Mundo de ficçãoIniciar sessão
Isabela vivia no limite tênue entre o silêncio e a solidão mais profunda. Mãe de dois filhos .
Um menino enérgico de sete anos e uma bebê de dois que demandava cada segundo de sua atenção —, ela passava os dias inteiros confinada entre as paredes elegantemente decoradas de sua casa impecável. A rotina era um relógio implacável e cruel: recolher brinquedos espalhados, lavar montanhas de roupas que cheiravam a amaciante infantil, preparar refeições milimetricamente calculadas e esperar. Sempre esperar. O marido, Marcos, era um homem de negócios ambicioso e bem-sucedido que passava semanas inteiras viajando pelo país. Quando retornava para os braços da família, trazia consigo apenas o peso estressante do mundo exterior, mas nenhum espaço na agenda ou no coração para ela. Isabela entendia a pressão do mercado, justificava as ausências prolongadas e tentava ser a esposa perfeita, mas não conseguia mais sufocar o vazio sufocante que crescia em seu peito. Havia um abismo intransponível entre a vida confortável que ela construiu e a mulher vibrante que ela costumava ser antes do casamento. Nos raros momentos de quietude absoluta, quando as crianças finalmente dormiam e a casa mergulhava no breu, aquele vazio ecoava pelas paredes como um lembrete de sua própria invisibilidade. Fisicamente, Isabela era o tipo de mulher que parava o trânsito sem fazer o menor esforço. Alta, com um metro e setenta de pura elegância natural, ela possuía curvas sinuosas que o tempo e a maternidade só haviam deixado mais maduras, fartas e convidativas. Seus longos cabelos castanhos escuros, que desciam em ondas brilhantes até a altura da cintura, emolduravam um rosto de traços delicados, olhos expressivos e lábios carnosos que há muito tempo não sabiam o que era ser beijados com o calor de um desejo real. Ela era um monumento desperdiçado na escuridão daquela casa. Certa tarde, com as crianças finalmente distraídas brincando no quintal, Isabela desabou no sofá da sala com o celular colado ao ouvido. Do outro lado da linha estava Dani, sua amiga de infância e a única confidente que lhe restara. — Ai, amiga... às vezes eu me olho no espelho do banheiro e sinto tanto medo. Sinto tanta falta da Isabela de antes — desabou, a voz embargada e trêmula, enquanto os dedos livres traçavam o contorno do próprio colo coberto pela camiseta gasta. — Sinto falta de me arrumar de verdade, de sair à noite, de ser vista. De sentir aquela eletricidade na espinha que só a paquera dá, de saber que eu ainda causo desejo em algum homem. Parece que minha vida virou um looping eterno e eu virei um fantasma que só serve para limpar a casa. Dani suspirou longamente do outro lado da linha, o som pesado de quem também compartilhava dos mesmos fardos da vida conjugal. — Eu sei exatamente como é, Bebel. A gente assina o papel do casamento, tem filhos, e parece que o mundo apaga a nossa existência como mulher. Passamos a ser apenas 'a mãe de fulano' ou 'a esposa de ciclano'. Mas... escuta, você não precisa aceitar esse destino de braços cruzados. Eu fiquei sabendo de uma coisa bem interessante essa semana e lembrei de você. — O que? — Isabela mudou de posição no sofá, subitamente intrigada pelo tom misterioso e quase clandestino da amiga. — Um aplicativo. Mas calma, não é um aplicativo de namoro comum e brega, é algo muito mais privado, voltado para o público adulto. Você cria um perfil totalmente anônimo e ninguém vê o seu rosto se você não quiser. Muitas mulheres usam codinomes reais, criam personagens sedutoras, exploram fantasias picantes que nunca teriam coragem de realizar na vida real. E sabe qual é a melhor parte? Tem homens de alto nível lá dentro, caras ricos, que pagam uma fortuna em dólares através de assinaturas e gorjetas só para assistir, conversar no chat e acompanhar a rotina de uma mulher real e atraente. Isabela sentiu o coração dar um salto violento contra as costelas. Suas bochechas esquentaram instantaneamente só com a menção daquela possibilidade proibida. — Dani, pelo amor de Deus... isso é loucura completa. Eu sou uma mulher casada, o que as pessoas iam pensar se descobrissem? — Não é loucura, é poder, Isabela — disse Dani, do outro lado do telefone, a voz firme, decidida e carregada de incentivo. — Loucura é você murchar um pouco mais a cada dia por causa de um homem que só te enxerga como parte da mobília. É uma forma de você recuperar o controle sobre o seu próprio corpo, sua autoestima e ver que você ainda é uma máquina de pecado. Pensa nisso com carinho. É uma boa ideia para espairecer a mente, ganhar sua própria grana e ninguém nunca vai saber a sua verdadeira identidade. Isabela ficou em silêncio por longos segundos, ouvindo apenas o som da própria respiração que havia se tornado subitamente acelerada. A ideia parecia perigosa, proibida, ultrajante... e deliciosamente tentadora para uma alma que clamava por um pingo de atenção






