão sempre era atormentada por lembranças que não conseguia tirar do fundo de sua memória e nem do coração.
LEMBRANÇAS DO PASSADO: “O primeiro amor de Mariana Valença tinha cheiro de terra molhada. Não começou com promessas. Não começou com beijos. Nem mesmo começou com palavras bonitas. Começou com um menino de joelhos na lama tentando salvar um filhote de bezerro preso em uma cerca quebrada. Mariana tinha apenas treze anos quando viu Raul Fontes de Alvarenga daquela forma pela primeira vez. Não como o herdeiro da Fazenda Santa Aurora. Não como o filho do patrão. Não como o garoto que todos admiravam. Naquele instante ele era apenas Raul. Um menino com os cabelos bagunçados pelo vento, as botas cobertas de barro e os olhos determinados enquanto tentava libertar o animal assustado. Ela se lembrava perfeitamente da luz dourada do fim da tarde iluminando os campos, do cheiro forte de capim recém-cortado e da maneira como o coração dela bateu quando ele sorriu ao conseguir soltar o bezerro. — Você ficou parada aí o tempo todo olhando? Ele perguntou, limpando as mãos na calça. Mariana cruzou os braços, fingindo indiferença. — Eu tava vendo se ocê precisava de ajuda. — E precisava? — Precisava. — Então por que não ajudou? Ela tentou esconder o sorriso. — Porque eu queria ver se o filho do patrão era tão valente quanto dizia. Raul riu. Uma risada aberta. Bonita. Daquelas que fazem a gente querer ouvir de novo. E foi naquele instante que algo começou. Nos anos seguintes, eles cresceram juntos entre os campos da fazenda, os currais, os cavalos e as longas tardes de verão. Enquanto Bento trabalhava supervisionando os peões e Rosa comandava a cozinha da casa grande, Mariana encontrava qualquer desculpa para passar perto de Raul. E Raul, por sua vez, parecia sempre encontrar um motivo para procurá-la. O que começou como amizade tornou-se cumplicidade. O que começou como cumplicidade transformou-se em algo muito maior. Aos dezesseis anos, Mariana já sabia exatamente como o sorriso dele surgia quando estava nervoso. Sabia que ele apertava o maxilar quando estava irritado. Sabia que seus olhos escureciam quando alguma coisa o preocupava. E Raul conhecia cada detalhe dela também. Conhecia o jeito que ela franzia a testa quando estava concentrada. Conhecia o hábito de morder o lábio quando estava ansiosa. Conhecia até mesmo os sonhos que ela tinha medo de contar para qualquer outra pessoa. Numa noite de festa junina na cidade, enquanto as bandeirinhas coloridas balançavam acima da praça e o cheiro de milho assado se misturava ao perfume das flores do campo, Raul segurou a mão dela pela primeira vez. Mariana ainda se lembrava daquela sensação. O calor dos dedos dele. O nervosismo. O silêncio. O mundo inteiro desaparecendo ao redor. — Mariana... Ela levantou os olhos. — Hum? — Eu acho que gosto de você faz tempo. O coração dela disparou tão forte que chegou a doer. — Acho que eu também gosto de você faz tempo. Raul sorriu. — Acho não. — Como assim? — Eu tenho certeza. Foi naquela noite que ele a beijou pela primeira vez. E para Mariana pareceu que o universo inteiro havia parado para assistir. Durante os anos seguintes eles viveram um amor intenso, escondido apenas daquilo que realmente importava: O preconceito das famílias e as expectativas do mundo ao redor deles. Raul era o futuro dono da Santa Aurora. Mariana era a filha do capataz e da cozinheira. Embora ninguém dissesse isso diretamente, ambos sabiam que existiam pessoas que jamais aceitariam aquela relação. Mas o amor tem a arrogância própria da juventude. Eles acreditavam que seriam capazes de enfrentar qualquer coisa. Planejavam o futuro sentados sobre a cerca de madeira perto das baias. Falavam sobre casamento. Falavam sobre filhos. Falavam sobre a vida que construiriam. — Quando eu assumir a fazenda, nada vai mudar entre nós. Raul dizia. — Vai sim. — Não vai. — Vai porque ocê vai ficar importante. — Eu não quero ser importante. — Quer o quê então? Ele segurava o rosto dela entre as mãos. — Quero você. E Mariana acreditava. Com todo o coração. Porque era impossível olhar para ele e duvidar. Mas a vida não perguntou o que eles queriam. A vida decidiu por eles. Tudo começou a mudar quando Damião Fontes de Alvarenga passou a levar Raul para reuniões frequentes com a família Siqueira. Inicialmente ninguém comentou nada. Depois vieram os jantares. As visitas. Os encontros. Até que os boatos começaram a circular pela cidade. Mariana tentou ignorá-los. Tentou acreditar que eram apenas fofocas. Tentou confiar em Raul. Até o dia em que ouviu a verdade. Ela estava ajudando Rosa na cozinha quando duas mulheres entraram conversando. Nenhuma delas percebeu que Mariana estava ali. — O casamento vai ser no fim do ano. — Dizem que vai ser a maior festa que essa região já viu. — Os Siqueira tão oferecendo as terras do lado norte. — E a moça é bonita demais. Mariana sentiu o sangue desaparecer do rosto. — Casamento de quem? Perguntou. As mulheres se entreolharam. Uma delas respondeu sem perceber o estrago que causava. — Uai, do Raul com a Amélia Siqueira. O mundo parou. Simplesmente parou. O prato que Mariana segurava escorregou de suas mãos e se despedaçou no chão. Ela não ouviu mais nada. Não ouviu a preocupação de Rosa. Não ouviu as desculpas das mulheres. Não ouviu o próprio coração quebrando. Correu. Correu até encontrar Raul perto das baias. Ele soube imediatamente. Soube apenas ao olhar para ela. — Mariana... — É verdade? O silêncio dele respondeu antes das palavras. As lágrimas invadiram seus olhos. — É verdade? Raul passou a mão pelos cabelos. A respiração pesada. Os ombros tensos. — Meu pai decidiu isso. — Eu não perguntei o que seu pai decidiu. A voz dela tremeu. — Eu perguntei se é verdade. — É. Aquela única palavra destruiu tudo. — E você aceitou? — Mariana... — Você aceitou? — Eu não tive escolha. Ela soltou uma risada dolorosa. — Todo mundo tem escolha. — Você não entende. — Então me explica! Raul aproximou-se. Desesperado. Ferido. — Meu pai ameaçou expulsar Bento da fazenda. Ameaçou tirar a casa de vocês. Ameaçou acabar com tudo. Mariana ficou imóvel. — E por isso você vai casar com outra mulher? — Eu tô tentando proteger você. — Não. As lágrimas agora escorriam livremente. — Você tá escolhendo outra pessoa. O silêncio entre eles foi devastador. Porque ambos sabiam que existia verdade nas duas coisas. Raul estava tentando protegê-la. E também estava escolhendo obedecer. Quando Mariana finalmente falou de novo, sua voz saiu baixa. Quebrada. — Eu esperei que você lutasse por nós. Raul fechou os olhos. Porque aquela era exatamente a acusação que ele fazia a si mesmo todas as noites. Mas já era tarde. Tarde demais. Nas semanas seguintes, a cidade inteira passou a falar sobre o casamento. Os preparativos. As flores. Os convidados. Os presentes. E Mariana percebeu que não conseguiria sobreviver assistindo àquilo. Na madrugada anterior ao casamento, ela arrumou uma pequena mala. Abraçou Rosa. Abraçou Bento. Mentiu dizendo que precisava tentar a vida na cidade. E foi embora. Enquanto o ônibus se afastava da Fazenda Santa Aurora, Mariana observou os campos desaparecerem pela janela. Ali ficaram seus sonhos. Seu primeiro amor. Seu futuro. E o homem que ela acreditava que seria seu para sempre. Ela não sabia que carregava uma nova vida dentro de si. Não sabia que aquele adeus mudaria destinos por muitos anos. Só sabia de uma coisa. Naquele dia, quando deixou Santa Aurora para trás, uma parte do seu coração ficou ali. E jamais voltou.” FINAL DAS LEMBRANÇAS.






