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Vendida Para o Ceo Dominante
Vendida Para o Ceo Dominante
Por: Rosana Lyra
Capítulo 1 – Do paraíso ao inferno

Angel

Você já teve a sensação de que alguém apertou um botão invisível e, de um dia para o outro, sua vida deixou de ser sua?

É exatamente assim que tudo começa para mim.

Eu cresci em uma casa grande em um dos bairros mais caros de Boston, onde o frio do inverno parecia menos cortante porque dentro de casa sempre havia risos, música e cheiro de café fresco logo cedo. O barulho do trânsito distante nunca vencia a voz doce da minha mãe cantando pela casa.

Todas as manhãs eram iguais, e eu gostava disso.

— Angel, acorda, meu amor. — a voz dela vinha suave da porta do meu quarto. — O mundo não vai esperar você levantar.

Eu fingia que não ouvia, enfiando o rosto no travesseiro, mas o sorriso já estava ali, mesmo de olhos fechados. Descia as escadas sentindo o piso de madeira aquecido sob os pés, o aroma de panquecas se espalhando pelo ar, o jornal aberto diante do meu pai e o olhar apaixonado que ele sempre lançava para a minha mãe.

— Olha só, a dorminhoca apareceu. — ele dizia, baixando o jornal, os olhos castanhos brilhando de orgulho. — Minha princesa.

Era assim que eu me sentia, uma princesa. Não por causa do dinheiro, das viagens para a Europa, dos presentes caros em datas aleatórias. Mas porque meus pais faziam eu acreditar que o mundo era um lugar seguro, onde nada de realmente ruim podia acontecer.

Eu me lembro de uma tarde específica, estava sentada no jardim, as árvores balançando devagar com o vento, minha mãe deitada na rede com um livro nas mãos, o cheiro suave das rosas.

— Mãe, você acha que a gente vai ser assim pra sempre? — eu perguntei, olhando para o céu meio nublado.

Ela riu baixo, fechando o livro e voltando os olhos para mim.

— Assim como? — indagou.

— Feliz. — eu respondi, com uma inocência que hoje dói lembrar.

Minha mãe ficou calada por um instante, me observando como se quisesse gravar meu rosto na memória.

— A felicidade nunca é igual o tempo todo, filha. — ela respondeu, enfim. — Mas enquanto tivermos um ao outro, a gente sempre encontra o caminho de volta.

Naquele dia, eu acreditei sem questionar. Não passava pela minha cabeça que, em pouco tempo, essa frase se transformaria em uma promessa quebrada.

Foi tão rápido que pareceu cruel.

Eu não estava em casa quando aconteceu. Recebi a ligação no meio da aula, o número do telefone residencial da mansão piscando na tela do meu celular, o coração disparando sem motivo aparente. A voz do mordomo do outro lado era distante, quase mecânica. Ele falou de infarto fulminante, que nada poderia ser feito, que lamentava muito.

Depois disso, tudo ficou mudo.

Eu me lembro de entrar no quarto dos meus pais com as pernas bambas, as luzes brancas machucando meus olhos, o cheiro do perfume dela invadindo o peito. Lembro do corpo dela ali, imóvel, frio, sem a cor rosada nas bochechas. Lembro de segurar a mão que sempre foi tão quente e sentir apenas gelo.

— Mãe… mãezinha — minha voz quebrou no meio, um sussurro que se perdeu.

Meu pai estava ao meu lado, mas era como se não estivesse. Ele não chorou. Não na minha frente. Apenas ficou ali, parado, encarando o corpo da mulher que ele sempre disse amar mais do que qualquer coisa no mundo.

Quando tentei me aproximar dele, ele se afastou, como se o meu toque fosse demais.

— Pai... — eu o chamei, desesperada.

Ele respirou fundo, sem olhar para mim.

— Vai pro seu quarto, Angel.

— Eu não vou te deixar sozinho.

— Vai. — repetiu, e a forma como ele falou fez eu obedecer.

No velório, as pessoas me abraçavam e repetiam frases que soavam vazias:

— Ela está em um lugar melhor.

— Ela era uma mulher maravilhosa.

— Você precisa ser forte.

Eu tentava ser. Tentava ficar de pé, respirar, agradecer, responder alguma coisa. Mas por dentro, tudo que existia era um enorme buraco escuro. O pior não foi o dia do enterro. O pior foi o depois.

A casa nunca mais foi a mesma. O som da voz da minha mãe foi substituído pelo eco do nada. O cheiro de café fresco foi trocado pelo odor forte de bebida alcoólica. O jornal que meu pai lia todas as manhãs passou a ficar esquecido em cima da mesa, intocado.

No começo, eu achei que era só uma fase. Perda, luto, dor. Tudo isso leva tempo, não é? Eu tentava entender, justificava cada atitude dele. Quando o encontrei pela primeira vez com uma garrafa de uísque na mão às dez da manhã, tentei argumentar.

— Pai, não é assim que a mamãe ia querer que você lidasse com isso. — eu disse, segurando o copo para tirá-lo das mãos dele.

Ele puxou de volta com mais força do que eu esperava, os olhos vermelhos e cansados.

— Não diz pra mim o que sua mãe ia querer, Angel. — rosnou. — Ela não está aqui pra querer nada.

Eu engoli a resposta, o peito apertando.

Com o passar dos dias, o cheiro de bebida se tornou constante. O escritório que antes era um lugar organizado, cheio de pastas empilhadas e planejamentos de negócios, se transformou em um caos de papéis amassados, linhas de pó branco sobre a mesa de vidro, comprimidos espalhados.

Eu não queria acreditar no que via.

— Pai, o que é isso? — perguntei certa noite, a voz tremendo, ao entrar no escritório e sentir o cheiro ácido que queimou minhas narinas.

Ele riu, um som oco.

— Isso? Isso é o que sobra quando tiram tudo de você. — respondeu, inclinando a cabeça, os olhos dilatados.

— Você está se destruindo. — eu sussurrei, os olhos marejados. — E está destruindo o que a mamãe deixou.

Ele bateu a mão na mesa com tanta força que eu dei um pulo.

— Não fala dela. — gritou, apontando o dedo para mim. — Você não sabe o que é perder o amor da sua vida.

As palavras acertaram em cheio. Parte de mim quis gritar que eu sabia, sim. Que tinha perdido a minha mãe, a minha melhor amiga. Mas eu fiquei calada, porque, no fundo, entendi que o homem à minha frente não era mais o meu pai. Era um estranho vestindo o rosto dele.

Os dias se tornaram uma sequência de repetições cansativas.

Eu acordava, descia as escadas e encontrava copos sujos na sala, garrafas vazias pela metade, cortinas fechadas impedindo a luz de entrar. Em vez do jornal bem dobrado, caixas de pizza vazias e cinzeiros lotados.

As viagens foram canceladas, as reuniões importantes adiadas. A empresa que meu pai construiu com tanto esforço começou a ruir devagar, como um prédio que parece firme por fora, mas está todo rachado por dentro.

— Você precisa voltar pro escritório. — eu insisti, uma tarde, parando na porta do quarto dele. — As coisas estão fugindo do controle.

Ele virou o rosto no travesseiro, me ignorando.

— Não enche, Angel.

— Os funcionários que você colocou lá não são confiáveis. Eu ouvi a contabilidade comentar que…

Ele se ergueu de repente, os cabelos bagunçados, o rosto envelhecido de um jeito que não combinava com a idade.

— Você não manda em nada aqui. — cortou, com frieza. — Eu sou o dono dessa casa, daquela empresa... e da sua vida.

Eu senti o estômago revirar, mas não respondi. Só o observei voltar a deitar, como se o mundo lá fora não existisse, como se contas, contratos, prazos e responsabilidades fossem apenas palavras jogadas ao vento.

Eu tentei fazer o que podia. Tentei ir à empresa, falar com o setor financeiro, entender os relatórios. Mas, para eles, eu era apenas “a filha do chefe em crise”, alguém que não tinha um nome importante nos documentos, nem um cargo importante.

Percebi os olhares. A forma como escondiam papéis quando eu me aproximava. Sussurros cortados pela metade.

Uma vez, ao sair mais cedo de uma reunião, eu ouvi.

— Ela não faz ideia do rombo que está isso aqui. — um dos gerentes sussurrou, rindo baixo.

— Enquanto ele continuar pagando o nosso bônus, que se dane. — outro respondeu.

Eu engoli seco, a sensação de impotência subindo pela garganta.

As primeiras cartas de cobrança começaram a chegar em pouco tempo. Primeiro discretas, depois cada vez mais agressivas. Eu via os envelopes se acumulando na mesa da entrada, alguns sequer abertos.

— Pai, isso é sério. — eu insisti, segurando uma pilha de envelopes uma noite. — Tem bancos cobrando, fornecedores ameaçando processar você.

Ele pegou um dos envelopes, abriu, leu algumas linhas e então rasgou o papel, jogando os pedaços no ar como se fossem confete.

— Problema pro advogado. — respondeu, servindo-se de mais uísque. — Não pro meu copo.

Eu queria chorar. Queria pegar aquele homem pelos ombros e sacudi-lo até que voltasse a ser quem era. O pai que me ensinou a andar de bicicleta, que me buscava na escola, que esperava por mim na sala com filmes e pipoca.

Aquele homem sumiu junto com o caixão que desceu à terra.

À noite, o silêncio do meu quarto era o pior. Eu me encolhia na cama grande demais, abraçando o travesseiro como se ele pudesse preencher o vazio. Às vezes, pegava o celular e abria fotos antigas… minha mãe rindo na praia, meu pai com o braço em volta da gente, nós três na frente da casa, com neve cobrindo o telhado e a felicidade brilhando nos olhos.

O contraste do “antes” com o “agora” doía.

Eu comecei a ter a sensação constante de que algo grande estava prestes a acontecer. Não sabia o quê, mas sentia. Cheques eram devolvidos. Cartões, recusados. Ligações estranhas, em horários impróprios, que meu pai atendia trancado no escritório, falando baixo.

Eu me aproximava da porta, o ouvido colado na madeira, tentando entender.

— Eu já disse que vou resolver... — eu ouvi a voz dele certa noite, tensa, irritada. — Não, não vou discutir isso por telefone... eu vou dar um jeito... sim, eu tenho uma solução.

A palavra “solução” ficou ecoando na minha cabeça por dias. Eu não sabia, então, que essa “solução” tinha nome, rosto.

Naquele momento, a única coisa que eu sentia era a casa, antes tão cheia de vida, se transformando em um cenário abandonado. Um lugar onde lembranças e dívidas caminhavam lado a lado, empurrando-me para a beira de um precipício que eu ainda não conseguia enxergar.

Mas eu já vivia no inferno. Só ainda não sabia que tinha gente pior do que meu pai esperando por mim do lado de fora.

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