Disposta a provar para si mesma que os conselhos de Dani eram desnecessários e que seu casamento ainda tinha salvação, Isabela decidiu agir com unhas e dentes naquela mesma noite. Sabendo que Marcos finalmente voltaria de mais uma de suas longas viagens de negócios, ela se esmerou como há anos não fazia. Deixou as crianças alimentadas e preparadas para dormir cedo, limpou a residência até que cada móvel brilhasse e correu para o banheiro. Tomou um banho demorado e relaxante, esfoliou a pele e hidratou o corpo com um óleo de baunilha marcante e adocicado. Vestiu um vestido justo que acentuava suas curvas e esperou na sala com o coração palpitando.
Quando o barulho da fechadura da porta da frente finalmente ecoou, seu corpo inteiro tencionou de expectativa. Marcos entrou carregando a mala preta de couro. Isabela caminhou até ele com seu melhor sorriso, os olhos brilhando, mas ele mal se deu ao trabalho de focar o olhar nela. Passou direto por seu corpo, caminhou até o corredor, deu uma atenção rápida de dois minutos aos filhos que já cochilavam e, ao retornar para a sala e se aproximar da esposa, limitou-se a dar um beijo estalado, seco e gélido em sua bochecha esquerda, seguido por um abraço puramente protocolar.
— Estou completamente moído, o voo atrasou e o trânsito na vinda foi um caos absoluto — ele reclamou com a voz ríspida, afrouxando o nó da gravata com visível impaciência. — Vou subir para tomar um banho. Faz alguma coisa forte e rápida para eu comer, por favor. Estou faminto.
Ele subiu os degraus da escada sem olhar para trás uma única vez, deixando no ar apenas o rastro de sua indiferença esmagadora. Isabela permaneceu estática no centro da sala de estar, sentindo o perfume de baunilha em sua pele transformá-lo em uma piada de mau gosto. Ela engoliu em seco, piscou repetidamente para segurar a lágrima teimosa que ameaçava borrar sua maquiagem leve e caminhou em direção à cozinha com os ombros caídos.
Mais tarde, o silêncio sepulcral da madrugada tornou-se uma verdadeira tortura psicológica. As crianças já dormiam profundamente em seus respectivos quartos. No quarto principal do casal, a penumbra era quebrada apenas pelo feixe de luz azul e incômodo que emanava da tela do celular de Marcos. Deitado de costas, ele digitava freneticamente, totalmente alheio à presença da mulher ao seu lado.
Isabela respirou fundo, buscando a coragem que já nem sabia se possuía. Para aquela noite, ela havia escolhido secretamente uma lingerie de renda preta importada, cheia de recortes ousados que valorizavam seus seios fartos e desenhavam sua cintura fina. Sentindo o corpo vibrar em uma mistura agonizante de expectativa e pura carência afetiva, ela se arrastou lentamente pelo colchão até colar seu corpo ao dele. Deslizou sua perna macia e depilada por cima da dele, sentindo o tecido áspero do lençol. Com os dedos trêmulos, começou a acariciar o braço forte do marido, subindo pelo ombro rígido, até colar os lábios em seu pescoço, distribuindo beijos quentes, úmidos e necessitados.
Marcos apenas soltou um resmungo ranzinza, mantendo os olhos rigidamente fixos na tela do aparelho.
Insistindo no que seu orgulho implorava para não fazer, ela deslizou a mão espalmada pelo peito dele, descendo lentamente em direção ao abdômen, sussurrando o nome dele com uma voz rouca, carregada de segundas intenções e desejo reprimido. Ela queria ser possuída, queria ser tocada com brutalidade ou carinho, queria simplesmente lembrar que ainda estava viva e que era desejável para o homem com quem dividia a vida.
Foi então que o limite de Marcos estourou. Ele segurou o pulso dela com uma força desnecessária, afastando a mão dela de seu corpo de forma ríspida e violenta. Ele virou o rosto e olhou diretamente para ela com uma frieza assustadora nos olhos, desprovido de qualquer faísca de humanidade ou paixão.
— Isabela, chega! Que inferno, eu já não disse que estou cansado? Que saco, me dá um tempo! Eu trabalhei a semana inteira enquanto você ficou aqui sem fazer nada. Quero dormir, me deixa em paz.
O impacto daquelas palavras cortantes foi quase físico, como um soco direto no estômago. Isabela recolheu a mão machucada imediatamente, sentindo uma queimação violenta de vergonha e humilhação subir por seu pescoço e tingir suas bochechas. Sem dizer uma única palavra, ela se virou de costas para ele, encolhendo as pernas e se abrigando na beirada mais extrema da cama de casal. No escuro do quarto, enquanto ouvia o tique-taque do relógio e os cliques do celular do marido, o vazio dentro dela se transformou em um buraco negro avassalador, sugando o último resquício de dignidade e amor-próprio que ela ainda lutava para manter de pé.