Mundo de ficçãoIniciar sessãoRenata
. O vento da noite bateu no meu rosto assim que fechei o portão atrás de mim. Frio. Molhado. Quase cruel. Mas, pela primeira vez em muito tempo… eu respirei. A rua estava silenciosa, apenas os postes antigos iluminando o caminho como se assistissem minha fuga em silêncio. Minhas mãos ainda tremiam; eu não sabia se era pela dor, pela raiva ou pela coragem tardia que finalmente tomou conta de mim. Caminhei até a calçada com o coração latejando no peito. O silêncio doeu mais do que qualquer grito poderia doer. Nenhuma voz me chamando lá de dentro. Nenhum passo apressado. Nenhum “filha, espera”. Nada. Chamei um carro por aplicativo. E cada minuto esperando ali, sozinha, parecia eterno. Meu celular vibrou. “Renata, volta pra casa. Vamos conversar.” Era do meu pai. Apaguei a mensagem sem responder. Logo depois veio outra. “Você está sendo impulsiva.” Impulsiva. Era sempre essa palavra. Sempre esse modo de me diminuir, de me calar. Como se o que eu sentia fosse frescura, como se minha dor fosse negociável. Bloqueei o número. Depois disso, o visor permaneceu escuro. Nenhuma nova tentativa de me impedir. Nenhuma pergunta. Nenhum “você está bem?”. Jurei para mim mesma que não iria chorar de novo. Mas chorei. O carro parou diante de mim. O motorista saiu e abriu o porta-malas, educado. Entreguei a mala e ele me olhou pelo retrovisor com um sorriso gentil. — Boa noite… Renata? — Sou eu — respondi, entrando no banco de trás. Quando sentei, minhas pernas finalmente cederam e eu senti a onda de choro subir novamente. Mordi o lábio com força para não desabar ali mesmo. Durante o trajeto, fiquei olhando a cidade passando pela janela. As luzes borradas pelos meus próprios olhos, meus pensamentos indo e vindo como maré agitada. A traição. O sorriso debochado da Patrícia. O desespero do meu pai. A indiferença da Juraci. Tudo rodopiava dentro de mim. Mas, acima de tudo… uma pergunta latejava: “Quem sou eu, além do que eles queriam que eu fosse?” A dor vinha em ondas, mas havia outra sensação misturada ali… quase imperceptível: liberdade. Tímida. Assustada. Mas presente. Quando o carro finalmente entrou no bairro da minha madrinha, senti o peito apertar e, ao mesmo tempo, algo começar a afrouxar. Ali… ali era o último lugar onde alguém genuinamente gostou de mim sem exigir nada em troca. A casa dela continuava igual: muro baixo, casinha azul, janelas iluminadas e um lugar que parecia respirar acolhimento. Tudo ali parecia me dizer: “Eu esperava por você.” Antes mesmo de o carro parar totalmente, a porta da frente se abriu — como se ela tivesse sentido minha chegada. Minha madrinha apareceu com aquele avental florido, o cabelo preso de qualquer jeito, e os olhos cheios de preocupação. — Renatinha? — ela sussurrou, levando a mão ao peito. — Meu Deus… o que fizeram com você? E no instante em que ouvi a voz dela… a muralha que eu tinha construído o dia inteiro desmoronou. Eu corri até ela. Ela me abraçou forte, firme, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, como se quisesse colar todas as minhas partes quebradas com o próprio corpo. E eu chorei. Chorei como se estivesse vomitando toda a dor que carreguei por anos sem perceber. — Pronto, meu amor… — ela murmurou, afagando minhas costas. — Vem, vem pra dentro. Aqui você pode cair, que eu seguro. Agora você está segura. Ninguém aqui vai te ferir. Segura. Eu nem sabia como aquela palavra soava mais. Entramos. Ela fechou a porta atrás de mim como quem fecha uma ferida aberta, pegou uma manta para cobrir meus ombros e me conduziu até a cozinha. A casa cheirava a pão e a lar. Um cheiro que eu nem lembrava como era. — Senta — ela disse. — Vou fazer um chá. Você conversa quando quiser… ou não conversa. Só fica. A casa é sua. Só respira. E eu sentei. As mãos ainda tremiam, o coração ainda sangrava. As lágrimas caíam tanto que eu nem via direito as mãos dela mexendo na panela. Mas, pela primeira vez em muito tempo… eu senti que não precisava ser forte. Não ali. Não com ela. Eu não me senti sozinha. E, enquanto o chá esquentava, uma certeza amarga martelava na minha cabeça: se o meu próprio pai não tentou me impedir de ir embora… então eu realmente não tinha mais nada a perder. O chá estava fumegando na xícara quando minha madrinha sentou à minha frente. Ela não disse nada. Só segurou minha mão por cima da mesa. Aquele simples toque… partiu o que restava das minhas defesas. Eu inspirei fundo, tentando juntar coragem para abrir a boca. — Madrinha… — minha voz falhou, arranhando. — Hoje… hoje eu vi uma coisa que eu nunca imaginei que fosse viver. Ela permaneceu calma, os olhos atentos, como se cada segundo de silêncio fosse espaço para eu respirar. — Eu fui na casa do Ricardo… — comecei, sentindo a náusea subir. — Eu queria fazer uma surpresa pra ele. Comprei o lanche que ele gosta, entrei… e… Engoli seco. A garganta queimava. — Tinha um salto vermelho na sala. Um salto feminino. E não era meu. A expressão da minha madrinha mudou. Os olhos se estreitaram, mas ela não me interrompeu. — Subi as escadas. Eu ouvi… — minha voz tremeu. — Eu ouvi ele com alguém. As lembranças se enfiaram em mim como lâminas. — Quando abri a porta… — as lágrimas vieram de novo, quentes, humilhantes — ele estava com a Patrícia. Na cama com ele. A minha irmã. Minha irmã, madrinha. Ela levou a mão à boca, chocada. — Não… — ela sussurrou. — Não… não, Renata… isso não… Eu balancei a cabeça, sentindo o corpo inteiro estremecer. — Ela sorriu quando me viu. Sorriu. Como se estivesse esperando que eu descobrisse. Como se fosse um troféu. E ele… ele tentou me chamar. Disse “amor”. Madrinha, ele me chamou de amor com ela na cama. Minha madrinha se endireitou na cadeira, os olhos brilhando de indignação. — Misericórdia… — Eu saí correndo. Não consegui ouvir nada. Quando voltei pra casa, a Juraci estava lá… e o meu pai… — o nome travou na minha boca — eles não ficaram do meu lado. Eles… eles queriam que eu perdoasse. Queriam que eu entendesse. Disseram que… que se eu não casasse com ele, o meu pai perderia dinheiro. Minha madrinha piscou devagar, como quem tenta processar um absurdo. Eu respirei, tentando não desmoronar outra vez. — Madrinha… eles disseram que se eu não quisesse casar… a Patrícia casaria. Que era melhor ela do que eu. Como se eu fosse descartável. Como se eu fosse o erro. A mão dela apertou a minha com tanta força que quase doeu. — Você… saiu de casa por isso? — ela perguntou, a voz baixa, mas carregada de choque e raiva. Eu dei um pequeno aceno. — Sim. Arrumei minhas coisas e saí. E sabe o pior? — senti a dor rasgar de novo. — Ninguém tentou me parar. Nem uma palavra. Nenhum “não vai”. Eu saí… e eles simplesmente… deixaram. Um silêncio pesado encheu a cozinha. E então… minha madrinha inspirou fundo, como alguém que segura um fogo dentro do peito. — Renata… — ela disse devagar, firme, com a voz que só pessoas que nos amam de verdade sabem usar. — Olha pra mim. Eu levantei o rosto, tentando enxergar através das lágrimas. — Você não perdeu nada. — Seu olhar queimava. — Quem perdeu foi ele. Quem perdeu foi seu pai. Quem perdeu foi essa mulher que se diz sua madrasta. Você não é descartável. Você nunca foi. Eles que não souberam te amar. Aquela frase atravessou meu peito como um raio — quente, cortante, verdadeiro. Ela levantou, veio até mim, segurou meu rosto com as duas mãos e disse: — Eu vou cuidar de você. A partir de hoje, você não está sozinha. E, minha filha… — ela respirou fundo — eu prometo: ninguém mais vai te colocar no chão. Nem família, nem homem nenhum. Eu desmoronei de vez nos braços dela.






