O silêncio é uma arma que eu conheço bem. Usei-o em interrogatórios, em negociações de carga e em esperas táticas no meio do mato. Mas o silêncio que encontrei naquela manhã, quando o sol de Milão cortava as cortinas do quarto como uma guilhotina, era diferente. Não era o silêncio da paz, nem o da estratégia. Era o silêncio de algo que tinha sido quebrado irremediavelmente.Vincenza estava sentada na beira da cama, as costas retas, os cabelos negros caindo em cascata sobre os ombros. Ela não estava gritando. Ela não estava jogando vasos. Ela nem sequer estava me olhando com aquele ódio vibrante que, estranhamente, se tornara o meu oxigênio.— Bom dia, Cenza — eu disse, a voz rouca, o peso do uísque da noite anterior ainda pressionando minhas têmporas.— Bom dia, Antônio — ela respondeu. A voz era plana. Sem cor. Sem vida.Eu me levantei, sentindo um calafrio que não tinha nada a ver com a temperatura do quarto. Aproximei-me, esperando um insulto, uma reclamação sobre o cheiro de cigar
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