Maya Nogueira O espelho do toalhete parecia um juiz implacável. Analisei meu reflexo, ajustando a alça do vestido azul-meia-noite, tentando encontrar naquelas íris a mulher que, minutos antes, havia se entregado a um beijo que deveria ser apenas um ato performático, mas que, na realidade, tinha drenado todo o oxigênio dos meus pulmões. O rubor em minhas bochechas não era de vergonha pela farsa, mas da embriaguez causada por Arthur Strauss. E isso era, de longe, o problema mais perigoso que eu já havia enfrentado.Respirei fundo, forçando a calma que aprendi a fingir nas salas de reunião do hospital, e saí. O corredor, iluminado por arandelas douradas, parecia estender-se infinitamente, e a música do baile chegava ali como uma pulsação distante. Não esperava encontrar ninguém, mas, ao dobrar o canto próximo à saída de serviço, parei bruscamente.Ali estava ele. O homem que dava nome ao império e à arrogância que Arthur carregava como uma segunda pele. O pai de Arthur.Ele não era ap
Ler mais