Capítulo 2

 Esmeralda não pôde evitar percorrer com os olhos aquele corpo escultural; uma chama se acendeu dentro de si. Talvez fosse por conta dos hormônios da gravidez, pois nunca havia sentido uma atração tão instantânea por um homem.

— Não vai falar nada? —  insistiu ele.

— Me desculpe.

— Ah, então você sabe falar... Mas “me desculpe” não é suficiente. Ninguém te ensinou a olhar para os dois lados da rua antes de atravessar?

 Ela arregalou os olhos, envergonhada. Por alguma razão, quanto mais o homem gritava com ela, mais aquilo a excitava.

Um carro passou e buzinou. Esmeralda se virou ao perceber que era para ela.

— Ai, gatinha, eu ofereço o dobro do que ele para você me alegrar hoje — disse o sujeito ao volante.

 Esmeralda trincou a mandíbula e fechou os punhos; quem aquele idiota pensava ser para tratá-la como uma prostituta?

O homem de olhos azuis, que há pouco a repreendia, se colocou à frente dela.

— Vá embora — falou com autoridade.

— Ou o quê? Você sabe como essas vadias são: quem der o maior lance ganha —  o cretino ainda sorriu.

O estômago de Esmeralda se contorceu ao ouvir aquilo. Deu um passo à frente para enfrentá-lo, mas o homem de olhos frios ergueu os braços, impedindo-a.

— Entre no carro —  ordenou.

 Esmeralda estreitou os olhos. Quando percebeu o olhar do homem sobre suas roupas, entendeu o motivo de estar naquela situação: estava seminua na rua. Usava apenas um robe por cima da lingerie ousada e um salto preto de sola vermelha.  Sair assim, com o batom rosa nos lábios, inevitavelmente chamaria atenção. Suas bochechas ficaram tão vermelhas que pareciam pegar fogo.

 Puxou a mala e correu em direção ao banco do passageiro, mas antes de entrar olhou para o carro do babaca. No banco de trás, com o vidro abaixado, alguém apontava uma câmera para ela.

 Nesse instante, compreendeu tudo: o motorista e o homem escondido atrás da lente eram parte de uma armadilha. O fotógrafo trabalhava para uma revista de fofoca.

Furiosa, largou a mala e correu em direção a ele, tentando arrancar a câmera de suas mãos.

— Me dê isso agora! Quem você pensa que é para achar que tem o direito de tirar essas fotos?

 Só então reconheceu o rosto do cretino. Conhecia-o muito bem: fazia anos que a perseguia, tirando fotos e publicando mentiras em um site de fofoca. Graças a isso, havia conseguido emprego em uma revista.

 O sangue de Esmeralda ferveu ainda mais; apertou os dentes até sentir dor. Estava tomada por tanta raiva que desejava descontar toda a fúria naquele sujeito arrogante, com seus óculos grossos, sorriso debochado e barba por fazer.

— Olá, patricinha, sentiu saudades? —  ousou dizer o fotógrafo.

— Me dê a câmera –  ordenou, sem paciência alguma.

 O homem de olhos azuis interrompeu a discussão com o motorista, abriu a porta do carro e puxou o fotógrafo com tanta facilidade que parecia não pesar mais do que uma pena.

 Agradeceu aos céus por ter aquele anjo de olhos azuis ao seu lado; pelo que parecia, o homem gostava de ser herói e salvar donzelas em perigo.

Seu salvador tomou a câmera das mãos do fotógrafo e o empurrou para longe.

— O que pensa que está fazendo, seu idiota? Sabe quanto custa uma câmera dessas?

 O homem de olhos azuis não se abalou. Abriu a câmera, retirou o cartão de memória, guardou-o no bolso e devolveu o equipamento.

— Fora essa, você tirou mais alguma foto? —  perguntou com firmeza.

— Só estou fazendo o meu trabalho, cara — defendeu-se o fotógrafo.

— Trabalho? Isso é um trabalho de merda, inventando mentiras, se aproveitando da vida das pessoas e destruindo-as. Você deveria ter vergonha do que faz — disparou Esmeralda.

O fotógrafo sorriu de forma debochada.

— E o que você sabe sobre trabalho, princesinha? Cresceu em berço de ouro, tudo o que tem não é seu, foi dado pelos seus pais. Nunca soube o que é sofrer para ganhar um salário mínimo.

— Você ainda se orgulha do que faz? Não sente nenhum peso na consciência pelo que fez com a minha irmã? —  Esmeralda se aproximou e o empurrou, já alterada. Fazia anos que sonhava em socar a cara daquele traste. Talvez aquele fosse o momento de realizar esse desejo.

— Se não fosse você, talvez ela ainda estivesse aqui.

 A última frase lhe deu um nó na garganta. Tentou segurar as lágrimas, mas elas insistiam em cair. Não sabia ao certo o que havia no olhar do homem: pena, remorso ou apenas indiferença.

— Fiz apenas o meu trabalho. Você sabe que não tem mais direito à privacidade desde que nasceu; já deveria estar acostumada com isso.

 Aquilo já estava indo longe demais. O ódio que Esmeralda nutria por aquele homem só crescia em seu peito. Apertou o punho, pronta para socar sua cara. Nem mesmo o som das buzinas e das cantadas dos motoristas ao redor tiraram sua atenção. Porém, outra pessoa foi mais rápida.

 O homem de olhos azuis voltou a bancar o herói e acertou um soco no fotógrafo. Desta vez, Esmeralda não sentiu gratidão: ele havia roubado o momento que ela desejava há muito tempo.

 Ainda assim, sentiu-se vitoriosa ao ouvir o grito de dor do fotógrafo e ver seu nariz jorrando sangue.

— Vá embora e não volte a procurá-la —  ordenou o herói de olhos azuis.

— Você vai se arrepender por isso, cara — retrucou o fotógrafo.

— Se eu souber que alguma foto foi tirada deste dia, vou fazer picadinho de você. Está entendido? —  disse o homem, enquanto o puxava pela gola da blusa polo.

 O fotógrafo lançou um olhar assustado e, ao ser solto, correu para dentro do carro. Pediu ao motorista que saísse dali o mais rápido possível. O som dos pneus cantando e das buzinas dos outros motoristas, irritados por terem avançado o sinal vermelho, ecoou pela rua.

— Você está bem? —  perguntou o homem, tocando suas mãos, que só então ela percebeu estarem trêmulas.

 Esmeralda enxugou as lágrimas e acenou com a cabeça, confirmando.

 O som de outra buzina chamou a atenção dos dois. Mais uma vez, ela se deu conta do estado em que estava e olhou para suas roupas — ou melhor, para a falta delas.

— Entre no carro, será melhor.

— Eu não deveria entrar no carro de um estranho — murmurou, engolindo em seco.

 Já havia passado por coisas demais naquela noite, tudo consequência de seus atos irresponsáveis. Novamente se pegou pensando: se tivesse escutado seus pais, nada disso teria acontecido. Ao menos quanto a Vinícius, eles estavam certos.

— Depois de tudo o que passamos juntos em menos de meia hora, você ainda acredita que eu poderia te fazer algum mal?

 Ela respirou fundo. Não tinha outra escolha naquele momento. Ao encarar aqueles olhos azuis, mesmo que parecessem tão frios quanto o gelo, sentiu-se protegida ao lado dele — por mais que fossem completos estranhos.

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