Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu era uma garota simples, nascida e criada no Kansas. Sonhava em conhecer Nova York e, quem sabe um dia, morar lá. Quando eu e minha melhor amiga, Jessi, fomos aprovadas na faculdade, deixamos a casa dos nossos pais e seguimos atrás desse sonho.
Enquanto cursava Administração, meu pai faleceu. Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. Sem a ajuda dele, eu não tinha como continuar pagando os estudos e precisei conseguir uma bolsa para permanecer na universidade.
Foi Will quem me deu essa oportunidade. Mesmo eu não sendo estudante de Direito, ele me aceitou no escritório jurídico da faculdade. Foi lá que conheci Carl.
Ele era veterano, brilhante e completamente apaixonado por tecnologia. Will nos apresentou e, pouco tempo depois, Carl me convidou para participar de um projeto que estava desenvolvendo na faculdade.
Foi assim que tudo começou.
Carl aparecia todos os dias em seu carro preto, sempre de camisa social com as mangas dobradas até os antebraços e um pequeno buquê de margaridas nas mãos. Eu adorava margaridas.
Nós nos apaixonamos, nos casamos e fundamos nossa empresa. Carl entrou com o dinheiro. Eu entrei com ele no trabalho. Durante estes dois anos fomos os primeiros a chegar e os últimos a sair. Cada contrato conquistado parecia uma vitória nossa. Em menos de dois anos, a empresa já era conhecida pelos equipamentos de ponta, pelos projetos impecáveis e pelos programas que funcionavam como relógios suíços. Eu tinha orgulho de fazer parte de tudo aquilo e sonhava em assumir o departamento de Administração que ajudara a construir.
Dois anos de empresa. Dois anos de casamento.
Era o nosso aniversário.
Eu estava animada. Planejei aquele jantar durante dias para que tudo fosse perfeito. Arrumei a mesa à luz de velas, preparei os pratos de que Carl mais gostava, comprei um vestido novo, uma lingerie nova e esperei.
Quando Carl chegou, a casa estava escura. Já não havia mais velas.
Entrou com o paletó jogado sobre o braço e a gravata afrouxada. Acendeu a luz e parou por um instante ao me ver sentada sozinha no sofá.
Trazia o cheiro de vinho.
— Eu... esqueci completamente, Lucy. Uns amigos da minha família voltaram para a cidade depois de anos. Me chamaram para jantar e... fiquei sem jeito de recusar. Acabei esquecendo.
Caminhou até mim e tocou meus ombros com delicadeza.
— Você não se deu nem ao trabalho de ligar, Carl. Era o nosso aniversário de casamento. Eu esperei por você a noite inteira enquanto você jantava com outras pessoas... e eu fiquei aqui, sozinha.
Ele abaixou a cabeça por um instante.
— Eu sinto muito. Podemos comemorar amanhã.
Balancei a cabeça.
— Amanhã não é o nosso aniversário. Eu preparei tudo hoje. Fiz os pratos de que você gosta...
Minha voz falhou antes de terminar a frase.
— Amanhã nós vamos a um restaurante. Você escolhe o lugar.
Sorriu, como se aquilo resolvesse tudo.
— Vamos, Lucy. Seja compreensiva. Eu não os via havia anos. Nós estamos juntos todos os dias.
Foi então que me virei para ele.
— Não.
Esperei alguns segundos antes de continuar.
— Você não esteve aqui hoje.
Entrei no quarto sem dizer mais nada.
Deitei-me de costas para a porta e senti sua mão tocar minha cintura.
Não me movi.
As lágrimas continuavam escorrendo silenciosamente pelo meu rosto.
No dia seguinte, levantei cedo como fazia todas as manhãs. Preparei o café e esperei que ele descesse.
Carl passou apressado pela cozinha. Roubou um pedaço do meu pão, tomou um gole do café da própria xícara, beijou minha testa e saiu dizendo que estava atrasado para uma reunião.
Não voltou a falar sobre o nosso aniversário.
Na hora do almoço, a campainha tocou.
Era um entregador.
Nas mãos dele havia um buquê de margaridas e uma pequena caixa de veludo.
Dentro dela, uma pulseira de ouro.
Um cartão dizia apenas:
"Desculpe. Prometo compensar você. Eu te amo. — Carl."
Sorri e guardei a pulseira.
Foi a primeira de muitas.
Dias depois eu aguardava ansiosa o resultado da seleção para o cargo de diretora administrativa.
Eu estava ansiosa e não era a única.
Toda a minha equipe aguardava aquela reunião com a mesma expectativa. O chefe do departamento de Administração estava deixando a empresa, e Carl havia aberto um processo interno para escolher quem assumiria o cargo.
Eu poderia simplesmente esperar que ele me colocasse ali por ser sua esposa, mas não era isso que eu queria. Queria conquistar aquela posição pelo meu trabalho. Queria que olhassem para mim e enxergassem minha competência, não o sobrenome que eu carregava.
Trabalhei duro. Minha equipe acompanhou cada noite mal dormida, cada alteração no projeto e cada ideia que surgia de madrugada. Estávamos tão confiantes que eu já havia prometido pagar o jantar de comemoração.
Naquela manhã acordei antes de Carl. Tomei um banho demorado, vesti meu melhor tailleur, revisei mais uma vez a apresentação e seguimos juntos para a empresa.
— Você parece ansiosa. — Carl comentou enquanto dirigia.
Sorri.
— E estou. Trabalhei muito nesse projeto, mas estou confiante.
Ele lançou um rápido olhar para mim.
— Eu vi o seu projeto. Está muito bom.
Então ele voltou os olhos para a estrada.
— Sabe... a empresa cresceu muito. Nossa casa é grande, nossa vida é confortável. Você não precisa virar noites trabalhando em projetos. Temos uma equipe excelente para isso.
Olhei para ele sem entender.
— Eu gosto do meu trabalho, Carl.
Ele apenas sorriu.
Naquele momento, eu ainda não compreendia o que aquelas palavras realmente significavam.
Quando passei pelo corredor, havia um burburinho diferente do habitual, mas não dei importância. Entrei na minha sala com o projeto nas mãos.
Havia meses que eu me dedicava àquele projeto. Trabalhava nele nas horas vagas, entre o expediente na empresa, os cuidados com a casa e o tempo que tentava reservar para Carl. Muitas vezes ele adormecia e eu me levantava novamente, voltava para o computador na sala e passava horas revisando números e estratégias para não correr o risco de acordá-lo.
— Lucy, não esqueça da promessa do jantar! — gritou um dos rapazes da equipe.
Sorri.
— Claro que não.
— Nem vou almoçar hoje. Quero guardar espaço para comemorar. — brincou outra colega, colocando uma xícara de café sobre a minha mesa.
Eu ri.
Tinha orgulho daquela equipe. Eram bons profissionais e, de alguma forma, eu sentia que também eram um pouco meus. Mesmo assumindo a diretoria, continuaria por perto sempre que precisassem.
Pouco antes das dez, todos os chefes de departamento e os quatro candidatos ao cargo foram chamados para a sala de reuniões. Dos muitos projetos enviados, apenas quatro haviam sido selecionados.
Na etapa final restavam apenas dois. O meu e o de Olivia.
Até aquele momento, eu mal sabia quem ela era.
Entrei na sala e me sentei na cadeira reservada para mim, a quinta do lado esquerdo da mesa. Poucos segundos depois, Olivia entrou.
Vestia uma saia lápis vinho, uma camisa branca de tecido fino e saltos altos. Sentou-se na primeira cadeira à direita. Ao lado de Carl.
Não dei importância, naquele momento, a única coisa que me interessava era ouvir o resultado.
Carl levantou-se.
— Recebemos excelentes projetos. Quatro chegaram à fase final e, entre eles, dois realmente chamaram nossa atenção.
Olhou rapidamente para mim antes de continuar.
— Quero deixar claro que os dois projetos são excelentes. A decisão foi tomada levando em consideração um conjunto de fatores.
Senti minhas mãos suarem.
Prendi uma na outra sobre o colo.
Então ele sorriu.
— Olivia ficará com o cargo de diretora do departamento de Administração.







