Capítulo Quatro

O crepúsculo em Cape Cod tinha uma tonalidade que Gus não conseguia encontrar em nenhum outro lugar do mundo. Não era apenas o modo como o sol se escondia atrás das dunas, mas a forma como o céu se transformava em um degradê de lavanda e azul-marinho, fundindo-se com o oceano até que a linha do horizonte se tornasse uma sugestão subjetiva.

Dentro da casa, o caos organizado do primeiro jantar de verão estava em pleno vigor. Na cozinha, o som de facas batendo ritmadas contra tábuas de madeira misturava-se ao tilintar de taças de vinho. Susan e Eliza comandavam o fogão como se nunca tivessem passado um dia separadas, compartilhando segredos culinários e atualizações sobre a vida em Boston e Salem. Robert e Daniel, por sua vez, estavam na varanda dos fundos, o cheiro de carvão aceso e carne grelhada subindo em direção às janelas do andar de cima.

No corredor, a porta do quarto de hóspedes estava entreaberta. O som da voz de Anthony escapava de lá, animado e veloz. Ele estava jogado na cama, com o celular apoiado em um travesseiro, gesticulando para a tela enquanto explicava para um amigo de Salem as dimensões da casa e a promessa de ondas boas para o dia seguinte.

— Cara, eu tô te falando, a garagem aqui é do tamanho da nossa sala! — Anthony ria, a voz vibrando de excitação. — E o Gus tá aqui, ele cresceu pra caramba, parece que tá tomando adubo no café da manhã.

Gus, que passava pelo corredor em direção às escadas, sorriu de canto ao ouvir o comentário. Ele sentia uma estranha inquietação. A casa, antes silenciosa e organizada sob o comando de sua mãe, agora pulsava com uma energia que ele não sabia se conseguia conter dentro de quatro paredes. Ele desceu os degraus lentamente, tentando não ser notado pelos pais, e encontrou Abby na sala de estar.

Ela estava parada diante da grande vidraça que dava para o píer privativo da propriedade. O vestido leve de algodão ainda estava lá, mas ela jogara um cardigã fino por cima dos ombros para se proteger da brisa que começava a esfriar. Suas duas tranças maria-chiquinha, agora um pouco mais desfeitas após a agitação da chegada, repousavam sobre seu peito. Os óculos de armação preta, milagrosamente, permaneciam retos no nariz.

— É muita gente falando ao mesmo tempo, não é? — Gus perguntou, parando a alguns passos dela.

Abby se virou, e o brilho das luzes da sala refletiu em suas lentes. — Parece que o silêncio de dois anos foi cancelado em dez minutos — ela respondeu, com um meio sorriso que fez as sardas de suas bochechas se amontoarem.

 — Minha mãe e a Susan já estão discutindo se o molho leva manjericão ou orégano. Acho que o jantar vai demorar.

Gus olhou para a porta de vidro que levava ao deque. — Quer fugir um pouco? O píer está calmo.

Abby hesitou por apenas um segundo antes de assentir. Eles saíram em silêncio, o som das vozes dos pais tornando-se abafado conforme a porta de correr se fechava. O ar noturno de Cape Cod os atingiu — úmido, salgado e carregado com aquele frescor característico que parecia limpar os pulmões.

Caminharam sobre a grama baixa até alcançarem o início da estrutura de madeira. O píer estendia-se por cerca de vinte metros sobre a água escura, iluminado apenas por pequenos lampiões solares que Robert instalara ao longo do corrimão. Cada passo fazia a madeira velha ranger de um modo familiar, um som que, para ambos, era a trilha sonora oficial das férias.

Eles caminharam até a ponta extrema, onde o corrimão terminava e havia um banco de madeira voltado para o mar aberto. Sentaram-se lado a lado, mantendo uma distância pequena, mas consciente. O som das ondas batendo suavemente contra os pilares de sustentação era a única coisa que preenchia o espaço entre eles.

— Boston mudou você, Gus — Abby disse finalmente, quebrando o transe. Ela não olhava para ele, mas para as luzes distantes de um barco de pesca no horizonte. — Você parece... mais distante. Ou talvez seja só o tamanho.

Gus soltou um suspiro, observando o vapor fino de sua respiração no ar frio. — Boston é cinza, Abby. As pessoas lá andam como se estivessem sempre atrasadas para algo que elas nem querem fazer. Às vezes, acho que acabo entrando no mesmo ritmo. É difícil manter a cor quando tudo ao redor é asfalto.

Ele virou o rosto para observá-la. Sob a luz pálida da lua que começava a subir, a pele dela parecia quase porcelana, e o ruivo do cabelo tornara-se um tom de cobre profundo. — E você? Salem ainda é a cidade das bruxas e do mar calmo?

Abby riu, um som suave que pareceu dançar sobre a água. — Salem é a mesma de sempre. Mas às vezes eu me sinto como uma daquelas casas históricas. Por fora tudo igual, mas por dentro... as fundações estão mudando. Eu comecei a desenhar mais. Coisas reais, não apenas constelações inventadas.

— Senti falta dos seus desenhos — Gus confessou, a voz baixando um tom. — E das histórias que você criava para cada estrela.

Abby finalmente o encarou. O olhar castanho era intenso, carregado de uma curiosidade que o fazia se sentir exposto, mas de um jeito que ele não queria evitar. — Você lembra do "Grande Peixe"? — ela perguntou, com um brilho nostálgico.

— Como eu poderia esquecer? Você jurava que ele nadava para o sul durante o inverno e que, se olhássemos bem, poderíamos ver as bolhas de água no céu.

Eles riram juntos, e por um momento, o peso dos dois anos de ausência pareceu evaporar. A intimidade que fora construída durante verões inteiros de infância estava ali, escondida sob as novas camadas de suas personalidades adolescentes, esperando apenas um pretexto para ressurgir.

Gus percebeu que a brisa estava ficando mais forte. Ele notou Abby encolhendo os ombros dentro do cardigã. — Você está com frio?

— Um pouco. Mas não quero entrar agora. Se entrarmos, o verão vira apenas o jantar e os adultos falando de faculdade e política. Aqui fora... parece que ainda temos quatorze anos.

Gus sentiu um impulso. Ele se aproximou um pouco mais, o suficiente para que seus ombros se tocassem. O contato enviou uma onda de calor que ele não sentia há muito tempo. — A gente não precisa ter quatorze anos para que isso seja bom, Abby.

Ela ficou em silêncio, absorvendo as palavras dele. O vento desarrumou um pouco mais as suas tranças, e um fio ruivo ficou preso nos seus óculos. Sem pensar muito, Gus levou a mão ao rosto dela. Com uma delicadeza que surpreendeu a si mesmo, ele afastou o fio rebelde e, em seguida, ajustou a armação preta que, mais uma vez, pendia levemente para a esquerda.

— Você realmente precisa de um oftalmologista novo — ele brincou, mas seus dedos permaneceram por um segundo extra na têmpora dela.

Abby não se afastou. Ela fechou os olhos por um breve instante, aproveitando o calor da mão dele contra sua pele fria. — Talvez eu deixe eles tortos de propósito — ela sussurrou. — Só para ver se você ainda presta atenção.

O coração de Gus deu um solavanco. A confissão dela, embora dita em tom de brincadeira, carregava uma verdade que ele não estava preparado para processar no balanço daquele píer. Ele retirou a mão lentamente, sentindo a falta imediata do contato.

Lá em cima, na janela do quarto, a luz de Anthony ainda estava acesa. Eles podiam ver a silhueta dele se movendo, ainda imerso no mundo digital, alheio ao que acontecia ali embaixo. No andar inferior, o som de uma gargalhada alta de Robert indicava que as histórias de pescador haviam começado.

— Sabe o que é engraçado? — Abby começou, olhando para as próprias mãos. — Eu passei os últimos dois anos imaginando como seria esse momento. O que eu diria, o que você diria. Eu tinha roteiros inteiros na minha cabeça.

— E algum deles batia com a realidade? — Gus perguntou, curioso.

— Nenhum. No meu roteiro, você não era tão alto e eu não ficava tão sem graça — ela confessou, rindo de si mesma. — Mas a realidade é melhor. O silêncio com você não é vazio, Gus. Nunca foi.

Gus sentiu uma paz profunda se instalar em seu peito. Em Boston, o silêncio era algo a ser preenchido por música, trabalho ou ruído urbano. Ali, com Abby no píer de Cape Cod, o silêncio era um diálogo por si só.

— Abby... — ele começou, mas foi interrompido pelo som da porta de correr se abrindo na varanda principal.

— GUS! ABBY! O JANTAR ESTÁ NA MESA! — a voz de Susan ecoou pela propriedade, carregada de autoridade materna.

Eles se entreolharam, um sorriso cúmplice unindo-os mais uma vez. Levantaram-se do banco, mas antes de começarem a caminhada de volta, Gus parou e olhou para o céu. A lua estava cheia, uma esfera de prata que iluminava o caminho de volta sobre a madeira do píer.

— O verão realmente começou — ele disse, mais para si mesmo do que para ela.

Abby tocou levemente o braço dele, incentivando-o a andar. — Começou. E desta vez, Gus, não vamos precisar inventar constelações para que a noite seja interessante.

Enquanto caminhavam de volta para a luz quente da casa, onde o cheiro de peixe grelhado e risadas os esperava, Gus soube que aquela caminhada noturna era apenas o prólogo de algo muito maior. Anthony continuava em sua chamada, os pais continuavam na cozinha, mas entre ele e a garota de tranças e óculos tortos, o mundo havia mudado de forma irreversível.

Eles entraram na casa, o calor do interior abraçando-os, e Gus sentiu que, pela primeira vez em dois anos, ele estava exatamente onde deveria estar.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App