Apenas nos duas

O casamento já tinha acontecido havia alguns meses.

Para todo mundo, a vida parecia perfeita.

Meu pai estava feliz.

Paola era admirada por todos.

E eu era a filha sorridente de uma família aparentemente perfeita.

Pelo menos era isso que as pessoas enxergavam.

A verdade era bem diferente.

Naquela manhã, acordei cedo ao ouvir movimentação pela mansão.

Esfreguei os olhos e saí correndo do quarto.

Quando cheguei ao hall principal, encontrei meu pai descendo as escadas usando um elegante terno escuro.

Seu celular não parava de tocar.

Homens engravatados o aguardavam do lado de fora.

Eu não entendia aqueles negócios.

Só sabia que ele trabalhava muito.

— Papai!

Ele abriu os braços imediatamente.

— Minha princesa.

Corri para abraçá-lo.

Ele me levantou do chão e me girou no ar.

Eu gargalhei.

— Vai viajar de novo?

— Só alguns dias.

— Quantos?

— Três.

Fiz uma careta.

— Três é muito.

— Passa rápido.

— Não passa.

Ele riu.

— Quando eu voltar, vamos passar o fim de semana inteiro juntos.

— Promete?

— Prometo.

Estendi o dedo mindinho.

— Promessa de verdade.

Ele entrelaçou o dedo no meu.

— Promessa de verdade.

Sorri satisfeita.

Foi então que Paola apareceu.

Usava um vestido elegante e um sorriso impecável.

— Vocês dois já começaram com o drama da despedida?

Meu pai riu.

— Você sabe como ela é.

— E você sabe como ela é grudada em você.

Paola passou a mão pelos meus cabelos.

— Não se preocupe, amor. Vou cuidar muito bem dela.

Meu pai beijou a testa dela.

Depois beijou a minha.

— Comportem-se.

— Ela que manda em mim — respondi.

Os dois riram.

Poucos minutos depois, vi o carro dele desaparecer pelos portões da propriedade.

Fiquei observando até não conseguir mais enxergá-lo.

Sempre fazia isso.

Gostava de acreditar que, enquanto pudesse ver o carro, ele ainda estava comigo.

Quando me virei, Paola continuava parada atrás de mim.

O sorriso dela havia desaparecido.

Instantaneamente.

Como se nunca tivesse existido.

— Já acabou o espetáculo?

Pisquei confusa.

— O quê?

— Seu drama.

Baixei os olhos.

— Eu só estava vendo o papai ir embora.

— Pois acostume-se.

Ela passou por mim sem sequer olhar para trás.

— O mundo não gira ao seu redor.

Fiquei parada no mesmo lugar.

Sem entender.

Aquela mudança era sempre tão rápida.

Na frente do meu pai ela era uma pessoa.

Quando ele saía...

Era outra completamente diferente.

Mais tarde, sentei-me em uma mesa no jardim.

Eu adorava desenhar.

Era uma das poucas coisas que me faziam esquecer a tristeza.

Peguei meus lápis de cor e comecei a desenhar.

Primeiro uma árvore.

Depois a mansão.

Depois eu.

Meu pai.

E minha mãe.

A verdadeira.

Mesmo depois de dois anos, eu ainda sentia saudade dela.

Não lembrava de muita coisa.

Mas lembrava do amor.

E isso bastava.

Eu estava terminando o desenho quando uma sombra caiu sobre a mesa.

Levantei a cabeça.

Paola.

Ela observava a folha.

— De novo?

Meu coração apertou.

— O quê?

— Isso.

Ela apontou para o desenho.

— Sua mãe.

Não respondi.

— Você não acha que já está na hora de superar isso?

— Eu só sinto saudade dela.

— Pessoas morrem, Laura.

Olhei para o desenho.

— Ela era minha mãe.

— E está morta.

As palavras foram tão frias que senti vontade de chorar.

Mas não chorei.

Ela pegou a folha.

— Me devolve.

Paola ignorou meu pedido.

— Você sabe qual é o seu problema?

Balancei a cabeça.

— Não.

— Você vive presa ao passado.

Ela rasgou a folha ao meio.

Meu coração pareceu parar.

— Não!

Levantei rapidamente.

— Por que você fez isso?

Ela deixou os pedaços caírem no chão.

— Porque alguém precisa ensinar você a crescer.

Meus olhos se encheram de lágrimas.

— Eu vou contar para o meu pai.

Paola sorriu.

Mas não era um sorriso bonito.

Era assustador.

— E o que exatamente você vai contar?

Fiquei em silêncio.

— Que rasguei um desenho?

Ela cruzou os braços.

— Seu pai vai achar que você está exagerando.

Aproximei-me dos pedaços rasgados.

Tentando juntá-los.

Paola se inclinou.

— E sabe o que é pior?

Olhei para ela.

— O quê?

— Ele vai acreditar em mim.

Então ela foi embora.

Me deixando sozinha.

Naquela tarde, fui para a escola.

Era um dos poucos lugares onde me sentia normal.

Longe da mansão.

Longe de Paola.

Longe de tudo.

Mesmo assim, eu não conseguia parar de pensar no desenho.

Na forma como ela o destruiu.

Na forma como falou da minha mãe.

Quando o intervalo começou, sentei-me sozinha em um banco.

Foi então que ouvi uma voz.

— Você está chorando?

Rapidamente enxuguei os olhos.

Uma menina de cabelos castanhos estava parada na minha frente.

Ela parecia ter a minha idade.

— Não.

— Está sim.

— Não estou.

— Está.

Ela sentou ao meu lado.

— Eu sou Sofia.

— Laura.

— Prazer.

Ficamos em silêncio por alguns segundos.

— Então por que você estava chorando?

— Não estava.

— Mentira.

Olhei para ela.

— Como sabe?

Ela deu de ombros.

— Porque eu também faço isso.

Acabei sorrindo.

Pela primeira vez naquele dia.

— Você é estranha.

— Todo mundo diz isso.

Isso me fez rir.

— Minha madrasta me deixou triste.

Sofia ficou séria.

— Ela b**e em você?

— Não.

— Então o que ela faz?

Pensei por alguns segundos.

— Ela fala coisas ruins.

— Tipo?

— Tipo que minha mãe não importa.

Sofia franziu a testa.

— Isso é horrível.

— Eu sei.

— Seu pai sabe?

Balancei a cabeça.

— Não.

— Você devia contar.

Suspirei.

— Acho que ele não acreditaria.

— Por quê?

— Porque ela é diferente quando ele está por perto.

Sofia ficou em silêncio.

Pensando.

— Então ela é falsa.

— O que significa falsa?

— Significa que ela finge ser uma coisa e é outra.

Olhei para ela.

— Você acha?

— Tenho certeza.

Pela primeira vez, alguém acreditava em mim.

E aquilo fez uma enorme diferença.

Naquela noite, meu pai telefonou.

Eu corri para atender.

— Papai!

— Como está minha princesa?

Sorri imediatamente.

— Bem.

— Está se comportando?

— Sim.

— E a Paola?

Olhei para a escada.

Ela estava observando.

Esperando minha resposta.

— Ela está bem.

— Ótimo.

— Quando você volta?

— Depois de amanhã.

— Está demorando.

Ele riu.

— Eu também sinto sua falta.

Conversamos mais alguns minutos.

Depois desligamos.

Quando me virei, Paola continuava parada.

Ela desceu os degraus lentamente.

— Viu?

Perguntou.

— O quê?

— Seu pai está feliz.

Não respondi.

— Não estrague isso.

Ela passou por mim.

— Algumas pessoas deveriam aprender a ser gratas.

Fiquei observando enquanto ela desaparecia pelo corredor.

Eu não entendia o motivo daquele ódio.

Não entendia o que havia feito de errado.

Era apenas uma menina tentando sentir falta da mãe sem ser castigada por isso.

Naquela noite, deitada na cama, fiquei pensando em Sofia.

Na forma como ela acreditou em mim.

Talvez eu finalmente tivesse uma amiga.

Talvez eu finalmente tivesse alguém para conversar.

Porque uma coisa estava ficando cada vez mais clara.

Paola não gostava de mim.

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