Mundo de ficçãoIniciar sessãoCarl entrou na rodovia sem diminuir a velocidade. Lucy apertava o banco com tanta força que os dedos começavam a doer. Ele voltou os olhos para ela. O peito subia e descia depressa, o medo estava estampado em seu rosto. Sem dizer nada, tirou o pé do acelerador e pisou no freio.
Nada.
Franziu a testa e pisou outra vez.
Nada.
Olhou rapidamente para o painel.
— Carl... por favor, diminua a velocidade. Não precisa fazer isso assim.
Ele não respondeu. Voltou a pressionar o pedal com mais força. O carro continuava acelerado e a curva já estava logo à frente.
Lucy começou a chorar.
— Carl... para, por favor!
Foi então que ela viu a expressão dele mudar.
— Estou tentando... tem alguma coisa errada com o carro.
A voz saiu baixa.
Quase no mesmo instante uma buzina ensurdecedora explodiu ao lado deles.
Carl girou o volante por instinto, desviando de um caminhão. O carro atravessou o acostamento e os pneus começaram a trepidar violentamente sobre o cascalho. Toda a cabine vibrava. As pedras batiam na lataria enquanto o carro descia a ribanceira em alta velocidade. O volante sacudia em suas mãos, mas ele ainda tentava mantê-lo reto.
— Carl!
— Segure-se!
A dianteira bateu contra uma pedra.
O carro levantou do chão.
Por um instante, o volante simplesmente desapareceu das mãos de Carl.
Depois veio o primeiro impacto.
O carro começou a girar.
Seu corpo, sem o cinto, foi lançado dentro da cabine como uma bola solta. O peito bateu contra o volante, depois contra a porta. Vidros explodiram. O airbag abriu diante dele. O cheiro do pó invadiu suas narinas. Entre um impacto e outro tentou encontrar Lucy. Esticou a mão.
— Lucy!
Não alcançou nada.
O carro voltou a bater no chão, girou outra vez, despencando ribanceira abaixo.
Lucy sentia o cinto esmagar sua clavícula a cada impacto. A dor atravessava o ombro. O airbag pressionava seu rosto, dificultando a respiração. Tudo girava rápido demais. O gosto ferruginoso do sangue subiu à boca.
Então veio o último estrondo.
O carro estremeceu uma última vez.
Parou.
O silêncio pareceu ensurdecedor.
O carro parou.
Lucy abriu os olhos imediatamente.
Estava de cabeça para baixo.
Soltou o cinto e caiu sobre os cacos de vidro espalhados pelo teto do carro.
O peito queimava a cada respiração.
Virou o rosto.
Carl permanecia imóvel ao seu lado.
Havia sangue escorrendo por sua testa.
— Carl...
Nenhuma resposta.
Lucy estendeu a mão entre os estilhaços de vidro, a terra e os galhos que haviam invadido a cabine. Encontrou o celular.
A tela estava completamente trincada.
Seus dedos tremiam.
Mesmo assim conseguiu fazer a ligação.
— Lucy?
Era Jessi.
Lucy puxou o ar com dificuldade.
— Acidente... me ajuda...
Com o último esforço, Lucy tocou na opção de compartilhar a localização.
O celular escorregou de seus dedos.
A dor tomou conta de todo o seu corpo. Puxou o ar devagar e mergulhou na escuridão.
Carl tentava abrir os olhos. A última lembrança era dos olhos apavorados de Lucy chamando por ele. Fez força, as pálpebras finalmente cederam, mas a claridade o obrigou a fechá-las outra vez. Piscou várias vezes até conseguir enxergar.
O peito queimava. A garganta estava seca. Um bip ritmado soava sem parar ao seu lado. Tentou mover o braço para arrancar aquilo, mas ele mal respondeu.
— Calma.
Carl virou lentamente a cabeça.
Will estava em pé ao lado da cama. Sorria ao vê-lo acordar, mas os cabelos despenteados e os olhos vermelhos mostravam que não dormia havia muito tempo.
A lembrança voltou inteira.
O acidente.
Lucy.
Seu olhar percorreu o quarto.
— Lucy?
A voz saiu rouca, quase um sussurro.
Will não respondeu.
Carl voltou a procurá-la com os olhos.
— Onde está a Lucy?
— Fique quieto. O médico já está vindo. Você está dormindo há quase uma semana.
Carl tentou se levantar. A dor atravessou seu peito, mas ele insistiu. Will o segurou pelos ombros, impedindo-o.
Nesse instante a porta se abriu.
Carl voltou a cabeça rapidamente. Por um segundo acreditou que fosse Lucy.
Era Olivia, acompanhada por um médico e uma enfermeira.
A esperança desapareceu de seu rosto.
— Me deixem... eu estou bem. Onde está a Lucy?
Tentou arrancar os equipos presos ao braço. A agulha saiu da veia e o sangue começou a escorrer.
A enfermeira correu para segurá-lo.
— Senhor Whitmore, acalme-se! O senhor acabou de sair de um coma de sete dias. Pode abrir os pontos e piorar seu estado.
Carl nem parecia ouvi-la.
Seus olhos continuavam presos em Will.
— Will... onde está a Lucy?
Respirou com dificuldade.
— Ela foi embora? Mesmo comigo assim? Como ela pôde...
Will lançou um rápido olhar para Olivia, que permanecia parada junto à porta.
— Nos deixem a sós.
O médico fez sinal para a enfermeira sair.
Olivia ainda hesitou.
— Senhor Mercer, talvez...
Will apenas a encarou.
Ela baixou a cabeça e deixou o quarto.
Assim que a porta se fechou, Carl voltou a falar.
— Onde ela está? Eu vou buscá-la.
— Você não pode.
— Como não posso?
— Lucy se foi.
Carl balançou a cabeça imediatamente.
— Não... ela foi embora. Eu encontro a Lucy. Eu trabalho com tecnologia, Will. Tenho contatos. Ela não pode ter ido longe. Ela deixou tudo... não quis nada. Nem um centavo.
Will passou a mão pelo rosto.
— É... ela não levou.
Respirou fundo antes de continuar.
— Se você seguir as orientações dos médicos e receber alta... eu levo você até ela.
Carl talvez pense que fui embora no dia do acidente. Mas não foi naquele dia que eu parti. Eu já tinha ido embora muito antes, aos poucos, em cada promessa adiada, em cada desculpa esfarrapada, em cada tentativa de me convencer de que eu estava exigindo demais por querer o mínimo.
E sabe o pior? Às vezes eu acreditava. Achava mesmo que era eu quem estava errada. No começo eu brigava, chorava, discutia. Depois me sentia culpada. Pedia desculpas por cobrar coisas que jamais deveriam precisar ser cobradas. Carl tinha esse dom. Fazia parecer que eu era a intransigente da história, a orgulhosa, a mesquinha, a mulher que nunca estava satisfeita.
Hoje eu sei que não era assim. Mas demorei cinco anos para entender. Então... deixa eu lhe contar como tudo começou.







