Salão Nobre do Tribunal de Justiça, com seu teto abobadado de afrescos neoclássicos e o aroma pesado de papel envelhecido e cera de assoalho, servia como o palco final de uma farsa que durara décadas. O silêncio era tão denso que o som do martelo do juiz parecia um disparo de canhão. No centro do recinto, Caio e Beatriz sentavam-se lado a lado, com os rostos ainda marcados pela poeira do atentado no canteiro de obras, enquanto o ar-condicionado sibilava, alheio ao calor humano que emanava das galerias lotadas.A audiência, que começara como um rito jurídico sobre crimes financeiros e o incêndio da Vila Esperança, transmudou-se em um acerto de contas histórico no exato momento em que as portas de carvalho se escancararam e Otávio Vilela entrou, não como o réu que todos esperavam, mas como um espectro de autoridade ferida, caminhando com uma bengala de prata que batia ritmicamente no mármore.— Parem o depoimento — a voz de Otávio, embora rouca, cortou o interrogatório da promotor
Leer más