01. Uma única coisa a fazer – Parte 1
Carolina
— Por que não há um sorriso em seu rosto? Finalmente estamos nos divorciando — diz ele.
Faz três meses desde que meu pai morreu e que Thiago negociou com a família Garcia da Silva para evitar qualquer retaliação pelo acidente que deixou seu único herdeiro gravemente ferido.
Ele está em coma desde então. Tudo o que sei é que seu nome é Gael.
Estou sendo negociada como a peça que deve morrer com ele, mas essa é toda a informação que me concedem. Não se interessam nem um pouco por mim; tudo o que querem é garantir que haja alguma justiça pela morte do rapaz, ainda que ele não tenha sido oficialmente declarado morto.
— Fale — ordena, notando meu silêncio.
— Você está me vendendo para eles. Sabe que estão furiosos comigo, não tem ideia do que vão fazer com a minha vida, mas isso não importa, porque, ao me entregar a eles, garante sua própria segurança — declaro, recebendo em troca um sorriso satisfeito.
— Sempre gostei da sua inteligência, Carolina. Me admira que não pensem em usá-la. Por que apenas deixá-la morrer? — zomba, completamente alheio ao meu destino. O que acontecerá comigo não lhe interessa, desde que seu negócio continue intacto.
Para ele, entregar minha vida é um preço baixo demais.
— Agradeça pela liberdade que tanto queria — diz, como se eu não estivesse presa às correntes que ele mesmo impôs. Para garantir que eu não fugisse do acordo com os Costa, ele mantém minha mãe sob sua vigilância.
Se eu tentar escapar, ele a matará. Depois, caçará e se livrará de mim também. Entretanto, como já considera que serei morta por eles, apenas aguarda o desenrolar dos fatos.
— Não toque na minha mãe depois que eu partir. Farei o que está pedindo — asseguro.
Ele até me permitiu vê-la novamente, apenas para se certificar de que meu coração continuará seguindo suas regras. Quer que eu seja seu cachorro fiel até o fim — e essa é a única maneira de salvar minha mãe. Conheço Thiago. Ele nunca blefa. Mataria minha mãe sem hesitar se percebesse qualquer tentativa minha de acabar com esse acordo.
— Se não me apunhalar pelas costas, não terei motivos para continuar vigiando sua mãe — afirma.
Gostaria de acreditar nele, mas não posso.
Thiago só faz aquilo que lhe garante resultados. No momento, eu ainda sou sua moeda de troca. Mordo o lábio com força, sentindo o gosto ferroso do sangue. Choro por dentro, sabendo que minhas escolhas continuam não me pertencendo.
— Todos continuaremos livres se você for uma boa menina — diz, satisfeito ao perceber que não posso retrucar.
O silêncio se instala entre nós.
Os Costa estavam furiosos com a demora do divórcio. Queriam me casar com seu filho o mais rápido possível, antes que seu cérebro morresse. Não nutriam qualquer esperança de que ele acordasse e eu sequer sabia se esse casamento forçado era legal em qualquer instância.
Mal olham para mim enquanto ordenam que eu seja preparada para a cerimônia.
Não entendo a necessidade de um casamento se o noivo nem sequer estará presente, mas tudo o que posso fazer é obedecer.
Se Thiago suspeitar que estou tentando impedir essa união, eu serei morta. E não serei a única. Não posso permitir que ele faça algo contra minha mãe.
Não consigo chorar. Nem mesmo ao perceber que estou caminhando em direção à morte, consigo chorar.
Thiago fez questão de me contar os boatos sobre os Costa. Dizem que já fizeram parte da máfia. Por isso, não hesitariam em me matar para me enterrar junto com seu herdeiro. Nem precisariam sujar as mãos de sangue.
— Meu Deus! — grita a mulher que verifica meu corpo, levando a mão à boca.
Minhas costas estão cobertas de cicatrizes. Deve ser horrível de olhar.
— O que...
— Melhor não comentar nada sobre isso com ninguém. Nem um pio — corto, usando o tom mais ameaçador que consigo.
Não preciso que isso se torne mais um item na minha coleção de desgraças.
Se vou morrer, que pelo menos seja de forma plácida.
— Se puder me ajudar com o vestido — peço.
Ela continua me encarando, como se tentasse processar o que viu, mas finalmente percebe que precisa se mexer antes que alguém a repreenda pelo atraso.
Meu vestido é lindo. Tão bonito que chega a ser cruel. O branco puro do tecido parece zombar de mim, como se eu fosse uma noiva de verdade, como se esse casamento fosse algo além de uma sentença. A renda delicada abraça meu corpo, desenhando flores que mais se parecem com espinhos cravados na minha pele. A saia esvoaçante deveria me fazer sentir leve, mas só pesa, como se carregasse cada erro que me trouxe até aqui. As pérolas bordadas brilham sob a luz fraca, um brilho que não me pertence, que não reflete nada além da minha própria ruína. Eu já me vesti assim antes, já caminhei até um altar acreditando que minha vida mudaria. Agora, faço isso de novo, mas sem ilusões. Desta vez, sei exatamente para onde estou indo.
— Nunca pensei que me casaria novamente — murmuro.
Ela me ouve.
— Sabia que o casamento pode ser um portal para o inferno? — pergunto.
Se vou morrer, não preciso me preocupar se ela me acha louca.
Se eu fizer minha parte e deixar este mundo, a segurança da minha mãe estará garantida. Não precisarei me preocupar de novo. Não levarei mais surras por palavras insubordinadas.
Tudo o que preciso fazer é caminhar até algumas pessoas e assinar alguns papéis. Apenas isso. E minha vida estará entregue a um novo dono.
Talvez eu tenha sorte de ele não poder usar a força para me machucar também.
A cabeleireira leva alguns minutos para arrumar meu cabelo. A mulher que me viu nua não sai mais do meu lado, como se quisesse garantir que eu não desmorone diante de todos.
Mas mesmo que quisesse, não posso deixar isso acontecer. Tenho que manter minha pose.
Se consegui fingir por um ano e seis meses que amava um escroto, por que não conseguiria caminhar em direção a um novo acordo matrimonial?
O tempo não foi longo. Nem os passos, muitos.
Os Costa permaneceram de um lado da pequena capela. Do outro, Thiago fez questão de aparecer, sem se importar com os comentários que surgiriam por sua presença.
Trouxe sua amante e a exibe com orgulho.
Não só isso: trouxe também sua família para que todos soubessem que eles apoiavam seu novo relacionamento.
Não sinto raiva ao olhar para ela. Nem ressentimento. Apenas desejo que tenha mais sorte do que eu.
Duvido que seja possível.
Minha assinatura nunca foi feita com tanto ódio.
Não por Thiago.
Não pelos Costa.
Mas por mim.
Mais uma vez, estou me empurrando para uma situação da qual não posso escapar, tudo porque tomei uma decisão errada lá atrás.
Estava tudo acabado.
E, ao mesmo tempo, apenas começando