A morte nunca encerra tudo. Às vezes, ela apenas desloca o eixo das coisas, rearranja vontades, desperta silêncios antigos e cria desejos que antes pareciam impossíveis.Para Elisa Moretti, junto com a perda da filha, algo inesperado começou a nascer. Não foi alívio, tampouco perdão, foi ausência transformada em urgência. Laura estava morta — essa verdade ainda ecoava como um som metálico dentro do peito de Elisa —, mas havia alguém que continuava viva. Uma menina, uma neta, Sofia.A última lembrança que Elisa tinha dela era confusa, quase borrada pelo tempo: um bebê de olhos grandes, sentada numa cadeirinha decorada com balões cor-de-rosa, esmagando o bolo do primeiro aniversário com as mãos pequenas e sujas de glacê.Laura ria alto naquele dia, um riso performático, exagerado, como tudo nela. Arthur observava com certa reserva.Elisa lembrava disso com nitidez agora.Depois daquele dia, nunca mais vira Sofia.Discussões, afastamentos, escolhas erradas, portas fechadas. A vida foi se
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