O relógio na parede da delegacia de plantão parecia zombar da urgência de Caio. O tique-taque era metálico, seco, ecoando em uma sala cujas paredes descascadas exalavam um cheiro de cigarro barato e desinfetante vencido. Sentado em um banco de madeira duro, Caio Vilela encarava as próprias mãos. Elas ainda estavam manchadas de fuligem e terra, com pequenos cortes que latejavam sob a luz fria da lâmpada fluorescente. Ele não usava mais o terno Armani; o paletó se perdera nas chamas e a camisa branca, agora um trapo acinzentado, estava aberta no peito, revelando a pele vermelha pelo calor do incêndio.— Você tem direito a uma ligação, Vilela. Mas, se eu fosse você, guardaria para um advogado de peso. O Sindicato já mandou o depoimento das testemunhas e a coisa está feia para o seu lado.A voz do delegado era desprovida de emoção, o tom de quem já vira magnatas caírem e pobres serem esmagados tantas vezes que a diferença entre eles se tornara apenas uma questão de papelada. Caio nã
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