A rendição do italiano
A rendição do italiano
Por: Advanjat
Prólogo

MILENA CHRISTIAN

O vento carrega consigo uma temperatura úmida e morna, e traz o cheiro da terra molhada e o gosto metálico de folhas em decomposição. Os meus cabelos dançam com a brisa, e por um momento, tudo parece suspenso, como se o tempo tivesse esquecido de passar por aqui.

Lá fora, a paisagem se derrama em cores que parecem ter sido escolhidas à mão: laranjas preguiçosos, amarelos vívidos e vermelhos quase escandalosos. O outono, sempre ele. Nenhuma outra estação tem o atrevimento de ser tão bela justamente por estar morrendo.

Sempre disse que era a minha época preferida, e não por hábito poético. É que há uma certa franqueza nas folhas que caem sem resistência, nos galhos que aceitam o desnudamento com dignidade. Nem a primavera, tão ruidosa em sua juventude, nem o inverno, tão dramático, me dizem tanto.

Hoje, no entanto, essa beleza me parece uma bela e irônica afronta.

Fecho a janela de vidro com um estalo suave, como quem confessa sem voz: já basta. Algumas folhas entraram, de todo modo, e repousam sobre o carpete claro como pequenos epitáfios úmidos, na mesa, o álbum aberto e muito antigo, espera por mim com uma paciência cruel. Ao lado, o envelope ainda lacrado, aquele que eu deveria ter rasgado no momento que eu recebi, mas que optei por fingir que era apenas papel.

Suspiro e passo os dedos, delicadamente, sobre a peça dourada que adorna o meu dedo anelar, e embora eu me arrependa amargamente por continuar com ele, eu não posso evitar o sentimento de solidão que manifesta no meu coração sempre que eu o retiro.

Encosto os dedos na aliança, ainda presa ao meu anelar como uma cicatriz polida. Eu deveria tê-la tirado há meses, talvez anos, mas sempre que o faço, o frio na mão se espalha para o peito, e então eu cedo, outra e outra vez.

Dois anos em que repeti para mim mesma que estava melhor, que estava pronta, que seguir em frente era só uma questão de tempo e obstinação, como um mantra gasto que perdeu o sentido de tanto ser recitado.

Mas hoje, algo mudou, ah, com certeza mudou, eu não tinha nem dúvidas disso, ou talvez eu apenas tenha coragem de admitir que, apesar de tudo, ainda espero. Espero um gesto, uma explicação, um retorno à normalidade — ainda que falsa, ainda que só por um dia.

Fecho os olhos e o álbum também com força, tal igual quem fecha uma ferida antes que sangre outra vez.

Três toques suaves e a porta se abre antes que eu possa reagir.

Sra. Bunion entra com a mesma precisão de sempre. O coque impecável, o tailleur cinzento, a postura que não se permite vacilar nem quando o mundo ao redor desaba. Há ternura na sua face mas camuflada sob camadas de controle, o que presumi que ele sabia, mas com certeza não sabia.

Ela não diz nada, e eu também não.

Mas penso, com a mesma ironia silenciosa de sempre: — Não é um bom momento para você estar aqui, Elisabeth. Mas, afinal, quando foi?

O coque de Elizabeth parecia mais apertado do que o necessário, como se segurasse não apenas os cabelos, mas também o que lhe restava de paciência, vestia também o habitual: terno com saia cinza opaco que combina com o tom do seu cabelo, sóbrio demais para ser elegante, formal demais para ser ignorado.

Hoje rosto trazia aquela expressão neutra — não exatamente amável, mas também sem as bordas cortantes da autoridade severa. Ainda assim, a rigidez nos ombros traía a sua natureza: seja lá o que fosse que havia tirada a sua paciência, eu definitivamente não estava em um bom momento para ouvir desabafos.

E naquele momento, sua presença me soava inadequada, intrusiva, quase ofensiva.

— Milena, imaginei que estivesse de folga hoje — disse, sem esperar resposta, fechando a porta com a firmeza de quem sabe que não será convidada a entrar. Caminhou até a janela e ficou ali, imóvel, contemplando o cenário que a minha sala oferecia como um quadro estático. — Por que não veio ao meu gabinete quando pedi? Julguei que estivesse passando mal. Como foi a ida ao hospital?

— Perdão, Sra. Bunion, estou um pouco ocupada — respondi, com um aceno vago em direção aos projetos espalhados no estirador do outro lado da sala.

Ela, porém, não olhou para eles. O olhar foi atraído pelo buquê de tulipas, abandonado no lixo como algo vergonhoso. Aproximou-se e tocou as pétalas ainda frescas, rubras demais para passarem despercebidas, em seguida, os olhos dela encontraram o envelope aberto sobre a mesa. Num reflexo quase desesperado, empurrei-o de volta para dentro da sua casca. 

Tarde demais.

Minha mãe adorava tulipas, era quase uma devoção quase infantil. Meu pai sabia disso. Nos seus aniversários, mesmo nos últimos, mesmo quando o câncer já tinha nome e forma, ele inundava o quarto com elas: brancas, amarelas, cor-de-rosa, como se as flores pudessem disfarçar a morte que já estava ali, sentada ao pé da cama.

Hoje ele trouxe as vermelhas. Amor eterno, dizem.

Hipócrita.

— Percebo — disse ela, erguendo-se com a mesma dignidade impassível de sempre, fitou-me por um breve instante e virou-se já saindo. — Enrique a aguarda na entra principal, presumo que não queira deixá-lo esperando, então.

E então se foi.

Esperei o som dos saltos dela sumir pelo corredor antes de me mover. Fitei o envelope, como se ele fosse capaz de encarar de volta, as tulipas continuavam no lixo, o álbum, fechado, ambos no lugar certo.

Quanto a Enrique, esperava por mim. E eu... ainda não sabia o que esperar dele, esperei então alguns segundos antes de levantar da cadeira e fiz questão de encarar profundamente o envelope.

Talvez eu esteja a ser pessimista em excesso, talvez as coisas não sejam tão más quanto aparentam — ou, no mínimo, não fiquem assim para sempre. A esperança, quando silenciosa, é um vício disfarçado de lucidez, certo?

Vesti o sobretudo escuro que repousava ao lado da porta para me proteger dos ventos úmidos e peguei o envelope, o celular, a bolsa e deixei o escritório sem olhar para trás.

Assim que saí, o visor do celular acendeu com uma série de notificações: chamadas perdidas da Ruby, mensagens escritas com urgência, quase desespero. Sophia também me escreveu, até o meu pai, todas eram curtas, mas nada que eu deduzisse que merecesse que eu deixasse esse assunto para atender-los, não, sem dúvidas eu precisava dar atenção a algo mais íntimo: lidar com o meu próprio naufrágio.

Enrique Bunion

Ex-marido. Palavra feia. Fria. Técnica demais para alguém que foi tanta coisa.

As minhas amigas vão surtar, julgar-me, inevitavelmente, e o meu pai... Santo Deus, ele vai me julgar em silêncio como sempre fez quando não concorda com uma decisão minha.

Eu nunca escolhi amar Enrique, pelo menos não conscientemente. Ele foi, aos poucos, tornando-se o único lugar onde eu descansava e, paradoxalmente, a fonte de todas as minhas noites mal dormidas.

O abrigo e a tempestade em uma só caixinha.

Respirei fundo antes de cruzar o corredor que conduzia à saída da empresa, chovera durante toda a manhã, e agora restavam apenas pingos tímidos, indecisos quanto à permanência, o ar estava saturado e morno demais para ser confortável.

Assim que empurrei as portas de vidro, a brisa fez alguns fios de cabelo escaparem do meu rabo-de-cavalo e cobrirem o meu rosto. Levei-os para trás da orelha com a lentidão tentando ganhar tempo ou coragem, no estacionamento quase vazio, apenas um carro branco se destacava.

— Você não pode ser covarde agora — murmurei para mim mesma, e a minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

Alguns segundos passaram e então o motorista dele saiu primeiro, formal até o último botão, caminhando até a porta traseira que abriu com reverência.

E então, ele surgiu.

Alto. Sempre alto demais. Um desses homens que impõem presença antes mesmo de falar.

O terno preto escondia o corpo que eu conhecia em cada detalhe, mas nem por isso o tornava menos imponente. Os sapatos envernizados refletiam a luz difusa do fim de tarde, o relógio no pulso denunciava o executivo bem-sucedido que ele se esforçava para parecer, e era. Enrique era, e sempre foi, desgraçadamente belo. Os cabelos negros, com discretos fios prateados que o tempo presenteou, destacavam-se contra a pele clara, que o sol parecia ter beijado apenas de leve, e os olhos... Ah, os olhos castanhos.

Se havia um pecado ao qual eu me rendia com prazer, era aquele olhar. Eles prendiam, sugavam, desarmavam, e eu, que sempre fui racional até certo ponto, mas nunca consegui não afundar neles.

Ele sorriu, um sorriso lento, quase ensaiado, e ainda assim absurdamente eficaz. Do tipo que deveria ser proibido em reencontros. Respirei fundo. Só então percebi que estava prendendo o ar desde que o vi sair do carro.

Seus passos eram suaves, quase gentis, e então ele parou diante de mim, e por um instante o mundo pareceu inclinar-se em torno do seu perfume.

Fiquei ali. Parada. Estática.

— Olá, meu amor — disse ele.

E o modo como pronunciou fez com que todos os meus muros internos tremessem, como se nunca tivesse deixado de me chamar assim, como se ainda fosse o seu direito.

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