Mundo de ficçãoIniciar sessãoO motorista do Marcos me deixou de volta na porta da minha casa por volta das cinco da tarde. Minha cabeça parecia uma panela de pressão prestes a explodir. Passei o resto do dia andado de um lado para o outro no meu quarto, encarando o vestido que separei em cima da cama. Jantar com o dono do morro. O cara de quem fugi na boate era agora a pessoa que assinaria meus contracheques, e que deixou bem claro que recusas não eram bem-vindas.
Às oito e meia, já arrumada em um vestido preto discreto e maquiagem leve, o telefone tocou. Não era o motorista. Era a voz grave do próprio Marcos. — Doutora? Está pronta? a voz dele veio calma, mas com aquela imponência costumeira. — Estou, Marcos. Você mandou o motorista? — Negativo. Estou na entrada da sua rua. Mas mudei os planos. Franzindo a testa, fui até a janela do quarto. Um SUV blindado e escuro estava estacionado a poucos metros da minha casa. — Mudou os planos? Como assim? O que aconteceu? — Tivemos um imprevisto na comunidade, o tom dele mudou, ficando mais rígido. Dona Maria, uma das moradoras mais antigas do morro, passou mal. Infarto ou edema de pulmão, não sei. A ambulância do Samu tá enrolando pra subir e ela não aguentaria a descida pro asfalto em um carro comum. Preciso de você agora, Maria Júlia. O jantar vai ter que esperar. O choque inicial deu lugar ao meu instinto de médica no mesmo segundo. A adrenalina subiu. — Estou descendo! Tem um kit de emergência no carro ou passo no posto primeiro? — Vamos direto pro posto pegar o equipamento e vamos pra casa dela. Desce logo. Corri pelas escadas, dei uma desculpa esfarrapada para os meus pais de que fora chamada para uma emergência de última hora no trabalho e saí. Entrei no carro e nem deu tempo de reparar no visual impecável do Marcos, que vestia uma camisa preta com as mangas dobradas até o cotovelo, ele já pisou fundo no acelerador. — O que ela está sentindo? perguntei, ajeitando o cinto enquanto o carro cortava o trânsito com velocidade. — Falta de ar aguda, dor no peito e suor frio — Marcos respondia sem tirar os olhos da rua. A filha me ligou chorando. Dona Maria viu esse morro nascer. É como uma mãe pra metade da comunidade. Não posso deixar essa mulher morrer por falta de socorro. Olhei para ele pelo perfil. O homem arrogante e frio que me ameaçou com o "silêncio do morro" horas atrás dava lugar a alguém genuinamente preocupado, com os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante. — Calma. Se for o que estou pensando, temos tempo se agirmos rápido,tentei tranquilizá-lo, surpresa com o meu próprio tom. — Só faz o seu trabalho, doutora. Do resto eu cuido. Chegamos à Rocinha em tempo recorde. Marcos nem esperou o carro parar direito; saltou e abriu a porta do posto com a chave que tinha. Ajudei a pegar o cilindro de oxigênio portátil, o estojo de primeiros socorros, o estetoscópio e as medicações injetáveis de urgência. Subimos a viela a passos largos, escoltados por dois dos seus homens que abriam caminho no meio da noite. A casa de Dona Maria era simples, repleta de porta-retratos nas paredes. A idosa estava no sofá, pálida, lábios arroxeados e lutando visivelmente para puxar o ar. A filha chorava copiosamente no canto da sala. — Afastem-se, me deem espaço! ordenei, me ajoelhando ao lado da senhora. Coloquei o estetoscópio no peito dela. Estertores crepitantes bilaterais. Pressão arterial lá no teto. Edema agudo de pulmão. — Marcos, segura ela inclinada pra mim! Preciso do cilindro de oxigênio agora! pedi, sem pedir licença ou usar o tom formal. Para minha surpresa, o "dono do morro" não hesitou. Ele se ajoelhou no chão sem se importar em sujar a calça cara, passou o braço forte pelas costas de Dona Maria e a manteve erguida com extrema delicadeza. — Calma, Dona Maria. A doutora tá aqui. A senhora vai ficar bem, Marcos murmurava no ouvido da idosa, com uma voz tão suave que parecia outra pessoa. Preparei a medicação, apliquei o diurético na veia da senhora e ajustei a máscara de oxigênio em seu rosto. Monitorei os batimentos, segurando o pulso fraco da idosa enquanto olhava o relógio. Os minutos mais longos da minha vida se passaram naquele cômodo abafado. Aos poucos, a respiração de Dona Maria foi ficando menos ruidosa. A cor foi voltando às suas bochechas e a saturação estabilizou. — Ela tá melhorando... meu Deus, ela tá respirando melhor! a filha exclamou, caindo no choro de alívio. — A crise principal passou, soltei um suspiro profundo, limpando o suor da minha testa com as costas da mão. — Ela precisa ir para um hospital amanhã para ajustar os remédios do coração, mas o risco imediato acabou. Marcos olhou para a idosa, depois lentamente levantou os olhos para mim. Havia um brilho diferente no olhar dele, uma mistura de admiração, surpresa e algo mais profundo que fez meu peito dar uma volta. Ele se levantou, ajudou a acomodar a senhora no quarto e deixou um dos seus homens encarregado de vigiar a porta e conseguir a medicação que receitei. Quando saímos da casa, a brisa fria da noite no morro atingiu nossos rostos. Caminhamos em silêncio até a varanda do escritório dele no topo da comunidade. Ele abriu a porta, pegou duas garrafas de água no mini-bar e me entregou uma. — Você foi incrível lá dentro, ele disse, me encarando de frente. O tom sarcástico da manhã tinha desaparecido completamente. — É o meu trabalho, respondi, dando um gole na água. — Mas admito que fiquei impressionada. Não esperava ver o "chefe" se sujando no chão pra segurar uma idosa. Marcos encostou na mureta da varanda, olhando as luzes da favela lá embaixo. — Eu te disse, Maria Júlia. Essa comunidade não é só negócio pra mim. Essa gente é a minha responsabilidade. Se eu não cuidar deles, ninguém cuida. O asfalto caga pra cá. Olhei para ele, percebendo a camada de complexidade daquele homem. Ele era perigoso, sim. Era o líder de um império ilegal. Mas ali, sob a luz da lua, vi um homem carregando um peso descomunal nas costas. Ele se virou para mim, diminuindo a distância entre nós até que eu pudesse sentir o calor do seu corpo. — E você... acabou de salvar a mulher que me viu crescer, a voz dele baixou um tom, ficando densa, viciante. — Acho que o nosso jantar improvisado vai ter que ser aqui mesmo. O que me diz de um pastel da feira e uma cerveja fria? Dei uma risada fraca, balançando a cabeça. O pavor que senti de manhã tinha se dissipado, dando lugar a uma atração perigosa. — Pastel e cerveja? Pra quem prometeu um jantar de gala pra compensar o perdido... tá meio fraco, Marcos. Ele deu um passo a mais, a mão subindo devagar até a minha cintura, a mesma pegada firme e quente da boate. — Eu posso te dar o restaurante mais caro do Rio amanhã, doutora, ele murmurou, o olhar fixo na minha boca. — Mas hoje, eu só quero celebrar que a médica mais audaciosa que já conheci está do meu lado. Meu coração disparou. A razão mandava eu recuar, mas meus pés continuaram cravados no chão quando o rosto dele se aproximou do meu.






