O codinome já estava escolhido: Vênus Oculta. Uma identidade que evocava a deusa do amor, da beleza e do desejo, mas mantida sob as sombras do anonimato. Isabela salvou o perfil com o coração batendo na garganta, bloqueou a tela do celular e respirou fundo, engolindo a seco a tempestade que rugia dentro de si. Ela precisava voltar à realidade, pelo menos por enquanto.
Quinze minutos depois, o som familiar da buzina da van escolar quebrou o silêncio da rua. A porta da frente se abriu e Noah, seu filho de sete anos, entrou radiante. Com as bochechas coradas e os olhos brilhando, o menino jogou a mochila pesada em um canto da sala e correu em direção à cozinha, jogando-se nos braços da mãe.
— Oi, mamãe! — ele exclamou, apertando-a com aquele amor puro que só uma criança era capaz de dar.
Isabela fechou os olhos por um segundo, inspirando o cheiro do filho. Aquele abraço era o seu único porto seguro.
— Oi, meu amor. Como foi a aula? — ela perguntou, forçando um tom de voz leve e carinhoso enquanto acariciava os cabelos dele.
Aos poucos, o som de passos firmes ecoou na escada de madeira. Marcos descia, já vestido com um terno alinhado, exalando o cheiro de um sabonete neutro que tentava, sem sucesso, apagar a memória olfativa de Isabela. Todos se juntaram à mesa da sala de jantar. O almoço estava servido, mas para Isabela, a comida parecia cinza. O garfo pesava em sua mão e cada pedaço de alimento que tentava engolir parecia travar em sua garganta. Seu peito estava dilacerado, uma mistura sufocante de tristeza e humilhação, mas ela se recusava a demonstrar. Se Marcos era um mestre na arte das mentiras e dos disfarces, ela provaria que também sabia jogar. Sorriu amarelo, serviu o marido e fingiu que o mundo ao redor não estivesse desmoronando.
No meio do almoço, Noah quebrou o silêncio da mesa, olhando para o pai com expectativa.
— Papai... você pode me assistir hoje? Tenho treino de futsal à tarde. Eu ia ficar muito, muito feliz se você fosse. Eu estou me esforçando bastante, o treinador até me elogiou.
Marcos mal desviou os olhos do próprio prato, respondendo com uma frieza cortante:
— Hoje eu não consigo ir, filho. Tenho muitas coisas importantes para resolver na empresa.
O brilho nos olhos de Noah murchou um pouco, mas a inocência da criança a fez insistir, juntando as mãozinhas:
— Poxa, papai, por favor... Você nunca pode. Nunca vai aos meus jogos e, dessa vez, você já está em casa. Vamos lá, vai ser legal, eu juro!
Marcos largou os talheres com um baque surdo contra a porcelana, interrompendo o filho de um jeito áspero que fez o menino sobressaltar-se na cadeira.
— Eu já te disse que não consigo, Noah! Quem é que trabalha nesta casa para manter tudo isso aqui? Ou você acha que as contas se pagam sozinhas, garoto? Eu já disse que não posso ir e ponto final.
O silêncio que se seguiu foi violento. Marcos empurrou o prato com asco, limpou a boca com o guardanapo de tecido, levantou-se da mesa sem olhar para ninguém e saiu em direção ao escritório, batendo a porta.
Noah abaixou a cabeça, os olhos fixos no prato enquanto usava o garfo para mexer na comida, os lábios pequenos tremendo de decepção. O coração de Isabela sangrou ao ver aquela cena. A negligência do marido não a atingia apenas como mulher; destruía seus filhos.
Tentando curar o dano, ela se inclinou na mesa e segurou a mãozinha do filho.
— Filho... a mamãe te leva. Eu assisto ao seu jogo, assisto ao seu treino todo, não tem problema nenhum. Nós vamos nos divertir, o que acha?
Noah ergueu os olhos, mas o sorriso de antes não voltou. Havia uma maturidade precoce e triste na resposta do menino:
— Não, mãe... Pode só me levar, não precisa ficar assistindo, não. Está tudo bem, eu entendo que o papai tem que trabalhar. Vou lá em cima me arrumar, senão vou acabar me atrasando.
O menino se levantou e subiu os degraus devagar. Isabela soltou um suspiro profundo, sentindo uma náusea de revolta. Ver seu filho passar por uma rejeição daquelas, vinda do próprio pai, era demais para suportar. Noah tinha um pai no papel, mas na realidade era um órfão de afeto. Marcos era uma sombra ausente, um homem que pagava as contas, mas que nunca participava genuinamente da vida dos filhos, tratando a própria família como um fardo decorativo.
Sozinha na mesa, fitando as cadeiras vazias, Isabela começou a se questionar. Por quanto tempo ela vinha aguentando aquela farsa? Há quantos meses, ou talvez anos, ela vinha aceitando migalhas de atenção, justificando a ignorância e o egoísmo de Marcos em nome de uma estabilidade que nunca existiu?
Lembrou-se, então, de quem ela era antes de se trancar naquela gaiola de ouro. Lembrou-se da jovem universitária cobiçada, cheia de planos, que brilhava e sorria com facilidade. Marcos havia apagado seu brilho, transformado-a em uma sombra e agora humilhava o próprio filho. Mas a descoberta daquela traição no celular e o aplicativo aberto em seu próprio telefone mudaram tudo. Uma chama nova, perigosa e ardente, começou a queimar no centro do seu peito. Se o casamento estava falido e o respeito estava morto, ela não seria mais a vítima daquela história. A Vênus Oculta estava prestes a nascer, e nada no mundo seria capaz de pará-la.