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Capítulo 2 Ethan Sem Sobrenome

Harper girou sobre os calcanhares.

Depois de três passos, percebeu que ele não a seguia.

Voltou-se.

— Existe algum problema?

— Vários.

— Escolha o que pode ser resolvido em menos de cinco minutos.

— Você não faz ideia de quem eu sou.

Ela o analisou dos sapatos polidos ao relógio discreto, que provavelmente custava mais do que a caminhonete da Wild Bloom.

— Um homem bem vestido que perdeu o caminho para uma reunião?

— Uma hipótese interessante.

— Um advogado?

— Não.

— Segurança?

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Eu pareço segurança?

— Você parece alguém que já expulsou pessoas de lugares.

Dessa vez, houve um brilho de diversão nos olhos dele.

— E você parece alguém que já foi expulsa.

— Uma única vez. E o gerente se arrependeu.

— Por quê?

— Porque eu levei os arranjos florais comigo.

O silêncio entre eles durou um segundo.

Harper percebeu que estava perdendo tempo.

— Olhe, Ethan sem sobrenome, eu tenho uma instalação floral de quase duzentos quilos esperando para desabar sobre convidados ricos. Se ajudar, talvez impeça uma tragédia. Se não ajudar, poderá ser atingido por uma orquídea durante o coquetel. A escolha é sua.

Ele a observou por tempo suficiente para deixá-la desconfortável.

Não era um olhar vulgar.

Era pior.

Parecia que ele tentava compreendê-la.

Harper odiava ser analisada.

— Onde estão as caixas? — perguntou ele, por fim.

Ela sorriu.

— Sabia que havia bondade escondida sob essa personalidade terrível.

— Não confunda curiosidade com bondade.

— Eu não confundiria você com bondade nem sob ameaça.

Harper voltou a andar.

Dessa vez, ouviu os passos dele atrás de si.

As caixas estavam no corredor de serviço. Ethan tirou o paletó, dobrou-o com cuidado e o colocou sobre uma cadeira.

Harper tentou não prestar atenção no modo como a camisa branca se ajustava aos ombros dele.

Falhou.

Não de maneira dramática.

Apenas o suficiente para ficar irritada consigo mesma.

— Aquela — disse, apontando para a maior caixa.

Ethan olhou para ela.

— Você escolheu a mais pesada de propósito.

— Escolhi porque estou desenvolvendo confiança em você.

— Nós nos conhecemos há dois minutos.

— Então não estrague algo tão bonito.

Ele se agachou e ergueu a caixa sem dificuldade.

Harper piscou.

Braços importantes, confirmou mentalmente.

Muito importantes.

— Vai continuar olhando? — perguntou ele.

— Estou avaliando a técnica.

— E qual é o diagnóstico?

— Arrogância crônica. Possível dificuldade em receber instruções. Braços aceitáveis.

Ethan quase deixou a caixa cair.

Harper virou-se rapidamente para esconder o sorriso.

Quando chegaram ao salão, Maya olhou para Ethan, depois para Harper, e arregalou os olhos.

— Você encontrou alguém.

— Encontrei braços.

— Percebi.

Ethan colocou a caixa no chão.

— Ela costuma falar sobre pessoas como se fossem equipamentos?

Maya abriu a boca.

Harper interrompeu:

— Não dê atenção a ela. A lealdade da Maya pode ser comprada por café gelado e benefícios básicos.

— Férias também — acrescentou Maya.

— Estamos negociando.

Harper abriu a caixa e começou a retirar suportes metálicos.

— Precisamos levantar aquela lateral da estrutura.

Ethan acompanhou seu olhar.

O jardim suspenso ocupava quase todo o teto central. Galhos artificiais, flores naturais e centenas de pequenas luzes formavam uma espécie de nuvem sobre a pista de dança. Um dos lados estava alguns centímetros mais baixo.

Para Harper, parecia um desastre.

Para qualquer outra pessoa, provavelmente parecia perfeito.

— Está torto — disse ela.

— Mal dá para perceber.

Harper virou-se lentamente.

— Retire o que disse.

— Eu disse que mal dá para perceber.

— Eu ouvi. Estou lhe dando a oportunidade de preservar sua dignidade.

— A estrutura está três centímetros mais baixa à esquerda.

Ela estreitou os olhos.

— Quatro.

— Três.

Harper pegou uma fita métrica do bolso.

Ethan segurou uma das pontas.

Mediram.

Três centímetros e meio.

Os dois se encararam.

— Eu estava mais perto — afirmou Ethan.

— Não existe “mais perto” em decoração.

— Existe em matemática.

— Flores não se importam com matemática.

— A gravidade se importa.

Harper puxou a fita da mão dele.

— Segure a escada.

— Não.

— Como assim, não?

— Você vai subir usando esses sapatos?

Ela olhou para as próprias botas de salto baixo.

— São botas de trabalho.

— São uma tentativa de processo judicial.

— Eu subo em escadas desde antes de você aprender a combinar gravata com arrogância.

— Isso não faz sentido.

— Fez dentro da minha cabeça.

— Imagino que muitas coisas façam.

Harper abriu a escada.

— Segure.

— Chame um funcionário da montagem.

— Você está aqui.

— Eu não sou funcionário da montagem.

— Isso está se tornando uma questão emocional para você.

Ethan expirou devagar, segurou a escada e olhou para ela.

— Suba.

Harper subiu.

Do terceiro degrau, conseguiu alcançar a parte inferior da instalação. Precisava reposicionar um cabo e apertar uma presilha metálica.

— Mais para a esquerda — disse Ethan.

— Eu sei.

— Está puxando o cabo errado.

— Eu sei.

— Então por que está puxando?

— Porque você está falando e eu perdi a vontade de viver.

Ela se esticou um pouco mais.

A escada balançou.

As mãos de Ethan se fecharam imediatamente nas laterais.

— Desça.

— Não.

— Harper.

Foi a primeira vez que ele disse o nome dela daquela maneira.

Sem ironia.

Sem impaciência.

Apenas firmeza.

Um arrepio percorreu a nuca de Harper, o que era completamente absurdo.

Ela nem gostava daquele homem.

— Pare de me dar ordens — respondeu.

— Você passou os últimos quinze minutos fazendo exatamente isso.

— É diferente quando eu faço.

— Imagino que essa seja a regra para tudo na sua vida.

Harper alcançou a presilha.

— Só mais um segundo.

— Você está se inclinando demais.

— Estou quase—

O salto da bota escorregou.

A escada inclinou.

Harper perdeu o equilíbrio.

Por um instante, viu apenas luzes douradas e o teto do salão girando acima dela.

Então caiu.

Não chegou ao chão.

Dois braços fortes a seguraram no ar.

O impacto arrancou o ar dos pulmões dela, mas não doeu. Ethan deu um passo para trás, absorvendo o peso, e Harper acabou pressionada contra o peito dele, com uma das mãos agarrada ao ombro firme e a outra fechada na parte frontal de sua camisa.

Tudo ficou silencioso.

Não o salão.

O salão continuava cheio de vozes, passos e equipamentos sendo arrastados.

O silêncio aconteceu apenas entre os dois.

Harper sentiu a respiração dele tocar seu rosto.

Percebeu a mão de Ethan em sua cintura.

Os dedos dele estavam firmes, quentes, espalhados sobre o tecido do macacão. A outra mão sustentava suas costas.

O rosto dele estava próximo demais.

Tão próximo que ela conseguia ver um pequeno corte sob o queixo, provavelmente feito ao se barbear. Tão próximo que o azul dos olhos dele já não parecia frio, mas profundo, quase perigoso.

— Você está bem? — perguntou Ethan.

Harper abriu a boca.

Nada saiu.

Aquilo era inaceitável.

Ela sempre tinha algo a dizer.

— Estou — conseguiu responder.

A voz saiu mais baixa do que pretendia.

Os olhos dele desceram por uma fração de segundo até a boca dela.

Harper percebeu.

Ethan percebeu que ela percebeu.

A mão em sua cintura apertou levemente.

O coração dela bateu com força.

Não por medo.

O que tornou tudo muito pior.

Harper limpou a garganta.

— Pode me colocar no chão.

— Tem certeza?

— Não transforme isso em um momento.

— Você caiu nos meus braços.

— Não foi uma escolha romântica. Foi gravidade.

— Pensei que flores não se importassem com matemática.

— Gravidade não é matemática.

— A física vai ficar decepcionada.

— Ethan.

— Harper.

O modo como ele repetiu seu nome fez o estômago dela se apertar novamente.

Ele a colocou no chão com cuidado.

Harper se afastou depressa, ajeitando o macacão e tentando ignorar o calor no rosto.

Maya estava parada a poucos metros, segurando um rolo de fita adesiva e olhando para os dois.

— Eu perdi alguma coisa? — perguntou.

— Harper descobriu a gravidade — respondeu Ethan.

— Eu escorreguei.

— Nos braços dele.

— Maya.

— Estou apenas organizando os fatos.

Harper lançou um olhar ameaçador.

Maya ergueu as mãos.

Ethan recolheu o paletó, mas não o vestiu. Um pequeno vinco marcava a camisa onde Harper havia se agarrado.

Ela desviou os olhos.

— Obrigada — murmurou.

— Pelo quê?

— Por me segurar.

— Não ouvi.

Harper o encarou.

Ele estava provocando.

E estava gostando.

— Eu disse obrigada.

— É uma expressão rara?

— Na sua presença, sim.

O sorriso dele apareceu dessa vez.

Pequeno.

Rápido.

Perigosamente bonito.

Harper sentiu algo estranho no peito.

Não gostou.

— Pronto — disse, voltando-se para a estrutura. — Acabou o espetáculo. Temos trabalho.

O telefone de Maya tocou. Ela olhou a tela e se afastou para atender.

Harper subiu novamente na escada.

Ethan segurou a base sem que ela pedisse.

— Achei que não trabalhava na montagem.

— Estou protegendo o hotel de um processo.

— O hotel sobreviveria.

— Não tenho tanta certeza sobre você.

Harper apertou a presilha, reposicionou o cabo e desceu.

A estrutura ficou nivelada.

— Perfeita — declarou.

Ethan inclinou a cabeça.

— Quase.

Ela o olhou.

— Não ouse.

— A lateral direita está um centímetro mais alta.

Harper mediu.

Estava perfeitamente nivelada.

Quando se virou, ele sorria.

— Você fez uma piada — disse ela, horrorizada.

— Não.

— Fez, sim.

— Foi uma observação.

— Uma observação falsa destinada a provocar uma reação. Isso é uma piada.

— Parece que você se considera especialista.

— Sou engraçada naturalmente.

— Você é barulhenta naturalmente.

— É quase a mesma coisa.

Maya voltou apressada, o rosto tenso.

— Harper, precisamos conversar.

O sorriso dela desapareceu.

— O que foi?

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