Patrícia ergueu os olhos de repente, incrédula.
Ricardo evitou encarar ela.
— Meus homens não são tão incompetentes. Sei muito bem quem organizou tudo.
"Ele sabe que foi Helena?"
Uma dor aguda atravessou o peito de Patrícia. Ela mal conseguia acreditar no que tinha ouvido.
Sua voz tremia.
— Então, por que...?
Ricardo respondeu com cansaço e resignação:
— Já disse muitas vezes a Helena que não amo você. Que só me casei porque não tinha escolha. Mesmo assim, ela continua insegura. Afinal, nós fomos casados por tantos anos... É natural que isso incomode. Desta vez, ela só queria ter certeza de quem é mais importante para mim.
Ele fez uma pausa e olhou para Patrícia, com uma expressão difícil de decifrar.
— Eu não podia magoar Helena. Precisava provar o que sinto por ela, então tive que participar daquela encenação. Sei que você sofreu por causa disso.
Uma frase dita com tanta facilidade para resumir as acusações, a humilhação, as torturas e o medo de morrer naquela prisão.
Helena tinha organizado tudo para se sentir segura.
Ricardo tinha assistido sem intervir para provar seu amor.
Juntos, tinham transformado a vida de Patrícia num inferno.
E ainda esperavam que ela compreendesse?
Patrícia olhou para Ricardo e começou a rir.
Havia uma tristeza amarga naquele riso, como se zombasse de si mesma.
Ele sentiu o peito apertar e foi tomado por um medo inexplicável.
Achou que ela estivesse magoada, profundamente decepcionada, e suavizou a voz:
— Eu errei com você. Agora precisa se recuperar. Vou compensar tudo isso. Prometo que, da próxima vez que tiver que escolher entre você e Helena, vou escolher você.
Patrícia fechou os olhos, exausta, e murmurou, quase sem voz:
— Não vai haver uma próxima vez.
Ricardo não entendeu.
— O quê?
Do lado de fora, Francisco fez um lembrete cauteloso:
— Majestade, já está aí há um dia e uma noite. Alguns ministros continuam esperando para tratar das enchentes...
Ricardo franziu a testa.
Observou Patrícia, tão pálida na cama, de olhos fechados e em silêncio.
— Peça que esperem mais um pouco.
Patrícia disse, tranquila:
— Os assuntos do país são importantes. Eu já estou bem. Pode ir.
A distância na voz dela fez a irritação voltar, embora a impotência fosse ainda maior.
No fim, Ricardo não disse mais nada.
Demorou o olhar em Patrícia, se virou e saiu.
......
Nos dias seguintes, pareceu realmente disposto a compensar o que tinha feito.
Enviava presentes sem parar: antiguidades valiosas, tecidos finos e até peças que normalmente só eram produzidas para o imperador e a imperatriz.
Certo dia, mandou avisar que levaria Patrícia ao campo de caça imperial, fora da cidade, para espairecer.
A propriedade era de uso particular do imperador e da imperatriz. Ninguém mais podia entrar sem convite.
Patrícia tentou encontrar uma maneira educada de recusar.
Era naquele dia que a pílula faria efeito.
Dentro do palácio, poderia "morrer de uma doença repentina".
Se isso acontecesse no caminho para o campo de caça, despertaria suspeitas.
Ela estava prestes a chamar a nova criada para transmitir a resposta quando alguém vestido de preto entrou de repente pela janela.
Patrícia ia gritar, mas recebeu um golpe forte na nuca.
Sua visão escureceu, e ela perdeu os sentidos.