Você Pediu Tempo, Eu Pedi o Divórcio
Você Pediu Tempo, Eu Pedi o Divórcio
Por: Nerina
Capítulo 1
Havia dor e culpa no olhar de Pedro.

— Isabela, aguenta mais um pouco. Beatriz sempre foi muito protegida. Ela não vai suportar esses comentários.

Isabela ficou encarando Pedro, sem reação.

Então soltou uma risada, enquanto as lágrimas começavam a cair.

— E você acha que eu vou?

Naquele instante, só sentia cansaço.

Um cansaço tão profundo que já não queria continuar amando Pedro.

......

No escritório de advocacia, Isabela terminou de assinar os documentos e ficou olhando o espaço reservado à assinatura do marido.

Depois, ergueu os olhos para o advogado.

— Posso assinar por ele?

Sem jeito, o advogado ajeitou os óculos.

— Só com a autorização dele.

Isabela permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de ligar para Pedro.

A primeira voz que ouviu, porém, foi a de Beatriz, toda manhosa:

— Pedro, estou com vontade de comer um doce daquela loja na Zona Oeste...

Isabela sentiu uma pontada no peito, mas se esforçou para manter a voz firme.

— Preciso conversar com você sobre uma coisa.

Logo, a voz grave de Pedro veio do outro lado da linha:

— O que foi? Estou muito ocupado agora. Seja o que for, pode decidir por mim.

Ela quis confirmar:

— Posso tomar qualquer decisão por você?

Pedro soltou uma risada baixa e respondeu com carinho:

— Claro. Depois de tantos anos de casamento, não é você quem decide tudo em casa?

— Está bem. Então vou decidir isso sozinha.

Depois de desligar, Isabela baixou os olhos e escreveu cuidadosamente o nome de Pedro no espaço em branco.

Ao acompanhar Isabela até a saída, o advogado avisou:

— A previsão é que o divórcio seja concluído em um mês. Até lá, se mudar de ideia, ainda pode retirar o pedido.

Ela sorriu de leve.

— Não vai ser necessário. Não vou me arrepender.

Estava decidida a pôr fim àquele casamento.

Ao sair do escritório, pegou um táxi e foi direto para o hospital.

— Olá. Quero interromper minha gravidez.

O médico conferiu os exames.

— Tem certeza de que quer fazer o procedimento? O bebê está saudável.

— Tenho.

Quando Isabela se deitou na mesa cirúrgica, o som dos instrumentos de metal batendo uns nos outros fez seu corpo gelar.

Ela fechou os olhos e se lembrou da época em que Pedro tentava conquistar seu coração.

Na festa de recepção dos calouros, ele discursava como presidente do diretório estudantil quando viu Isabela pela primeira vez.

Na mesma hora, esqueceu o que ia dizer.

Pouco depois, a faculdade inteira já sabia: Pedro, um dos alunos mais populares do curso de Finanças e que nunca tinha demonstrado interesse por nenhuma garota, estava apaixonado por ela.

Durante um ano inteiro, ele tentou conquistar Isabela.

No dia da primeira neve, apareceu com um enorme buquê de rosas na entrada da residência estudantil feminina e passou a noite ali, esperando por ela sob a neve.

Em uma noite de chuva torrencial, Isabela comentou, sem dar muita importância, que estava com vontade de comer um bolo vendido na Zona Oeste.

Pedro atravessou metade da cidade de carro para comprar o bolo.

Mas foi na festa de aniversário da faculdade que ele realmente tocou seu coração.

Isabela estava na metade de um solo de piano quando uma tecla emperrou.

Um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente.

Pedro subiu imediatamente ao palco e se sentou ao lado dela.

— Eu toco com você.

Pousou os dedos nas teclas e acompanhou Isabela até o fim de "Carinhoso".

A plateia explodiu em gritos de entusiasmo, mas Pedro só tinha olhos para ela.

Ele murmurou:

— Só quero passar a vida com você.

Foi assim que Isabela se apaixonou.

Durante o namoro e depois do casamento, Pedro continuou cumprindo a promessa, sempre tratando Isabela com amor e cuidado.

A única coisa que incomodava era Beatriz, que vivia atrás dele.

Pedro sempre dava a mesma explicação:

— Beatriz é como uma irmã para mim. O avô dela salvou a vida do meu avô. Agora que os negócios da família dela faliram, não posso simplesmente deixar ela desamparada.

Isabela acreditou.

Aos poucos, porém, Beatriz começou a interferir na vida dos dois.

E era sempre Isabela quem precisava ceder.

No aniversário dela, no ano anterior, Pedro tinha prometido levar Isabela para ver a aurora boreal.

Mas Beatriz teve febre, e ele cancelou a viagem de última hora.

No aniversário de casamento, Isabela preparou várias surpresas.

Bastou Beatriz telefonar dizendo que estava com medo dos trovões para Pedro ir embora.

Quando Isabela estava com trinta e nove graus de febre, ele andava de roda-gigante com Beatriz e ainda posava para as fotos que ela publicava no Instagram.

Isabela cedeu repetidas vezes.

Agora, por causa de Beatriz, Pedro se recusava até a assumir o próprio bebê.

Se era assim, ela não queria mais aquela criança.

Também não queria mais Pedro.

Quando o procedimento terminou e a luz do lado de fora da sala se apagou, Isabela sentiu um vazio por dentro.

Saiu devagar, apoiada na parede.

As pernas ainda tremiam, e uma dor surda vinha em ondas no baixo ventre.

Ao virar no corredor, viu uma cena mais adiante e ficou imóvel.

Beatriz estava sentada em um banco.

Diante dela, Pedro mantinha um joelho no chão e o ouvido encostado em sua barriga levemente arredondada.

Beatriz sorria, radiante.

— Dizem que bebê que se mexe muito na barriga da mãe nasce mais inteligente.

Pedro acariciou a barriga dela.

Ele respondeu com ternura:

— Só quero que o bebê fique bem.

Isabela apertou os documentos médicos entre os dedos.

A dor no peito era insuportável.

Deveria ter corrido até Pedro e perguntado se, enquanto aguardava ansiosamente o nascimento do bebê de Beatriz, ele sabia que o bebê dos dois acabara de ser retirado do corpo dela.

E se ainda se lembrava de como, ao saber da gravidez, tinha abraçado Isabela e girado com ela nos braços, louco de alegria.

Mas não fez nada.

Apenas observou em silêncio os dois, que pareciam tão bem juntos.

A raiva, a mágoa e a revolta acabaram dando lugar ao cansaço.

Isabela se virou para ir embora, mas ouviu a voz de Pedro atrás de si.

— Isabela?

Ele parecia surpreso.

— O que você está fazendo no hospital?

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