Um amor para a vida
Um amor para a vida
Por: T. Amarães
Capitulo 1

Liz

Eu estava dormindo, era uma madrugada de quarta-feira, dia 28 de fevereiro, quando fui acordada.

Lúcia e Maria, ambas dormiam no dormitório ao lado. Elas sempre vinham para meu quarto quando sentiam medo, ou perdiam o sono. Elas são novas no internado e estão em fase de adaptação. Quando abri meus olhos e as vi, acendi a luminária do quarto e disse:

- O que aconteceu?

- Você precisa ver... – Disse Maria, me puxando pela mão e me levando até o corredor.

- O que aconteceu? – Disse eu me levantando e as seguindo. – Vocês duas estão me assustando. – Quando chegamos no corredor, vi todas as meninas fora da cama e olhando para a janela. – O que está acontecendo aqui? Vocês deveriam estar dormindo. – Lúcia apontou para a janela e disse:

- Chegou um carro na escola. – Isso realmente era novo. A madre Maria não recebia ninguém sem hora agendada, e fora de hora... realmente deveria ser algo sério. Cheguei perto da janela e vi um homem encostado no carro. No momento em que o vi, senti o meu corpo gelar... Respirei fundo...

- Melhor todas irem para a cama agora...

-AHhhh – disse todas juntas.

- Andem, não podemos ficar aqui. A madre vai nos castigar. – As meninas começaram a voltar para as suas camas e eu dei uma última olhada antes de voltar para o meu quarto, só para confirmar se aquilo era mesmo real.

Realmente era o segurança do meu pai. Fazia anos que eu não o via, mas era ele, com toda certeza. Deitei-me na cama e tentei dormir, mas a curiosidade começou a tomar conta de mim.

Meu pai August, me deixou aqui no internato quando eu tinha sete anos. Só veio me ver uma vez, quando eu tinha doze anos e quebrei o braço tentando pular o muro do internato. Mas ele veio somente para brigar comigo, e garantir que eu não fizesse de novo. Apanhei muito nesse dia...

Quando estava quase cochilando, ouvi alguém bater na porta e entrar:

- Senhorita Liz... senhorita... A madre está te chamando. – Eu abri os olhos e me levantei- Melhor você colocar o uniforme. – Disse a freira Teresa antes de sair do quarto. Me vesti e sai, a irmã Teresa estava me esperando do lado de fora do quarto.

- O que aconteceu?

- Ela vai falar com você! – Disse a irmã antes de sair andando a caminho da sala da madre. Bati na porta e esperei a liberação da entrada.

- Pode entrar Liz! – Disse a madre. Entrei e vi um homem de costas, olhando para a janela. – Sente-se. – O homem se virou, era meu pai. Trocamos um olhar de você está bem?! E ele ficou lá de pé. – Filha, o seu pai veio te buscar. Enfim chegou a hora de você ir para casa.

- Pai! – Disse eu, olhando para ela- O que o senhor pretende fazer comigo?

- Do que está falando? – Disse ele fingindo não saber do que eu falava.

- O senhor me trouxe aqui, segundo você era para me deixar segura. E agora vai me tirar daqui com qual intuito? – Ele me olhou e olhou para a madre, esperando que ela interferisse. – Quero a verdade!

- Tudo bem! – Disse meu pai – Você não é mais uma criança, e merece ouvir a verdade... – Ele respirou – Você vai se casar! – Disse ele – Não me pergunte com quem, na verdade com quem te escolher. Você vai para uma casa, lá os homens da máfia te conhecem e se gostarem de você, eles se casam.

- Eu não vou ir! Aqui é a minha casa...- Disse eu me levantando da cadeira e indo em direção a porta.

- Você não tem escolha... – Disse meu pai me pegando pelo braço. – A freira já foi arrumar suas coisas... Agora é quatro horas, dá tempo de se arrumar e se despedir das suas amigas. O jatinho está nos esperando no aeroporto. – Ele me soltou. Sai da sala em silencio, e ao mesmo tempo pensando no que iria fazer.

Fui para meu quarto, e vi a irmã Teresa arrumado as minhas coisas. Deitei-me na cama, e comecei a chorar. A freira me olhou, sorriu e disse:

- Não chore, pense que você será feliz, está indo para casa.

- Eu não estou indo para casa irmã, eu estou indo para um casamento arranjado, onde não terei nem chance de escolher com quem vou me casar. – A irmã me olhou, e abaixou a cabeça. – Me ajude a fugir deles...

- Você sabe que eu não posso... se a madre descobrir ela vai me matar.

- Por favor irmã! Você se lembra da Kate? – Disse eu, pegando nas mãos dela. – Ela estudou aqui, e foi obrigada a se casar. Ela foi estuprada e espancada pelo marido...- Respirei fundo- Ela morreu e no mês seguinte ouvimos que ele se casou de novo... Por favor, eu não quero ser estuprada, nem forçada ou espancada... Por favor irmã... Me ajude! – Apertei a mão dela.

- Está bem, pegue só o essencial...- Pegamos algumas peças de roupa e colocamos na mala, sem seguida olhou no corredor e fez sinal de silencio e depois um sinal para segui-la. Assim eu fiz. Ela me levou para a cozinha, e de lá para o jardim que dava saída para os fundos. Quando cheguei ao portão para enfim ir de encontro com a minha liberdade, o portão estava trancado.

- E agora? O que iremos fazer?

– Fique quieta... eu vou conseguir a chave. – Disse ela saindo e me deixando ali sozinha.

O céu começou a clarear, olhei para os lados e a irmã não voltava... O céu começava a clarear e vendo que poderia perder minha única chance de fugir, decidi aproveitar a oportunidade. Assim, joguei a mala para o outro lado e comecei a juntar algumas caixas para conseguir pular. Ele não era muito alto... Então consegui me sentar no muro, passei uma perna e na hora que fui passar a outra, meu pai apareceu, puxando a irmã Teresa pelo braço, e a madre vinha na frente mostrando o caminho. No momento em que ele me viu, passei a outra perna e pulei...

Benjamin

Acordei, olhei para o relógio que ficava do lado da cama e ele ainda marcava 4h am. Eu estava cansado, pois no dia anterior tive vários compromissos. Mas, esta noite está difícil de dormir. No fundo eu sei o motivo do meu despertar, mas não queria assumir que me casar com outra pessoa e não com ela, seria tão difícil assim. Me levantei atordoado... a hora não passava e o sono não vinha. Fiquei na sacada olhando para a cidade, que parecia tão calma.

O dia foi chegando e eu sabia que teria um dia muito corrido. Algumas reuniões na empresa pela manhã, ir na Casa da Virgens no almoço, e a tarde ir no conselho. A noite terei um jantar de negócios, e nem sei que horas vou finalmente dormir. Ou conseguir dormir.

Pensando em todos esses compromissos, me deitei e quando finalmente ia começar a dormir, o relógio despertou:

- Droga!

Me levantei, tomei banho bem gelado, para me acordar. Coloquei um terno azul escuro, uma camiseta social branca, e uma gravata preta. Dei uma última olhada no espelho, para ver se estava tudo certo com meu terno e desci para a cozinha.

Magge estava colocando a mesa. Me sentei para tomar um rápido café e sai para enfim resolver essas questões.

Liz

Não pensei duas vezes e comecei a correr, deixando tudo para trás...

Corri... corri... corri... Meu coração queria sair... pela boca... Achei uma rua, era uma descida enorme. Corri por ela, tomando cuidado para não sair rolando. Quando estava chegando no final, me lembrei que era uma avenida, e que de lá poderia encontrar ajuda para fugir. Então, apressei os passos... Ao chegar na esquina, apareceu um carro preto... O homem desceu e me pegou, foi tudo tão rápido.

Meu pai desceu logo em seguida, olhou para mim e me e*********, me jogando no chão:

- Já disse que você não tem escolha! Levante ela... – Disse meu pai para o segurança.

- Pai, por favor...me deixe ficar aqui... Não faz isso comigo! – Disse eu com a mão no rosto e sendo obrigada a entrar no carro.

- Isso é culpa da sua mãe! Se ela tivesse ficado quieta. – Disse meu pai entrando no carro e fechando a porta.

- O que minha mãe fez?

- Ela contou para uma amiga sobre a sua existência, essa amiga- disse meu pai com ironia- era esposa de um dos sócios do cartel. Hoje você já tem dezenove anos, eu ia te deixar ser livre, mas, as coisas mudaram. Então não me culpe. Também não tive escolha!

Aaaaaahhhhhhhhhhhhh, eu queria poder gritar em alta voz, pro mundo inteiro ouvir. Logo, chegamos no aeroporto. Tinha um jatinho nos esperando. Fomos em silêncio a viagem toda. Até que eu disse:

- Com que dinheiro comprou esse jatinho?

- Não é meu! Ele é do cartel... – Ele respirou fundo e disse- Me desculpe! Eu não deveria ter batido em você... Preciso que você entenda que eu também não tive escolha. Se eu não te levar, eles vão nos matar. Então preciso que me obedeça. – Eu respirei fundo e balancei a cabeça. – Eu não queria que tivesse essa vida. Te escondi o quanto pude. Espero que entenda isso!

- Eu tinha tantos planos...

- Eu sei! Você era a melhor da sua turma. Tirava notas altas, me dava muito orgulho. Queria que pudesse ir para a faculdade, que trabalhasse no que gosta de fazer, se casasse e fosse feliz, com um homem de bem.

- Pai! Tudo bem, só me diz o que fazer?!

- Liz, eu também não sei. Só vai lá e arrume um bom casamento. – Disse meu pai, pegando em minha mão. – Sei que tem uns homens que são uns monstros. Mas, escolha bem, seja forte e não deixei ninguém te passar para trás.

O avião logo pouso. Quando fui descer a escada, meu coração gelou. Estava com tanta saudade da minha mãe. Queria vê-la e abraça-la. Está bem... Apertar o pescoço dela... sim..., mas só um pouquinho.  Ao colocar meu pé no último degrau, o motorista abriu a porta do carro. Olhei para dentro e não a vi. Respirei fundo e disse:

- Onde está minha mãe?

- Ela não pode vir... Entre! – Disse meu pai mostrando a porta aberta.

Entrei e fui olhando a paisagem. Ela tudo novo para mim. Passei a vida no internado, que já não me lembrava de como era difícil pegar trânsito, ou como tudo era tão cheio de gente e de prédios. Dava para ver as bicicletas passando, e os pedestres. Tinha tantos táxis... Estava completamente perdida olhando tudo aqui.

Chegamos em uma casa enorme. Tinha muros altos, e portões. Nós entramos e o carro parou perto de uma fonte, em frente da casa. O motorista abriu a porta. Meu pai me olhou e disse:

- Espero que um dia você possa me perdoar! - Ele desceu do carro e estendeu a mão para mim. Eu desci, tremendo. Meu coração estava muito acerelado.

Uma mulher apareceu e nos recebeu na casa.

- Por aqui! – Disse uma senhora baixinha e nos levou para um escritório.

Quando entramos na sala a mulher estava sorrindo, como se fosse engraçado me ver ali. Eu estava toda desconcertada, até que ela disse:

- Até que enfim conhecemos a famosa filha do August.

- Famosa? Eu? – Disse eu sem entender.

- Não se faça de boba menina. Até esses dias, nem sabíamos que ele tinha filha, e agora ele aparece, e é uma moça. Escondeu muito bem sua filha August. – Disse ela sorrindo para nós.

- Pare com isso Marta. O conselho já me deu o perdão e me liberou de todo castigo. Então, não venha zombar de algo, que se estivesse ao seu alcance, também faria.

- Venha mocinha, vou te mostrar a casa. – Disse ela antes de sair andando. Meu pai foi comigo, até o segundo andar da casa, em uma biblioteca. Depois ele não pode mais entrar. – Onde estão suas coisas?

- É uma longa história, eu...

- Eu não ligo! – Disse ela me interrompendo. – Vou ver se arrumo algumas roupas emprestadas para você. – Ela me levou até um quarto. Lá tinha quatro camas. – Aquela do canto é a sua. – Eu respirei fundo. – Bom, desça e se despeça do seu pai. Você não o verá até o dia em que irá se casar.

Voltei para baixo e o vi no saguão. Ele estava andando de um lado para o outro. E quando me viu, sorriu:

- O que achou da casa, filha?

- É bem grande pai. Tem bastante meninas aqui?!

- Tem sim... Me escuta... – Disse ele se aproximando – Eu não te verei, até que se case. Eles não deixam interferir nas escolhas. Então, coopere no que puder, pois elas irão arrumar um marido bom para você.  Quero que se esforce...

- Está bem pai...

- Venha... me dê um abraço! – Disse ele estendendo os braços para me abraçar. Eu o abracei o mais forte que pude. Agora que sei de mais detalhes, entendo que não está no controle dele.

O acompanhei até o carro e dos abraçamos novamente. Fiquei ali alguns minutos vendo-o ir embora. No mesmo instante em que ele saia, um outro carro apareceu entrando pelo portão. Ele estacionou, um pouco mais longe.  Dali, vi um homem alto e forte descer do carro.  De longe não dava para vê-lo muito bem, mas parecia aterrorizante...

Entrei para dentro, e a Marta estava me esperando em frente a escada. Ela me olhou com cara de brava e disse:

- Já deveria ter entrado. Aqui não somos seus empregados... Vá para seu quarto. – Disse ela indo em direção a porta de saída. – Fique lá até às 16h, depois iremos servir um café da tarde. E amanhã resolvermos as outras coisas.

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