Mundo de ficçãoIniciar sessãoAngel
Eu não sabia que era possível estar tão cansada e ainda assim não conseguir dormir. A primeira noite na cama dele foi uma daquelas que eu gostaria de apagar da memória. Não só pelo que aconteceu, mas pelo que poderia ter acontecido. Eu deitei o mais longe que consegui. Ele me mandou deitar e eu obedeci porque não tinha opção. O colchão era macio demais, afundava sob o meu peso, os lençóis eram frios de tão lisos. Tudo ali gritava conforto, luxo, perfeição. Mas, pra mim, cada detalhe só lembrava que aquele não era o meu quarto, não era a minha cama, não era a minha vida. Damon deitou do outro lado, como se fosse a coisa mais natural do mundo ter uma mulher sequestrada dormindo ali. Eu virei de costas pra ele. Deitei de lado, encolhi as pernas, abracei o próprio corpo, como se meus braços pudessem me proteger de um homem que prendia pessoas como se fossem ações. Fechei os olhos. Tentei fingir que estava em outro lugar. No meu quarto, ouvindo minha mãe cantarolar algo. No sofá da sala, antes de tudo desandar. Em qualquer lugar, menos ali. Mas eu ouvia tudo. O som da roupa dele roçando no lençol. O movimento do colchão quando ele mudava de posição. A respiração firme, profunda, como se ele estivesse em paz. A mansão inteira ao redor. Não tinha barulho de carro, de vizinho, de rua. Só aquele quarto enorme, aquela cama gigante e nós dois jogados ali, como peças de um jogo que eu não escolhi. Eu virava pra um lado, pro outro, abria os olhos, encarava a escuridão, fechava de novo. Em algum momento, comecei a contar os segundos, depois os minutos, depois perdi a conta. Cada vez que eu começava a relaxar, lembrava onde estava, com quem estava, e o corpo inteiro se retesava de novo. Ele não falava nada. Não perguntava nada, não mandava eu ficar quieta, não ria, não provocava. Só estava ali. Presente. Real. Uma sombra pesada ocupando o outro lado da cama. A presença dele pesava mais do que qualquer cobertor. Em algum momento, o cansaço foi maior do que o medo. Os olhos ardiam tanto que começaram a fechar sozinhos. A mente já não conseguia acompanhar direito as voltas de preocupação. Meu corpo, traidor, começou a desligar. Apaguei. Quando acordei, por um instante, pensei que tudo tinha sido apenas um sonho ruim. A luz que entrava pelas frestas das cortinas tinha um tom suave, diferente da escuridão pesada da noite anterior. Meu corpo parecia mais solto, mais leve, como se eu finalmente tivesse conseguido descansar. Por alguns segundos, eu acreditei que estava no meu quarto. Na minha cama. Que tudo depois da morte da minha mãe tinha sido uma sequência de pesadelos horríveis, mas que, de alguma forma, a vida ia corrigir tudo. Pensei que meu pai não tinha afundado em álcool e drogas. Que Damon Laurent era só uma figura que minha mente criou pra dar forma aos meus medos. Mas a ilusão durou pouco. Eu senti. Um peso firme em volta da minha cintura. Um braço. Não o meu. O calor de um corpo colado às minhas costas, o peito dele encostado em mim, a respiração quente batendo na minha nuca. Eu conseguia sentir a textura do tecido da camisa dele, o cheiro do perfume misturado ao cheiro do quarto. Damon estava me abraçando. Como se fosse a coisa mais normal do mundo. Meu corpo congelou na mesma hora. Fiquei imóvel, como se qualquer movimento pudesse acordar algum monstro adormecido. Meu coração começou a bater tão forte que eu tinha certeza que ele poderia ouvir. Engoli em seco, tentando fazer o cérebro funcionar. Eu não lembrava de ter me mexido na noite. Não lembrava de ter deixado esse espaço entre a gente diminuir. Em algum momento, dormindo, meu corpo deve ter cedido, ou o dele se aproximado, ou os dois. A única coisa que eu sabia era que eu estava presa naquele abraço que eu não pedi. E não gostei nada disso. Senti o braço dele apertar um pouco mais, como se o corpo dele quisesse me puxar ainda mais pra perto. Antes que eu conseguisse pensar no que fazer, ouvi a voz dele, rouca de sono, bem perto do meu ouvido. — Você dorme inquieta. A voz dele percorreu minha espinha como um choque. Eu virei o rosto, o suficiente para vê-lo por cima do ombro. Os olhos dele estavam meio fechados, ainda pesados de sono, mas focados. E, pra piorar, havia algo parecido com… satisfação ali. Ele não me soltou. — Mas foi a melhor noite de sono que eu tive em anos. — completou, como se estivesse fazendo um simples comentário sobre o clima. Meu rosto queimou. De raiva, de vergonha, de tudo junto. Eu me soltei com toda a força que consegui juntar, me afastando dele, escorregando pro lado da cama até ficar quase na beirada, mas a mão não deixou minha cintura. — Me solta. — quase cuspi, a voz áspera. Ele recuou devagar, sem parecer minimamente ameaçado ou envergonhado. Apenas me observou, como se estivesse analisando a minha reação. Eu respirei fundo, tentando controlar o impulso de tacar o travesseiro nele. — Sabe o que é curioso? — ele continuou, como se nada estivesse errado. — Você é a primeira mulher que deitou nessa cama. E a primeira que conseguiu a proeza de me fazer dormir bem. Eu pisquei. Por um segundo, a raiva cedeu espaço para a surpresa. — O quê? — perguntei, confusa. — Você quer que eu ache isso o quê? Fofo? Eu ri, mas foi um riso seco, sem humor. — Eu só quero ir embora. — continuei. — Quero que me deixe ir, Damon. Me liberta. Me sentei na cama, puxando o lençol até a altura do peito, como se isso pudesse criar alguma barreira mínima entre nós. Meus dedos apertaram o tecido, brancos de tanta força. Ele não pareceu abalado pelas minhas palavras. — Ainda não. — respondeu, como quem nega um pedido de reunião sem importância. — Na verdade, eu tenho uma proposta pra você. Minha expressão fechou na hora. — Não quero nada de você. — atirei na mesma hora. Ele agiu como se eu não tivesse dito nada. — Um casamento por contrato. — falou, com a naturalidade de quem está tratando de negócios. — Três anos como minha esposa. Durante esses três anos, eu vou fazer de tudo para você se apaixonar por mim. Eu o encarei, incrédula. Depois, não consegui evitar, soltei uma risada curta, nervosa. — E se eu não aceitar? — perguntei, cruzando os braços. Ele sorriu. Era um sorriso calmo, tranquilo, quase bonito. O tipo de sorriso que, em outra realidade, poderia ser encantador. Ali, naquela cama, naquele contexto, só parecia perigoso. — Eu só costumo dar uma chance para o destino. — respondeu. Eu não precisei de um manual pra entender o recado. Engoli a seco. — Por que você me tirou da minha casa e meu pai não fez nada? — perguntei, sentindo um nó na garganta. Se havia alguma coisa que doía mais do que estar ali com ele, era saber que o homem que deveria ter me protegido não moveu um dedo pra impedir. Damon não hesitou. — Porque você é o pagamento da enorme dívida que o seu pai tinha comigo. — respondeu, direto. — Ele entregou você como forma de quitar a dívida. A frase entrou em mim como um tiro. Eu já suspeitava. No fundo, sempre soube que meu pai era capaz de afundar qualquer coisa. Mas ouvir aquilo em voz alta, assim, sem anestesia, foi diferente. Foi definitivo. Meu peito apertou de um jeito que doeu fisicamente. — Claro. — falei, mais para mim mesma. — Por que eu esperaria outra coisa? Olhei pra ele de novo, com os olhos ardendo. — E se eu não me apaixonar por você nesses três anos? — insisti. Ele não desviou o olhar um segundo sequer. — Então, quando o contrato terminar, eu devolvo sua liberdade. — disse. — E adiciono dez bilhões de dólares pra você recomeçar sua vida onde quiser, como quiser. Eu fiquei muda. Dez bilhões. O número ecoou na minha cabeça, repetidas vezes, como se alguém tivesse gritado dentro de um corredor vazio. Eu nunca tinha visto nem uma fração desse dinheiro de perto. Era mais do que meu pai já teve em qualquer época da vida. Mais do que eu imaginei ter em qualquer realidade. Dez bilhões significam independência absoluta. Nunca mais depender de um homem. Nunca mais ser moeda de troca. Nunca mais voltar pra nenhuma casa que não fosse minha. Nunca mais ver meu nome atrelado a dívidas que não criei. E era por isso mesmo que aquilo me corroeu por dentro. Porque uma parte de mim se viu tentada. E eu me odiei um pouco por isso. Eu não queria querer nada dele. Nem dinheiro. Nem proteção. Nem promessa. Mas era impossível ignorar o peso do que ele colocou na mesa. Ele se levantou da cama com a mesma calma com que tinha explicado tudo aquilo. Foi até o closet, pegou uma toalha, e começou a caminhar em direção ao banheiro, como se tivesse acabado de propor uma fusão de empresas qualquer. Parou na porta por um segundo e olhou por cima do ombro. — Você tem tempo pra pensar. — comentou. — Vou tomar banho e descer pra tomar café. Te dou quinze minutos pra descer também. E entrou no banheiro. A porta se fechou. O som da água do chuveiro começou a ecoar no quarto. Eu fiquei ali, sentada na cama que não era minha, com os lençóis que não eram meus, no quarto de um homem que não conhecia, mas que já tinha o poder de mudar toda a minha vida. Meu coração batia rápido. Minhas mãos suavam. Minha mente girava entre raiva, nojo, medo, ódio… e uma curiosidade perigosa sobre como seria uma vida onde eu não fosse prisioneira de ninguém. Olhei para a porta do banheiro fechada. Eu não tinha pedido pra jogar esse jogo. Mas, agora, ele estava em cima da mesa. E eu tinha pouco tempo para decidir qual seria o meu próximo movimento.






