Mundo de ficçãoIniciar sessãoChloe
Estava em minha adega climatizada, na Union Square, catalogando alguns dos vinhos mais caros de safras especiais. Segurei em minhas mãos a garrafa mais cara que eu tinha ali. Era uma doze anos de um enólogo relativamente novo no mercado, mas muito citado durante a faculdade por muitos professores. Simplesmente porque aquele pequeno geniozinho tinha uma fórmula secreta para produção de vinhos raros de forma artesanal. Eu me lembrava de ter visto uma entrevista com Andrew Johnson há alguns anos, antes de abrir minha própria adega. Eu detestava o dito cujo, mas não perdia nada que era falado sobre ele nas mídias. Por quê? Eu era uma sommelier de sucesso, precisava conhecer tudo relacionado ao mundo dos vinhos, e Johnson era arrogante e mulherengo, mas era inteligente. Não, era brilhante. Na entrevista, ele disse que seu pai desenvolveu a fórmula, mas não conseguiu vender. Depois da morte do pai, quando ele era apenas um menino, ele se esforçou para estudar e descobrir o que tinha de errado com ela. Quando se formou enólogo e entendeu que a fórmula era perfeita, investiu toda a sua herança na produção da primeira safra. Como não tinha muito dinheiro, conseguiu produzir, sozinho, doze garrafas. Com o apoio de um vinhedo muito conhecido, vendeu as doze garrafas por mil dólares cada uma e recebeu as melhores críticas de sete delas. Cinco estão guardadas como relíquias nas casas de quem as comprou. Logo vieram os pedidos de maior produção, e ele começou a produzir aquele mesmo vinho, mas não de forma artesanal. E a garrafa custava dois mil dólares agora. Produziu cem garrafas, que saíram em menos de 24 horas depois que começou a vender, depois mil e assim começou a fazer sua fortuna. E todos os anos ele lança uma ou duas safras especiais, com no máximo cem exemplares, de forma artesanal. O que mais me encanta no lado enólogo de Johnson é que, realmente, é artesanal, e ele faz sozinho de ponta a ponta. Ele tem umas três vinícolas espalhadas pelos Estados Unidos. Não precisa de muitas , porque suas safras são especiais. Mas tem um menor e particular. Onde ele mesmo colhe as uvas, escolhendo as melhores, faz a pisa e a produção das suas unidades ouro. Ele diz que não confia sua técnica a ninguém. Por isso não tem uma quantidade certa de garrafas que vai produzir, mas naquela data, tinha garrafas dele chegando a 60 mil dólares, e era muita sorte minha ter conseguido aquela garrafa que tinha ali. E não estava à venda. Eu iria leiloar a garrafa no aniversário de 20 anos da minha adega. Consegui meu Johnson como prêmio em um concurso que participei como sommelier há quatro anos. Os três anos entre estar formada e abrir minha adega, em uma das ruas mais chiques e movimentadas de São Francisco, foram os mais difíceis da minha vida. Ou poderia dizer que foi o primeiro ano da faculdade? Não sabia. Mas as duas fases, com suas particularidades, foram complicadas ao extremo para mim. Quando cheguei em São Francisco, parei de chorar pelas injustiças que sofri na minha cidade e comecei a faculdade. Menos de dois meses depois que cheguei, já estava enturmada, feliz, trabalhando na biblioteca da faculdade. Steve tinha conseguido aquele emprego para mim. Não era muito, mas conseguia me manter. Quando peguei meu primeiro salário, Steve e Samuel estavam me esperando na saída do serviço e disseram que iríamos beber para comemorar. Eu não queria ir, mas fui arrastada. Estava me divertindo, tomando coca-cola e comendo batatas fritas enquanto conversávamos coisas leves, quando uma batata que parecia estragada me fez querer vomitar, corri para o banheiro. Estraguei o passeio dos meus amigos, que me levaram para casa, e depois de três manhãs que passei vomitando, Steve decidiu me levar ao médico, onde descobrimos que eu estava grávida. Samuel e Steve não me deixaram desesperar, e com todo apoio e paciência, Peter nasceu. E era tão lindo que eu tinha vontade de o morder inteiro. Mudou toda a vida de nós três, e a rotina também. Não paramos a universidade, a grana não era fácil, eu usei quase todo o dinheiro que minha avó me deu para os três anos de formação. Naquele ano em que dei à luz, tive que me virar para estudar, trabalhar e criar um bebê. Mas logo pegamos a rotina, e meus amigos me ajudavam muito. Nas férias da universidade, tive que ser eu, e eu mesma. Pois os pais de Samuel o visitavam e eu não queria que ninguém na cidade soubesse que tive um bebê. No ano seguinte, comecei a trabalhar uma noite por semana dançando em uma boate. Aquilo ajudava a manter as finanças equilibradas. Quando me formei, as coisas não ficaram melhores. Peter estava com três anos, era a alegria da casa, mas o emprego de sommelier que arranjei não pagava mais do que o de bibliotecária. Eu sabia que deveria fazer meu nome, se quisesse chegar a algum lugar sem ter que voltar para Napa. Claro que lá eu teria mais oportunidades, na cidade dos vinhedos. Mas como eu chegaria em Napa, com um bebê nos braços, e contaria para meu pai que engravidei daquela noite e que nem sabia quem era o pai, aumentando minha vergonha? Não faria isso, e a outra opção foi procurar um dos meus professores que eu sabia ter uma queda por mim. Dolby até chegou a pedir para namorarmos, e foi quando descobriu que eu era mãe solo. Quando o procurei, Dolby começou a enviar clientes que me procuravam para fazer freelancer. Engordou bastante a minha conta bancária, mas não deu currículo. Eu sabia que precisaria de mais, e a oportunidade veio quando ele me contou sobre o concurso. Seriam dez sommeliers fazendo suas considerações sobre vinhos, de forma anônima, e quem acertasse maior número de pontos, de acordo com as considerações de sommeliers consagrados no mercado, ganhariam uma posição mais elevada, uma garrafa Johnson 12 anos e um valor considerável. Eu aceitei, até descobrir que faríamos nossas considerações em 7 países diferentes. Todos os candidatos receberiam uma ajuda de custo durante os meses do concurso, mas passar alguns dias em outro país, longe do meu Peter, seria complicado e eu quase desisti. Mas meus melhores e únicos amigos não permitiram e eu ganhei o concurso, e a partir daí, meu nome começou a ser consagrado. Johnson me enviou um advogado querendo comprar a garrafa dele de volta, e eu mandei enfiar o dinheiro dele, sabe-se onde. Depois aluguei aquela antiga casa vitoriana na Union Square, onde funcionava minha Adega há três anos. Investi todo meu dinheiro nela, era uma loja elegante e cara. Eu sabia que era cara. Mas toda a fama que consegui ao longo da minha carreira me dava esse direito. Naquele momento, olhando para aquela garrafa, me lembrei de todas as vezes que alguém do Johnson me procurou. Sorri, lembrando que minha última resposta para a proposta de 30 mil dólares pela garrafa, foi que ele me procurasse pessoalmente para negociar. Sabia que ele estava em Napa, presidindo a Coop da qual meu pai fazia parte e era um homem extremamente ocupado com a fama e o poder que adquiriu, mais a produção artesanal de suas safras especiais. Não iria sair de lá pra vir atrás de uma menina mimada que estava batendo o pé. Quando guardava minha garrafa ouro, meu telefone tocou. Depositei a garrafa cuidadosamente e olhei no visor, vendo o código de área de Napa e um telefone desconhecido, depois que atendi, uma voz grave perguntou: — Chloe Beringer? - Depois que eu confirmei, estranhando o tom sério e o sobrenome usado, o homem continuou: - Sou secretário geral da cooperativa entre vinhedos de Napa. Me disseram que apenas nós temos seu contato e eu preciso lhe informar que seu pai foi enviado às pressas para o hospital. Ele infartou. Com os dedos trêmulos, perguntei se ele estava morto, e ele me disse que não, mas estava em avaliação. — Me mantenha informada, por favor. Depois que desliguei, fiz uma ligação. Quando Samuel me atendeu, eu apenas disse: — Não quero voltar.






