Capítulo 06

Capítulo 6: Adam...

Ao sair do bar, segui para a minha casa em Manhantan e confesso que o caminho de volta foi como estar caminhando no fio de uma lâmina. A minha mente estava presa ao escritório, ao rosto delicado de Lídia, à sensação incômoda de que eu havia deixado algo importante escapar. Dirigia pelas ruas de Nova York no automático, quando o telefone tocou.

Olhei para o visor da multimidia do carro e era a minha mãe.

Atendi de imediato.

— O que foi? — perguntei, já sentindo um certo presságio apertar o meu peito.

Não tenho uma boa relação com a minha mãe, no fundo a culpo por nunca ter nos defendido do nosso pai. Sempre disse sim para tudo que o meu pai fazia. Sempre abaixou a cabeça para os seus erros e nos virou as costas, dizendo que ele sabia o que era o melhor para nós.

— É o João Miguel... ele está passando mal! A febre não cede e está muito fraco... — disse ela com a voz trêmula.

Matheus sempre teve a saúde delicada, crises que surgiam sem aviso, noites intermináveis em hospitais, exames que nunca davam respostas definitivas e mesmo assim, eu insistia em fingir que tudo estava sob controle. É bem mais fácil do que admitir o medo...

— Estou indo! — respondi, virando o volante bruscamente.

A raiva veio antes da culpa... raiva de mim, da situação e raiva por perceber que mais uma vez eu estava longe quando precisava estar perto.

Segui para a mansão e encontrei com a minha mãe tentando acalmar a pequena de dois anos que chorava como se sentisse a dor do irmão e Ella, cuidava de João Miguel deitado com a cabeça em seu colo no sofá, o rosto pálido demais.

— Papai... — murmurou João Miguel ao meu ver.

Aquele simples chamado foi o suficiente para me desmontar por dentro.

— Vai ficar tudo bem! — disse o pegando no colo com cuidado.

A minha mãe nos acompanhou até o hospital, o trajeto foi silencioso, quebrado apenas pela respiração fraca do meu filho.

No hospital, médicos, enfermeiros e exames... A rotina exaustiva que eu conhecia muito bem. Esperei do lado de fora do quarto, andando de um lado para outro, sentindo o peso de todas as minhas escolhas cairem sobre mim.

Um dos médicos passou por mim e disse que fariam mais exames, mas que a verdade era apenas uma... o problema era emocional.

E ali, naquele corredor frio, que aceitei uma verdade da qual vinha fugindo há anos.

Eu não dou conta sozinho e não dá para continuar distante, terceirizando a criação dos meus filhos, fingindo que dinheiro substituía presença. Eles precisam de alguém constante, alguém que estivesse ali quando eu não pudesse.

Gostando ou não, Lídia, era a única saída nesse momento. Não se trata de uma obsessão ou desejo, mas porque algo nela me transmitiu uma estranha confiança e paz... algo que há muito tempo não sentia.

Quando o dia amanheceu, João Miguel estava estável, dormindo sob o efeito de medicações. Beijei a sua testa com cuidado e saí do quarto decidido.

Levei ele para a mansão, passei em meu apartamento, tomei um banho, me arrumei e fui para a empresa.

Assim que entrei em minha sala, a secretária entrou passando a minha agenda do dia.

— Entre em contato com a candidata de ontem... a senhorita Souza... Diga que quero vê-la hoje, o quanto antes melhor! — disse a interrrompendo, pois o assunto mais importante do dia hoje era resolver a situação dos meus filhos.

— Sim, senhor! — respondeu sem questionar.

As horas seguintes foram um verdadeira inferno, reunião atrás de reunião, relatórios e discussões desnecessárias. A minha cabeça latejava, os olhos ardiam pela falta de sono e tudo me irritava com uma facilidade incomum.

Rapidamente o meu mal humor elevado dos dias comuns chegou aos ouvidos dos meus irmãos que tentaram falar comigo, mas deixei claro que era o cansaço por não ter dormido a noite passada. No entanto, essa não era a única verdade... algo dentro de mim se agitava ao pensar em Lídia, uma mistura de medo, desejo e esses estranhos efeitos que ela causa em meu corpo quando está por perto.

Quando finalmente saí da sala de reuniões estava exausto. Afrouxei a gravata e caminhei pelo corredor decidido a encerrar o dia mais cedo.

Foi então que a vi... Lídia.

Ela estava sentada no sofá da recepção, postura elegante apesar de sua simplicidade e usava um vestido comportando claro, cabelos soltos caindo pelos ombros até o meio de suas costas. Conversava baixo com a secretária, sorrindo de forma educada e aquela sensação de paz foi imediata.

O meu coração acelerou sem pedir permisão e a boca ficou seca. Era como se o caos da noite anterior tivesse sido colocado em silêncio assim que os meus olhos a encontraram.

Assim que me viram, ela se colocou de pé.

— Bom dia, senhor Carter! — disse em tom suave, com um sorriso contido nos lábios.

— Bom dia, senhorita Monteiro! — respondi tentando ser o mais neutro possível. — Já deve saber o motivo de ter mandado te chamar?

— Sim! E agradeço pela oportunidade! — Fiquei muito feliz com a ligação e prometo que não irá se arrepender!

Assenti indicando o caminho.

— Vamos direto para a mansão... no caminho conversamos melhor!

A secretária olhou para mim com uma sobrancelha arqueada, ela sabe muito bem que não dou chances das pessoas falarem muito e Lídia já tinha ido muito além.

Fitei a mulher com o olhar e ela abaixou a cabeça sem graça.

Seguimos até o elevador.

O silêncio entre nós era ensurdecedor, nada desconfortável, mas ainda assim evitava olhá-la diretamente. Não por causa da sua semelhança com Núbia, porque já percebi que isso era apenas algo superficial... o que realmente me afetava era outra coisa. Lídia tem uma estranha luz consigo que traz paz e calma em meio aos tormentos que luto constantemente.

Dentro do carro expliquei de forma objetiva, quase mecânica.

— O trabalho exige residência fixa na mansão, horários felixíveis e principalmente responsabilidade total com as crianças, principalmente com o mais novo e a bebê! Há funcionários, mas a palavra final será sua no que diz respeito a eles!

Ela ouvia tudo atentamente e assentia.

— A parte burocrática será resolvida pelo jurídico da empresa! Salário, contrato, tudo dentro da legalidade!

— Confio no senhor!

Suas simples palavras fizeram eu engolir em seco e o coração acelerar ainda mais e evitei virar o rosto. Essa mulher tem o dom de me desestabilizar, até o seu perfume discreto faz a minha concentração vacilar. Não é desejo... é algo puro, profundo e muito perigoso.

— Te alerto que os meus filhos não são fáceis... especialmente o mais velho!

— Crianças difíceis geralmene só precisam ser vistas... fazem tudo para chamar a atenção!

A frase me pegou desprevenido e apertei o volante com mais força, engolindo em seco.

— Espero que esteja preparada! — finalizei.

— Estou! — respondeu sem hesitar.

Chegamos à mansão, estacionei o carro e finalmente a encarei de frente. Não vi Núbia, não vi o passado... vi apenas uma garota simples, humilde, motivada e que não carregava o peso das minhas lembranças.

Naquele momento, tive certeza de que eu não conseguiria fugir do que estava por vir e que trazer Lídia para dentro da minha  casa mudaria tudo... para o bem ou para o caos absoluto.

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