Último Desejo: a dançarina e o bilionário terminal
Último Desejo: a dançarina e o bilionário terminal
Por: Maria Anita
Capítulo 1: Terminal

"Dante"

De pé, diante do imenso painel de vidro blindado no último andar da Torre Montenegro, observei o movimento frenético de Vale das Vertentes lá embaixo. Do topo do meu império, eu mantinha a postura ereta que meu pai sempre exigira, com os dedos passando sutilmente pelas abotoaduras de ouro que herdei dele, mas, pela primeira vez na vida, aquela armadura de controle parecia prestes a rachar. O silêncio que dominava a minha sala parecia o prenúncio de uma tempestade que eu vinha tentando ignorar há semanas.

Eu sabia que o perigo não estava no mercado financeiro, onde os tubarões sentem o cheiro de sangue e os cachorros farejam o medo. O verdadeiro perigo estava logo atrás de mim, respirando de forma pesada. Sem desviar os olhos do meu próprio reflexo distorcido no vidro, esperei pelo veredito do homem que segurava a minha sentença em um envelope branco. As tonturas diárias, as náuseas e a exaustão inexplicável que vinham me consumindo finalmente teriam um nome. Eu estava prestes a descobrir qual era a gravidade da doença que ameaçava me derrubar do topo do mundo.

O Dr. Hércules Medina estava atrás de mim. Ele não parecia o médico chefe do hospital mais caro do país. Ele parecia um homem caminhando em direção à forca. Estava pálido, a gravata ligeiramente torta e as mãos pareciam tremer ao redor de um envelope branco com o timbre do hospital.

- Dante... - Ele começou, se esquecendo do meu sobrenome pela primeira vez. - Eu tenho os resultados definitivos dos seus exames de imagem. - Ele limpou a garganta. - E a resposta para os seus sintomas.

Eu caminhei calmamente até a minha mesa de madeira maciça e me sentei sem demonstrar nenhuma emoção. Mas por dentro eu estava enlouquecendo. Eu não conseguia entender como eu, que sempre fui praticante de atividade física, me sentia exausto por subir um lance de escadas. Eu me sentia doente e estar doente nunca é bom.

- Sente-se, Hércules. E vá direto ao ponto. Você sabe que detesto rodeios.

Ele engoliu em seco, sentando-se na ponta da cadeira de couro à minha frente e retirou os papéis do envelope com uma lentidão torturante.

- Eu lamento, mas o laudo confirmou o pior cenário. Você tem um glioma agressivo. Um tumor cerebral de evolução rápida.

Eu não pisquei. Eu não tremi. Meu cérebro, acostumado a lidar com crises empresariais, apenas começou a calcular o impacto daquela informação nas ações da holding.

- Qual é o prognóstico? - A minha voz soou polida e gelada.

- Inoperável devido à localização e ramificação. Ele está pressionando uma área crítica que envolve um risco cardiovascular extremo. Qualquer alteração drástica na sua pressão pode ser fatal. Ele vai te enfraquecer, você perderá aos poucos todas as funções cerebrais. - O médico limpou o suor da testa. - Dante, a partir de hoje, sua vida mudou. Você nao pode sofrer estresse, fazer esforços físicos ou atividades de alta intensidade.

- Defina atividades de alta intensidade, Hércules.

- Nada de academia, no máximo um pilates leve. Nada de discussões acaloradas na diretoria. E... o sexo está terminantemente proibido. Um ápice de adrenalina ou um orgasmo pode fazer o tumor romper. Seria uma síncope imediata.

Uma risada amarga quase escapou da minha garganta. Um tumor que me mataria se eu fizesse sexo com uma mulher. Uma sentença de castidade e morte. Era uma piada cruel.

- Entendido. - Eu respondi, mantendo a máscara de gelo. - Mais alguma recomendação? Ou tratamento possível?

O Hércules parecia ansioso demais, os olhos dele vagavam pela minha sala como se ele quisesse fugir dali o mais rápido possível. Ele se levantou abruptamente, recolhendo os papéis. Eu estava morrendo e ele que estava nervoso. Em tese, ele dava notícias como esta todos os dias, não deveria ficar tão desconfortável.

- Vou deixar as receitas dos supressores de dor com o seu secretário. É tudo o que podemos fazer, te deixar confortável. Eu realmente sinto muito, Dante.

- Quanto tempo, Hércules?

- Difícil prever, mas eu nunca vi um caso no estágio em que o seu está e o paciente sobreviver a mais de um ano. Eu diria que estatísticamente estamos falando de algo entre oito e onze meses. Mas vai depender da evolução.

- Certo. Eu te mantenho informado da evolução. - Eu avisei e ele se despediu com um aceno nervoso de cabeça.

Ao se virar de forma desajeitada, a aba do seu paletó esbarrou em uma pesada escultura de bronze que decorava a lateral da minha mesa. A peça caiu, rolando para baixo do móvel.

- Céus, me desculpe! Eu pego... - O Hércules se abaixou rapidamente.

Por puro reflexo de educação eu também me inclinei para o lado da mesa para ajudá-lo. Foi quando ele tentou se levantar e bateu a cabeça na parte inferior do tampo de madeira da mesa, que meus olhos focaram no pequeno retângulo preto ali. Preso com fita de alta aderência. No centro dele, uma luz milimétrica piscava em vermelho a cada três segundos.

Uma escuta profissional de transmissão em tempo real.

Meu coração deu um solavanco, e o aviso do médico ecoou na minha mente. A raiva subiu pelo meu peito, mas foi controlada pelo meu instinto de sobrevivência. Olhei para a escuta e juntei as peças em menos de dois segundos. Família de abutres!

Minha madrasta e meu primo estavam me monitorando, era assim que eles se adiantavam a tudo o que eu fazia, e agora sabiam da minha condição. Eles não esperariam a minha incapacidade para irem ao conselho administrativo com um pedido de interdição judicial. Queriam o meu império antes mesmo do meu corpo esfriar e eu sabia disso.

- Cuidado, Hércules, ou eu ainda vou ao seu enterro. - Eu ofereci um sorriso frio e ele estremeceu, mas sorriu por cortesia, se levantou, me entregou a escultura com as mãos trêmulas, e um sorriso amarelo.

Assim que a porta se fechou e o silêncio reinou no escritório, eu me inclinei para baixo da mesa e arranquei o dispositivo com força, o coloquei no chão e pisei até reduzir o plástico e os circuitos a pó.

Eles achavam que eu ia deitar e esperar a morte? Eles não conheciam o homem que governava aquela porra de mercado há anos. Se eles queriam um escândalo, eu daria um a eles. Se eles queriam usar a minha suposta fraqueza para me roubar, eu blindaria cada centavo jogando a dignidade daquela família puritana no lixo.

Peguei o meu celular pessoal, uma linha criptografada e segura, e disquei para o Murilo, meu advogado chefe e único amigo de verdade. Ele atendeu no segundo toque.

- Murilo, cancele a coletiva de imprensa de amanhã.

- O que aconteceu? O que o Hércules disse?

- Ele disse que eu estou condenado. E a minha querida família instalou uma escuta na minha mesa, certamente estão comemorando a notícia agora. Eu tenho certeza que eles vão tentar me interditar na próxima semana. - Eu avisei, meus olhos passando displicentemente no relatório de despejo de um estúdio de dança em um antigo prédio no centro do vale. - Prepare um contrato de casamento de conveniência e um termo de fertilização in vitro. Eu preciso de uma esposa que seja o completo oposto do que eles aceitam. Eu vou garantir o meu herdeiro e vou explodir a cabeça da minha madrasta no processo.

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