O inverno em Auvergne tinha o poder de congelar não apenas a terra, mas as certezas que eu carregava. Dentro daquela casa, o ar estava carregado com uma eletricidade que nenhum isolamento térmico seria capaz de conter, mas, para mim, essa tensão era um campo minado feito de espinhos e navalhas. Passamos o dia confinados pela tempestade de neve. O silêncio da casa, antes preenchido pelo som da limpeza das armas, agora parecia amplificar cada batida errática do meu coração. Nicolas estava sentado no chão, encostado no sofá, observando o fogo. Eu estava ao lado dele, e a proximidade física criava um curto-circuito na minha mente. Eu olhava para o perfil dele e sentia uma confusão que me sufocava. Como era possível que o homem que agora cuidava das minhas feridas fosse o mesmo que, meses atrás, usou o corpo e o poder para me quebrar? O toque dele, que outrora era sinônimo
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