Mais gente se juntava ao redor e atirava objetos em Isabela.
Sem conseguir escapar, ela chamou o motorista.
Os dois colocaram os pais de Beatriz no carro e levaram ambos ao hospital.
Mal tinham entrado no pronto-socorro quando Beatriz apareceu correndo e deu um tapa violento no rosto de Isabela.
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, acusou:
— Você disse que não me odiava, mas tentou matar meus pais pelas minhas costas? Como pode ser tão cruel?
Isabela ia explicar, mas viu Pedro se aproximar às pressas e amparar Beatriz, que parecia prestes a desabar.
— Beatriz, não fica nervosa. Faz mal para o bebê.
Ainda segurando Beatriz, Pedro franziu a testa ao olhar para Isabela. A decepção em seus olhos era evidente.
Isabela sentiu um frio percorrer o corpo.
Ele não enxergava o estado em que ela estava depois de ser atingida por tantos objetos?
Nem Pedro acreditava nela?
— Isabela, você me deixa tão...
Antes que ele terminasse de dizer o quanto estava decepcionado, Isabela começou a rir.
Seu corpo inteiro tremia, e as lágrimas escorriam para o ferimento no canto da boca.
Pedro nem queria ouvir uma explicação. Já tinha decidido que a culpa era toda dela.
De repente, Isabela ergueu a voz, que ecoou pelo corredor.
— É isso mesmo! Sou cruel, sou uma vagabunda, não presto e mereço morrer! Está bom assim?
Pedro ficou sem reação.
Por um instante, o pânico apareceu em seu olhar.
— Isabela, eu...
Beatriz amoleceu nos braços dele.
— Pedro, estou tonta...
Ele segurou Beatriz por reflexo.
Quando ergueu os olhos outra vez, Isabela já se afastava, decidida.
Caminhava depressa, com a barra do vestido branco balançando a cada passo.
Ainda assim, parecia tão frágil que chegava a assustar.
Pedro sentiu um aperto no peito e quis ir atrás dela, mas Beatriz voltou a gemer de dor.
Agarrada à gola dele, sem forças, implorou:
— Não vai embora. Nosso bebê...
Isabela ouviu, mas não olhou para trás.
Assim que as portas do elevador se fecharam, suas pernas já não conseguiram sustentar seu corpo.
Ela escorregou até o chão e escondeu o rosto nas mãos.
O desespero era tanto que nem o choro fazia barulho.
Ao chegar em casa, Isabela se enrolou no cobertor, adormeceu e teve um sonho longo.
Sonhou com todas as maneiras pelas quais Pedro tinha demonstrado seu amor.
Sob uma árvore no campus, ele segurava suas mãos e dizia que só queria passar a vida ao seu lado.
No casamento, tinha os olhos vermelhos e as mãos trêmulas ao colocar a aliança em seu dedo.
Quando soube da gravidez, Pedro ficou radiante e deu três voltas pela sala com ela nos braços.
De repente, porém, o sonho se encheu de cenas de Pedro protegendo Beatriz: ele bebia no lugar dela, comprava seus remédios e anunciava diante de todos que o bebê que Beatriz esperava era dele.
Um estrondo acordou Isabela.
Quando abriu os olhos, já estava escuro lá fora.
Do andar de baixo vinham passos apressados e as ordens de Beatriz, dadas naquele tom manhoso.
— Levem o sofá para o terraço. Quero tomar sol. Não confio nessa planta, tirem daqui agora. E troquem as cortinas também. Coloquem azuis, que eu gosto.
Isabela saiu do quarto, arrastando o corpo cansado, e encontrou Pedro subindo a escada com o travesseiro de Beatriz nos braços.
Assim que os olhares se cruzaram, ele ficou visivelmente tenso.
Começou a explicar, sem jeito:
— Os pais de Beatriz estão internados por sua causa. Eles não querem que ela fique morando sozinha. Por isso, trouxe Beatriz para cá. Ela vai ficar até o bebê nascer.
Isabela ouviu sem reagir.
Encarava Pedro com um olhar vazio, como se ele fosse um desconhecido.
Depois de tanta dor, já não parecia sentir nada.
Nem forças para ter raiva restavam.
Ela se virou para sair, mas Pedro chamou:
— Isabela...
Isabela conhecia bem aquela hesitação.
Era o tom que ele usava depois das brigas, quando queria pedir desculpas e não sabia por onde começar.
Nesse instante, a voz açucarada de Beatriz interrompeu:
— Pedro! Acho que o bebê chutou de novo. Vem sentir!
Pedro parou de caminhar na direção de Isabela.
Isabela ouviu um suspiro baixo e, depois, os passos dele se afastando.
Isabela sabia que Pedro estava pensando a mesma coisa de novo: bastava esperar o bebê de Beatriz nascer.
Até lá, era melhor fazer as vontades dela.
Todas as vezes, ele dizia a mesma coisa:
— Aguenta mais um pouco. Logo tudo vai ficar bem. É só esperar isso passar.
Dessa vez, porém, Isabela não queria mais esperar.