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CAPÍTULO 3 — O Cheiro do Pecado e a Queda da Máscara

Na manhã seguinte, o despertador nem precisou tocar para Isabela. Ela não havia pregado os olhos durante a noite inteira. Marcos pulou da cama antes mesmo do sol nascer, alegando de forma apressada que precisava comparecer a uma reunião de emergência de última hora na empresa. Pouco depois, com o corpo operando no piloto automático, ela preparou o café, arrumou os filhos e os despachou: o mais velho para a escola e a caçula para a creche de período integral.

A casa, enfim, mergulhou no mais absoluto e pesado silêncio. Mas, dessa vez, algo havia mudado no semblante de Isabela. O choro doloroso da rejeição não veio. Sentada na ponta do sofá, a humilhação excruciante da noite anterior começou a se destilar dentro de suas veias, transformando-se em uma raiva fria, calculista e pulsante. Com uma determinação inédita, ela pegou o celular e digitou uma mensagem curta para o número de Dani.

“Vou baixar aquele aplicativo que você me falou... só por curiosidade.”

A resposta da amiga piscou na tela em questão de segundos, quase como se ela estivesse esperando por aquilo: “Baixa sim! Você não vai se arrepender, amiga. É o seu despertar. Depois me conta absolutamente tudo!”

Com os dedos firmes e o coração batendo na garganta, Isabela iniciou o d******d da plataforma secreta. Ao abrir a interface do aplicativo pela primeira vez, um universo paralelo e underground se revelou diante de seus olhos castanhos. Não existiam ali as amarras hipócritas da moralidade tradicional ou os julgamentos da sociedade careta. Naquela tela, feeds repletos de corpos esculturais, casais explorando fetiches obscuros, mulheres maduras exibindo o ápice de seu poder de sedução e homens ricos implorando por um segundo de atenção se misturavam em uma linha do tempo hipnotizante e altamente erótica. Tudo era explícito, livre, intensamente sensual e totalmente confidencial.

Isabela sentiu uma onda de calor real percorrer seu baixo ventre, uma sensação que ela não experimentava há anos. Ela mordeu o lábio inferior com força, fascinada e assustada com o controle absoluto que aquelas mulheres exerciam sobre as mentes masculinas apenas com um olhar felino, um sussurro estratégico ou um vislumbre calculado de pele nua.

Porém, o peso de uma vida inteira de repressão falou mais alto por um instante. A culpa cristã e a moral arraigada de uma esposa tradicional gritaram em sua mente. “O que eu estou fazendo com a minha vida? Eu enlouqueci?”, pensou consigo mesma, tomada por um surto repentino de pânico. Ela fechou o aplicativo abruptamente, jogando o aparelho celular longe sobre as almofadas. Não, ela não podia se transformar naquela mulher. Ela tinha uma família, tinha um nome a zelar.

Para ocupar a mente e espantar os demônios da tentação, Isabela correu para a cozinha. Pegou uma tábua de madeira, uma faca afiada e começou a cortar vegetais para o almoço, tentando focar toda a sua atenção no barulho repetitivo do metal contra a madeira. Foi no meio desse processo que o estalo seco da fechadura da sala ecoou pela casa. A porta da frente se abriu e Marcos passou por ela, de volta muito antes do horário previsto.

Mas havia algo terrivelmente errado com a figura dele.

— Oi, amor... voltou cedo da reunião? — Isabela perguntou com a voz mecânica, controlando o tom enquanto se aproximava dele para dar o habitual abraço de boas-vindas.

Ao colar seu corpo ao dele, o olfato apurado de Isabela, treinado por anos de maternidade e cuidados domésticos, captou os sinais da mentira imediatamente. O cabelo de Marcos estava levemente úmido nas pontas e desalinhado, como se tivesse acabado de sair de um banho rápido e mal tomado. E o pior de tudo: um perfume nitidamente feminino, adocicado, floral e excessivamente barato, misturado ao suor característico do corpo dele, agrediu as narinas de Isabela com a força de um tapa. Não era o cheiro do sabonete de hotel que ele costumava usar, e muito menos o desodorante amadeirado dele. Era o cheiro inequívoco do pecado nos braços de outra mulher.

Marcos parecia visivelmente elétrico, com os olhos esquivos que se recusavam a focar no rosto da esposa.

— É... o cliente principal teve um imprevisto e desmarcou o almoço de negócios — ele justificou com a voz trêmula, ajeitando a gola da camisa. — Vou subir para tomar um banho rápido antes que eu me atrase para os compromissos da tarde.

Ele subiu os degraus correndo, quase fugindo da presença dela como um criminoso foge da cena do crime. Isabela permaneceu completamente estática no centro da cozinha, a faca de corte ainda empunhada firmemente em sua mão direita, enquanto seu estômago revirava em uma náusea violenta e dolorosa.

O barulho do chuveiro começou a ecoar do andar superior, quebrando o silêncio da casa. Isabela caminhou a passos lentos e pesados até a bancada de mármore da cozinha e avistou o que Marcos, na pressa desesperada de se limpar e apagar os vestígios de sua traição, havia cometido o erro crasso de esquecer: seu telefone celular corporativo.

Isabela nunca, em todos os anos de relacionamento, havia sido o tipo de esposa controladora, ciumenta ou neurótica. Nunca tinha revirado os bolsos de suas calças ou espionado suas mensagens privadas. Mas o cheiro daquele perfume floral e vulgar ainda ardia em suas narinas de forma insuportável. O respeito mútuo e a santidade daquele casamento haviam sido brutalmente assassinados na noite anterior na cama do casal.

Com as mãos frias e trêmulas, ela estendeu o braço e pegou o aparelho metálico. Digitou a senha de desbloqueio que já conhecia de cor — a data de nascimento do próprio filho mais velho, uma ironia que pareceu rasgar seu peito ao meio. A tela inicial se abriu instantaneamente, direto no aplicativo de mensagens privadas. Havia uma notificação de balão pendente, enviada há poucos minutos por um contato camuflado sob o nome de “C. Negócios”.

Isabela respirou fundo e clicou na conversa. O texto em letras pretas na tela brilhante queimou suas retinas e estraçalhou sua alma sem qualquer piedade:

“Oi, gato, essa rapidinha que demos no motel antes de você voltar para casa foi simplesmente maravilhosa. Minha calcinha ainda está completamente encharcada com o seu cheiro maravilhoso. Não vejo a hora de viajarmos juntos novamente na semana que vem. Vê se arruma um jeito de se livrar logo de você-sabe-quem para que possamos ter o fim de semana inteiro só para nós dois. Beijinhos da sua Catherine.”

Isabela parou de respirar por completo. O mundo ao seu redor pareceu perder a cor, desacelerando o ritmo até parar em um vácuo absoluto. Ela releu aquela mensagem maldita uma, duas, três vezes, até que cada palavra se fixasse em seu cérebro como ferro em brasa.

“Você-sabe-quem.”

Ela não era mais a esposa dedicada, não era a mãe dos filhos dele, não era a mulher que abriu mão de seus sonhos e de sua carreira promissora para manter aquela casa de pé. Aos olhos do homem que ela amou, ela era apenas um estorvo, um incômodo sem nome, um codinome pejorativo em uma mensagem vulgar de sacanagem de motel.

Seu peito apertou com tanta violência que ela sentiu uma dor física real, achando genuinamente que fosse enfartar sobre o piso da cozinha. Suas mãos tremiam tanto que o celular quase escorregou de seus dedos inertes. Lá no andar de cima, o som reconfortante da água do chuveiro parecia zombar cruelmente de toda a sua tolice e ingenuidade. Ela havia se humilhado na noite anterior, implorado por uma migalha de afeto de um homem que vinha diretamente da cama de um motel barato para a sua mesa de almoço em família.

Lentamente, uma metamorfose sombria e irreversível começou a operar no âmago de Isabela. A dor lancinante e dilacerante da traição começou a dar lugar a algo completamente novo: uma frieza cirúrgica, calculada e cortante como o gelo. O choro não veio a seus olhos. Em vez disso, os cantos de seus lábios carnosos se curvaram lentamente em um sorriso congelado, quase perverso.

Ela bloqueou o celular dele com calma, colocou-o exatamente na mesma posição milimétrica sobre a bancada de mármore e limpou com as costas da mão a única lágrima solitária que ousou escorrer por seu rosto delicado.

Caminhou com passos firmes e decididos até a sala de estar, pegou o próprio aparelho celular e reabriu o aplicativo adulto que havia fechado minutos atrás por culpa. Com uma determinação feroz queimando em suas pupilas e o sangue fervendo por uma mistura intoxicante de vingança, libertação e luxúria, ela começou a preencher os dados de seu novo perfil secreto.

A dona de casa submissa e dedicada estava oficialmente morta e enterrada. Naquela tarde fria, sob um codinome enigmático que os homens daquela plataforma jamais esqueceriam, Isabela daria vida à sua versão mais sombria, sensual, perigosa e indomável. Marcos queria se livrar dela para viver suas aventuras? Ele mal podia esperar pelo preço que pagaria por ter subestimado a mulher com quem dormia

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