Capítulo 05

Capítulo 5: Lídia Santos...

Como uma ferida aberta, ainda sinto arder o último dia em que dancei naquela boate.

Não foi apenas uma apresentação, foi um adeus!Mesmo que eu não soubesse disso, minutos antes de subir ao palco.

Nunca iria me acostumar com aquela vida, mas respirei fundo e deixei o corpo seguir a música. As luzes, a fumaça, os olhares famintos... aquilo tudo, sempre foi um personagem que vestia para sobreviver. Forte, provocante e inalcansável... ninguém ali precisava saber quem eu realmente era.

Quando os meus olhos cruzaram os dele, senti algo estranho se agitar dentro de mim, mas fingi não me abalar. Mesmo lindo, com aquela postura imponente e olhar frio, reconheci a dor e a ferida aberta que carregava neles.

Reconheço pessoas assim, que perderam algo grande demais e decidiram nunca mais sentir.

Imediatamente recusei o convite e o diheiro, meu caráter e a minha dignidade não estão a venda. Passei a dançar, quando a minha mãe ficou doente e precisava de uma cirurgia, então para pagar fiz um contrato com o dona da boate, mas sempre deixei claro que nunca me deitaria com nenhum homem. Ele garantiu a minha segurança ali dentro e cumprim meu trabalho sempre com profissionalismo.

Naquela mesma madrugada, arrumamos as nossas coisas e fugimos para Nova York.

O meu nome é Lídia Santos, tenho 27 anos, 1,70 de altura, magra com curvas marcantes. Um corpo marcado por escolhas difíceis e uma mente que nunca aprendeu a ficar parada. Sou formada em pedagogia, poliglota  por necessidade e curiosidade. Mesmo levando uma vida simples, nossa mãe sempre nos incentivou a fazer cursos entre eles computação e línguas. Aprendemos idiomas como quem aprende a se defender... cada palavra era uma nova porta aberta.

O meu cabelo é castanho-escuro, longo quase sempre preso quando estou nervosa. Os meus olhos são claros demais para alguém que já viu tanto. Tenho cicatrizes que não aparecem no espelho e um sorriso que uso como escudo quando o mundo pesa mais do que deveria.

Cresci no Brasil, fui adotada aos sete anos por uma mulher que me escolheu entre tantas crianças abandonadas na rua. Não lembro do rosto da minha mãe biológica, apenas do vazio que ela deixou. No entanto, lembro perfeitamente do dia em que segurei a mão da minha mãe adotiva pela primeira vez e foi ali que tudo começou de novo. Ganhei uma família, uma mãe e dois irmãos.

Joice chegou à nossa vida dois anos depois,Eduardo três anos mais tarde. Nenhum de nós nasceu do mesmo ventre, mas fomos moldados pelo amor e nossa mãe nos criou sozinha, com dificuldades, mas nunca permitiu que faltasse dignidade.

Eduardo, o mais novo, sempre foi o meu porto seguro. Mesmo com a sua pouca idade, sempre foi protetor, sério e com aquele senso de responsabilidade que o mundo colocou cedo demais em seus ombros. Joice, a do meio, era a luz entre nós, falante, intensa, extrovertida e muito amorosa.

Eles são tudo o que eu tenho e eu sou tudo o que eles têm agora. A nossa mãe morreu a poucos dias, uma morte rápida, cruel e devastadora. O tipo de perda que não dá tempo de se despedir e fica aquela dor martelando todos os dias.

Quando a enterramos, algo mais foi enterrado com ela... a sensação de segurança e junto com o luto veio o medo. Um segredo que apenas nós duas sabíamos, um erro do passado, uma verdade escondida por anos que mudou a minha vida sem que eu tivesse escolha e agora estamos sendo caçados.

Fugir nunca foi covardia para nós, mas sim uma questão de sobrevivência.

Chegamos com pouco dinheiro, documentos em ordem por um milagre burocrático e um plano já armado por nossa mãe no caso dela partir.

Não poderia mais dançar, depois de prometer à nossa mãe, em seu último suspiro que cuidaria dos meus irmãos custasse o que custasse.

Dois dias depois, estavámos em um pequeno apartamento no Queens, tentando nos adptar à nova vida. Joice conseguiu um emprego temporário e Eduardo começou a procurar cursos. E eu decidi tentar um trabalho mais próximo daquilo que eu havia me formado, talvez o impossível... trabalhar com crianças.

Quando vi o anúncio para babá, parecia bom demais para ser verdade. Um trabalho com salário excelente, vários benefícios e a tão sonhada estabiidade.

Coloquei a minha melhor roupa, prendi o cabelo num rabo de cavalo, respirei fundo e fui em busca dessa oportunidade com os meus irmãos torcendo por mim.

E ao entrar naquele escritório, o mundo parecia fazer piada comigo outra vez... lá estava ele. O homem da boatee, frio, imponente e intimidante.

Por um segundo, pensei em fugir de novo, mas fiquei, porque os meus irmãos precisavam de mim. E porque eu precisava provar a mim mesmo que sou sim forte e posso me reconstruir.

Quando saí daquela sala o meu coração batia descompassado. Não sabia se me ligaria e na verdade eu nem sei se queria que ele ligasse. Afinal, tinha a estranha sensação de que nossas histórias estavam prestes a se colidir.

Talvez o destino ou apenas mais um desafio. E se tem algo que aprendi ao longa da vida, é que desafios... eu nunca recusei.

Quando saí dali, sem saber se seria chamada, senti um fio de esperança enrroscar-se em meu peito. Não por ele, pelo emprego e pela chance de dar estabilidades aos meus irmãos.

A minha família é tudo o que tenho e é por eles que sigo em frente, mesmo carregando esse segrado que ameaça vir à tona a qualquer momento.

Caminhei de volta para casa desanimada e ao mesmo tempo preocupada. Preciso muito do emprego, os meus irmãos precisam de mim...

Lembrei do olhar daquele homem, a forma como ele me olhou era assustadora e ao mesmo tempo intensa. Ele parecia estar em conflito consigo mesmo, mas não posso negar que o homem é lindo.

Não sei quem ele é, não conheço a sua história, o que sei é que senti algo inexplicável, uma mistura perigosa de curiosidade e receio.

Balancei a cabeça afastando esses pensamentos. Não posso esquecer que ele queria comprar uma noite comigo e isso além de ser humilhante é constrangedor.

Ao chegar no apartamento, encontrei com Eduardo montando currículos.

— Como foi a entrevista, mana?

— Ficaram de me ligar... mas tenho certeza que vou conseguir! — minto, forçando um sorriso.

— Estou fazendo alguns currículos, também vou trabalhar e ajudar com as despesas da casa e o cursinho!

— A mamãe ia querer que se dedicasse apenas aos estudos por hora... assim como foi comigo e com a Joice! Deixe isso com a gente, ok?

— Mas...

— Mas nada! Assim vai me deixar mais tranquila!

Assentiu com um olhar frustrado.

Deixei um beijo no alto da sua cabeça e fui preparar o almoço.

Espero do fundo do coração que Nova York não seja apenas um refúgio ou o cénario perfeito para o passado me encontrar de uma vez por todas, mas sim, o começo de uma nova vida.

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