O silêncio daquela casa tinha mudado de textura.Antes, era um silêncio pesado; agora, era um silêncio rachado, como vidro prestes a estilhaçar. Havia algo no ar — não dito, mas perceptível — que fazia cada passo ecoar mais alto do que deveria.Ela voltou do trabalho com a sensação de estar entrando em um território conhecido e, ao mesmo tempo, estranho. A bolsa pesava mais do que o normal, não pelo que carregava, mas pelo que vinha acumulando dentro de si.Marcos estava na sala.Sentado no sofá, pernas abertas, cotovelos apoiados nos joelhos, olhar fixo no chão. A televisão estava ligada sem som, projetando imagens mudas que não pareciam interessar a ele.— Você chegou — disse, sem levantar os olhos.— Cheguei — respondeu, fechando a porta atrás de si.Ela deixou as chaves sobre a mesa, mas não tirou o casaco. Algo lhe dizia que talvez não ficasse tempo suficiente para isso.Havia uma xícara de café na mesinha de centro, já fria. Ao lado, o celular d
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