Helena escolheu a hora com precisão cirúrgica. Não foi no meio da rotina, quando as respostas são automáticas demais, nem à noite, quando o silêncio se torna cúmplice. Foi no intervalo entre compromissos, quando a casa estava desperta o suficiente para ouvir, mas quieta o bastante para não interferir.Eu estava organizando alguns papéis na sala quando ela se aproximou, a postura impecável, a expressão neutra, como sempre. Ainda assim, havia algo diferente no modo como ela me olhou. Não era curiosidade. Era decisão.— Dona Laena — disse ela, com a educação que nunca falhava —, o senhor Dante pediu para que eu verificasse alguns ajustes na rotina da casa. Gostaria de falar com a senhora também.O coração acelerou, mas mantive a voz firme.— Claro, Helena.Ela indicou a poltrona oposta, sentando-se com calma medida, como quem não tem pressa porque já sabe o que quer dizer.— Tenho trabalhado aqui tempo suficiente para reconhecer quando uma casa muda de ritmo — começou ela. — Não me refir
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