Capítulo Três

A viagem de Boston a Cape Cod sempre fora, para Gus, um ritual quase sagrado. Ano após ano, a selva de concreto ficava para trás, dando lugar a subúrbios silenciosos e, finalmente, a longas extensões de pinheiros que pareciam escoltar o carro. Quando o cheiro salgado e persistente do Atlântico se infiltrava pelas frestas, ele sabia: a vida real estava prestes a começar.

Mas naquele verão, o ar parecia mais denso.

A estrada parecia esticar-se sob as rodas, as curvas eram mais fechadas, e o tempo... o tempo se arrastava como se a física tivesse mudado. Gus apoiou a testa no vidro frio, sentindo o coração em um compasso estranho. Não era impaciência. Era uma antecipação que beirava o nervosismo. O mar o chamava, mas o nome que ecoava em sua mente era o de Abby.

Robert, seu pai, conduzia o SUV com a calma de quem domina as marés. Suas mãos firmes no volante eram as mesmas que guiavam o barco da família e mantinham o equilíbrio da casa. Ao lado, Susan revisava o tablet com um rigor cirúrgico, murmurando a lista de compras enquanto organizava mentalmente a logística do verão.

— Gus, ligue para a Eliza e avise que já cruzamos a ponte — pediu Susan, sem desviar os olhos da tela. — Quero deixar as compras em ordem antes que eles apareçam.

Ele pegou o celular, mas o ícone de chamada parecia pesado demais. Sua mente ainda estava presa na mensagem que recebera minutos antes: “Passando por Plymouth. Meu pai nos obrigou a contar carros vermelhos. Socorro.”

Gus sorriu para o próprio reflexo no vidro. Podia imaginá-la: o cenho franzido de irritação fingida, as sardas dançando no rosto enquanto ria, e aquele jeito impaciente de quem não cabe em si mesma. Dois anos de ausência, e ela ainda era seu único ponto fixo.

Em vez de ligar, ele apenas digitou:

Gus: Diz para ele que o recorde ainda é meu. Te vejo em trinta minutos?

A ponte que ligava o continente a Cape Cod surgiu imponente, um arco de metal sob o sol de ouro da tarde. Ao cruzá-la, Gus sentiu o peito se abrir. Boston, com sua rotina cinzenta e o peso das expectativas, ficava no retrovisor. Ali, o mundo era azul e areia.

— Estamos quase lá, campeão — anunciou Robert, dando um tapinha no volante. — E prontos para alimentar metade da Nova Inglaterra — completou Susan, arrancando um riso genuíno do filho.

O carro deixou a rodovia, entrando na estrada de cascalho cercada por cercas de madeira e dunas baixas. O oceano surgia entre as casas, provocador, até que finalmente estacionaram sob o velho carvalho da propriedade. Quando o motor morreu, o silêncio foi preenchido pelo grito rítmico das gaivotas e pelo rugido constante do mar.

O desembarque foi um balé treinado. Robert descarregava as malas com eficiência silenciosa, enquanto Gus ajudava Susan com as sacolas de compras da cidade. Dentro da casa, o cheiro de madeira antiga e maresia o abraçou como um velho amigo. Susan já assumia o comando da cozinha, movendo-se entre bancadas de mármore e janelas escancaradas para o sol.

Entre as sacolas, Gus notou a caixa da padaria de Boston. Croissants de amêndoa. Sua mãe não esquecia. Abby não teria chance contra aquela recepção.

Ele subiu para o quarto, abriu a janela de frente para o píer e deixou o vento desarrumar seu cabelo. Por um instante, o som das ondas foi a única coisa que existia. Até que o celular vibrou.

Abby: Entramos no túnel. Meu pai começou a cantar. Anthony desistiu de viver. Quinze minutos.

Quinze minutos.

Gus desceu as escadas com o sangue latejando nas têmporas. Robert já preparava a churrasqueira na varanda; Susan podava as hortênsias com uma tesoura de jardim. O mundo ao redor dele estava perfeitamente sincronizado, mas Gus sentia que estava prestes a sair do eixo.

— Vá arrumar suas coisas depois — Susan avisou, sem olhar para trás. — Eles estão quase virando a esquina.

Ele abriu uma cerveja gelada, sentindo o amargor do primeiro gole se misturar ao sal do ar. Ele se encostou no corrimão da varanda, os olhos fixos na curva da estrada.

Então, ele ouviu. O estalido característico do cascalho sob pneus pesados.

O SUV dos Miller surgiu lentamente, banhado pela luz do fim de tarde. O carro mal parou e as portas se abriram no que parecia uma explosão de energia ruiva. Eliza e Daniel desceram entre risos, mas o mundo de Gus parou quando a porta traseira se abriu.

Abby saltou do carro.

O cabelo ruivo estava preso em duas tranças maria-chiquinha, mas vários fios rebeldes haviam escapado, criando uma aura desordenada ao redor de seu rosto. Ela usava um vestido leve que o vento de Cape Cod fazia questão de agitar contra suas pernas, e os óculos de armação preta estavam comicamente tortos em seu nariz, como se tivessem sobrevivido a uma batalha contra o tédio da viagem.

Seus olhos castanhos, intensos e curiosos, escanearam a varanda até travarem nos dele.

Gus sentiu o chão sumir por um microssegundo. O mundo não apenas parou; ele se recalibrou. Todas as cores pareceram mais vivas, o som do mar mais nítido. Tudo o que havia mudado nela — a altura, a curva do rosto, a segurança no olhar — parecia perfeitamente certo.

— Oi — ela disse, parando no pé da escada, a voz carregada de uma timidez que ela tentava disfarçar com um sorriso.

Gus desceu os degraus, o meio sorriso surgindo sem que ele percebesse. Ele parou a um passo dela, sentindo o cheiro de sol e estrada que ela exalava. Sem dizer nada, ele estendeu a mão e, com o dedo indicador, empurrou a armação preta de volta para o lugar, seus dedos roçando levemente a têmpora dela.

— Ainda não aprendeu a ajustar esses óculos, Abby — ele murmurou, a voz um tom mais profunda do que no último verão.

Ela riu, e Gus soube, naquele exato momento, que Boston nunca mais seria o suficiente. O verão havia, finalmente, chegado.

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